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sábado, 23 de outubro de 2010

LINHAS TRAÇADAS













LINHAS TRAÇADAS

Traçadas estas linhas
Deixo-me entre a vigília e o sono.
A estas linhas que são minhas
Agora me entrego em abandono.
A Vida corre doce,
Com alguns acessos de nostalgia
Perco-me em pensamentos
E trago viva sempre uma agonia.
Nas pedras duma ruína?!
Se solta o queixume dos ventos
E nesta saudade minha
Minha alma se inclina.

Choro minhas horas perdidas
Sobre meu peito, a paz desponta
Horas de ilusões despidas
Chorando a vida,
A vida que vai a uma ponta.
Chorando o caminho,
Tentando desviar o espinho.

Esquecer as mágoas, procurar o prazer
E na saudade que ainda aparecer
Dizer-lhe que é cedo p'ra morrer.
Lentos os anos, não precisam de correr.

rosabrava

quinta-feira, 21 de outubro de 2010

UMA ROSA













UMA ROSA

É uma rosa despida
Uma rosa só ilusão
É uma rosa caída
No mundo da solidão.
É uma rosa desfolhada
Pétalas a cobrir o chão
Tráz a fronte inclinada
No olhar lágrimas de emoção.

É uma rosa caprichosa
Saudade de quando era botão
Que fez a Vida à rosa?!
Que a deixou sem sedução!?
Rala no peito a saudade
De quando era botão.

Mas flor é sempre lembrada,
Mesmo murcha é flor!
Ainda que desbotada
O cravo lhe tem amor.
Tudo o tempo lhe foi levando
À rosa de fogo feita!
E a Vida a vai embriagando
Às vezes a deixa desfeita.

A deixa triste chorosa
Mas ela canta e implora
Já é da vida saudosa
A vida que a rosa adora.

Assim fala de amores
Quase, quase, quase a medo!
A rosa que é das flores
Que tráz em si o segredo,
Do seu perfume é vaidosa
Ao ver-se ao espelho se espanta
Fica muda e melindrada
Perdeu a beleza tanta
Deixou-a a Vida sem nada.

Partirá triste e chorosa
A flor que um dia foi rosa.

rosabrava

QUANTAS HORAS PASSARAM ?













QUANTAS HORAS PASSARAM?

Toda a gente parou de falar
E o grande silêncio caía
Parou o vento, o romurejar
E mais uma ruga no meu rosto aparecia.
As aves descansavam as asas
E eu numa total desmemória
O sol passou por cima das casas
Tão velhas quanto eu, com sua história.

Só os pensamentos me assaltam
Quantas horas já passaram?
Vou assim permanecer, até ao anoitecer
Já as aguas do rio se calaram
As brumas nos outeiros a aparecer
E só a escutar a minha dor o frio e a solidão
Quem me dera agarrar neste dia
Neste tempo tão cansado quanto meu coração
E limpar dele toda esta agonia.

Não sei quanto tempo ainda
Meu coração pulsará,
Neste bater incessante
Mas eu sei que viverá ainda mais um instante!
Há vozes tranquilas chegando
Já ouço as águas cristalinas
Volto de novo à vida amando
De tanto sonhar esqueci do corpo as ruínas.

rosabrava

quarta-feira, 20 de outubro de 2010

HORAS CINZENTAS













HORAS CINZENTAS

Finda o dia e no silêncio me enclausura
Silêncio, que me leva ao esquecimento
Murmura já a noite, murmura
Me chega o teu rosto, confuso, ao pensamento.

Cresceu o frio da tua ausência
Restou apenas a solidão
Sou pedra entre pedras, numa indolência
Abriu-se uma ferida em meu coração.

Partiste, já não viste!
A sombra desolada do meu rosto
O abandono sentido na noite deserta
Nem leste no meu olhar o desgosto.
E deixáste a saudade sempre alerta.

Neste refúgio, onde criávamos doçura
Resto eu, que já de mim me esqueço
Sepultada na noite continuo à procura
De encontrar o sonho, onde aconteço.
É simples o resumo duma vida
Espero o som da tua voz chegando
És a luz há muito perdida
Um mito que eu vou amando.

Meus olhos são a névoa dum dia cinzento
Nevoeiros caídos já sem remédio
Me envolvo no sonho só ele me dá alento
E me deixo folha extraviada, nestas horas de tédio.

rosabrava
natalia nuno






MENINA








MENINA

Lá vai a menina

A menina lá vai

Segue a sua sina

Olhai-a olhai!?



A menina já chora

Chora a sua sina

O amor foi embora

Chora agora menina.



O amor foi embora

Mas que triste sina!

Chora agora chora...

Lá vai a menina.



Olhai-a...olhai!

Lá vai a menina

Lá vai, lá vai

Segue sua sina.

O amor foi embora

Pobre da menina

Chora ela agora.



Olhai-a...olhai!

Lá vai a menina

Lá vai, lá vai

Cumprido a sina.



rosabrava



Um leve momento, olhando uma borboleta livre,

que volta sempre à mesma flor.

natalia nuno
rosabrava

terça-feira, 19 de outubro de 2010

SAUDADE ONDE ME ANINHO














SAUDADE ONDE ME ANINHO

Tanto sonho!Sonhos em vão!
Tão mortos como este meu peito
Onde ao de leve bate meu coração.
Batidas já sem sentido, sem jeito.
E já todo o sonho é em vão.

Saudades me acompanham neste dia
Saudades onde me aninho
Da obscuridade, nasce a nostalgia.
Que me faz sombra p'lo caminho.

Aos anos, somam-se os anos
Levo lembranças e cansado meu coração
Palavras quebradas, e alguns danos
E instantes de esperança que são ilusão.

Perco-me na confusão do pensamento
Refugio-me na saudade é o meu jeito
Vivo embalada a cada momento
Se pára a vida, pára o coração no peito.
Quero viver e amar, amar a vida ainda!
Mesmo definhando a existência pouco a pouco
Quero viver e amar porque a vida é linda
E zombar de mim, achando-me poeta louco.

Cantarei sempre até morrer
Meus versos ficarão!?
E a quem os queira ler, pode crer!
São feitos de sentimentos nobres
Assim nobres eles são!

rosabrava

domingo, 17 de outubro de 2010

SONHO e SAUDADE













SONHO e SAUDADE

Cai a noite negra insondável
E a minha Vida parece pairar
Num sonho desafiando a eternidade.

Sonho incansável!
Fecundado de saudade.
Do passado vale a pena lembrar.

Nesta noite cor de malva
O Mundo continua a avançar
Eu fico à janela do medo,
Da solidão a palavra me salva
Vou a Poesia exaltar
Neste tempo triste e ledo.

Há nuvens de tempestade
O escuro de breu, a noite caída
Visto-me da minha saudade
E serenamente fico criança adormecida.

A noite avança ribombam trovões
E eu sonho com jogo de infância
Como são belas estas minhas visões.

Neste poema em mim, preso à distãncia.
Pode até parecer loucura sem remédio
Mas a Vida sem sonho não passa de tédio.

Aproxima-se o renascer da manhã
Cai agora uma chuva miudinha
E as nuvens correm no seu afã
Eu ainda no horizonte desta saudade minha.
Fica o sonho mais nada...
Onde me invento ainda criança amada.



rosabrava

PÁSSARO NA TEMPESTADE













PÁSSARO NA TEMPESTADE

Indolentemente me recosto no meu canto
Deixo o livro aberto sobre os joelhos
Vai o sol a ocultar-se num acobrear de encanto
Oferecendo-me seus ultimos raios vermelhos.

E vai ficando mais leve meu coração
Desisti de querer encontrar em tudo sentido
Vou vivendo o sonho faço dele meu irmão.
Como pássaro que se ergue adivinhando tempestade,
Tomada duma inquietação, neste Mundo perdido
Perdi a conta às vezes que falo de saudade.
Desarmada pelo tempo, fica o meu peito ferido.

O vento lança o seu lamento frio
Cá vou andando, passo a passo
Ora choro ora rio
Dos destroços duma vida de cansaço.
E como se alguém me perseguisse?!
Ainda assim meto os pés a caminho
E se o tempo me engolisse?
É justo o caminhar, mesmo com o fim pertinho.

Os olhos trago assombrados
Minhas recordações encarquilhadas
Meus dedos quebrados
Minhas ideias feitas asas esvoaçadas.
Mas eu ainda me quero
Minha alma é colorida
Nego o medo e o desespero
E agarro-me ainda à Vida.

rosabrava

TRANÇAS FINAS



TRANÇAS FINAS

Tranças finas
Lhe circudavam a cabeça.
Como querem que a conheça?
Em pontas de pés, imitando bailarinas.
Desprendia o cabelo,
Serpenteava-lhe as costas e era belo!
Tranças feitas
Ora desfeitas!
Tudo tratado com desvelo.
Tudo nela era singeleza
Caminhava com firmeza.

Era menina cheia de esperança
Com um saco cheio de dias
Menina que me ficou na lembrança
Outono agora vindimado de alegrias.

Menina que cheirava a terra e a alecrim
Menina fresca de verdade
Menina que passou por mim
Deixando um rastro de saudade.

Menina de alegria inebriada
Menina antes da noite adormecida
Menina de saudade desmolhada
Hoje p'la tristeza possuída.

Hoje não há cheio nem vazio
Há saudade passada e solidão futura
Sómente um coração já frio
Cheio de razão, mas sem cura.

rosabrava

O ULTIMO SONHO













O ULTIMO SONHO

O sol me olha de frente
Deslizamos ambos para o ocaso
Sempre o morrer presente
Já da morte não fazemos caso.

Sempre o passado a insistir
Passado que deixou pégadas
Venho morrendo, sem minha boca se abrir
E as lembranças em mim já misturadas.
Lembranças que são utopia
O sonho que atravesso, e onde me gasto
E onde uma réstia de suspiros me alivia.
Aqui deixo meu olhar verde cansado
Mas deste sonho nunca me afasto.
Pois na verdade este é o meu fado.

Volto a sonhar os sonhos daquela idade
Tenho a ilusão estampada no rosto
E a mim se chega a saudade
Já não vejo o sol, é já sol posto.

rosabrava

TROVADOR DO AMOR




TROVADOR DO AMOR





Na Primavera tudo é festa
Não há dor, só há amor
No Outono a festa é modesta
Findou da paixão o calor...

II
Já não sou rosa em botão
Mas abro ao sol, isso sim
- Já Fechei meu coração...
- Já secou o meu jardim.

III
A estrelejar passo o dia
Para que não me falte luz!
Dantes, tão bem que te via
Já te não vejo, ai ai Jesus.

IV
A cerca de novo pulei
Mas sempre tu o culpado
Ao crepúsculo o beijo te dei
Deixei-te ali envergonhado.

V
Há vontade que me anima
Subo nem muito, nem pouco
Mas quero com esta rima
Meu amor deixar-te louco.

VI
Corre a água na ribeira
Na ânsia de chegar ao rio
Se não estás à minha beira
Meu amor me dá o frio...

VII
Havemos de ir à capela
Assim que a gente puder
Eu lá chegarei donzela!?
Sairei tua mulher...

VIII
Mas não puxes pela corda
Que eu posso tropeçar!?
Raios parta, raios me morda
Se não chego virgem ao altar.



rosabrava



(quadras singelas, de raiz popular)

ATALHOS DE MADRESSILVA


















ATALHOS DE MADRESSILVA
Deixo para trás a tristeza adormecida
Sonhei-me menina correndo solta
Numa manhã orvalhada e colorida
Girava o Mundo e eu girando à sua volta.
Sentindo-me leve como uma pena
Flutuando lentamente, serena.

Meus olhos ficaram verdes côr de feno novo
Brinco por atalhos de madressilvas ladeados
Minha gente olho e me comovo
Também sinto os cheiros doces dos silvados.

Lá sigo a escolher caminho
Saia agitada ao vento...
Agora ouço o canto dum passarinho
Lamentoso, vivendo em meu pensamento.

E assim vou rememorando a vida
Sonhando, vivendo um pouco aqui
Morrendo um pouco ali.
Sempre num cismar perdida.

Amanhece, minha alma fria de cansaço
Aclara o dia já sossego
Desta canseira já renasço!
E à vida de novo ganho apego.

roasabrava
natalia nuno





ZIQUEZAGUE DE FELICIDADE











ZIGUEZAGUES DE FELICIDADE


Pedaço a pedaço para preencher o vazio
À espera que a vida me acolha
Ajude a passar as horas, o tempo sombrio.
Guardo na memória, ziguezagues de felicidade
Pedaços que lembro com comoção
Com comovida saudade!
Do tempo, que abrigo ainda no coração.

Finjo que acredito que não parto assim
Trago aquela esperança não quero morrer
Que o Sol que me aquece, esse sim!
Morre todo o dia e volta a nascer.
E tudo o resto é um resto de pó
Sinto-me ainda como do dia «meio dia»!
Escrevo mil recados, assim não me sinto só
Um pouco mais de sol me bastaria.

E assim a vida é sempre mais acima
Não sei nunca como é, nem como vem
O caminho não muda e já pouco o anima
Ninguém tem como arrepiar caminho... ninguém.



rosabrava