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quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lembranças de menina...


já não ouço o galo de madrugada
nem o cão a ladrar ao vento
já não colho fruta nem flor plantada
mas trago ainda os gemidos do moinho
no pensamento,e as mulheres fazendo o pão
com a farinha e fermento
já não penduro cerejas nas orelhas
nem procuro passarinhos novos nas telhas
já não ouço o barulho dos alcatruzes
nem apanho goivos liláses
nem musgo do presépio entre as urzes
nem brinco com o pião como os rapazes

já não olho os peixes no rio
por entre os junquilhos
nem ouço o eco dos meus passos
na ponte,
morreram os homens que jogavam matraquilhos
enquanto morria o sol no horizonte...
há sombras pelos campos e a praça está deserta,
a fonte sossegada
já não há moças namorando à noite pela calada
aves já não páram aqui partiram para parte incerta
já só restam janelas fechadas nem uma fresta!
ninguém por elas espreita apagou-se a vida
nada mais resta...

na aldeia agora só toca o sino da igreja
a lembrar quem se foi
nada a minha fé almeja
e a saudade é muita e dói!

ausentes estão minhas mãos e braços
e de todos que partiram, perdi os abraços
no baú que herdei, está minha velha roupa
e da cozinha ainda me vem o cheiro da sopa
o tempo tudo corrói, tudo traça
só a aldeia continua cheia de graça

pretendo manter-me viva com esta paixão
dentro de mim. escrevo-te este extenso poema
olhando o firmamento e tudo perdura
até a saudade sem fim...no coração!
perco-me por entre os laranjais
e ouço as rãs na memória dos rumores
e o piso escorregadio lembro por demais
do açude, e da roupa branca no sabão
toco flores, num avanço e recuo doce
e de novo a saudade no coração
lembrando a menina como se ainda o fosse.
e aquele pássaro ainda me canta aos ouvidos
e à noite o luar devolve-me os sentidos
ouço um murmurar que me traz tranquilidade
o murmurar duma infinita saudade...

natália nuno
rosafogo




quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

nostalgia de doer...



m'nha alma anda ao sabor dos enganos
onde será que ela vagueia agora?
sofrida com o decorrer dos anos
nem de por força morrendo
arranja sossego nesta hora.

paira no ar um rumor de noite calma
por perto uma ave canta, canta
aos ouvidos da m'nha alma
lá em cima o resplendor da lua
que a terra envolve, já pensando
no cortejo da aurora
enquanto m'nha alma por onde andará
agora...

vem do campo o aroma do relento
meus olhos verdes olham em torno
uma brisa morna, que me traz o vento
o coração em desordem do sofrer
ainda morno...
pela boca da noite fala-me a saudade
como um pássaro que anseia pela madrugada
m'nha alma onde andará de verdade?
que se recusa no meu corpo fazer morada.

natalia nuno
rosafogo


trago sinais de nada...



longe vais meu rio d'água
onde minha sede se saciava
pergunto agora pelo meu rosto
que em ti se lavava...
hoje trago sinais de nada
envelhecidos p'lo cansaço
espelho gasto que não reflecte
vou adiante passo a passo
mas a vida já nada promete.

um dia termina,
e tu rio que me viste menina
dir-me-ás adeus, nessa tarde reclinada
sobre nós,
com um canto triste e sombrio
me despeço de ti ó rio
eu, tu e o salgueiro a sós,
levo nos olhos a tua límpida água
e deixo-te com minha mágoa.

o meu nome levará a dor
e um anjo selará o nosso infinito
amor...

já não posso remontar sonhos
esqueci o cheiro da alegria
e nossos segredos bem escondidos
sabes tu, da minha pele macia
sei eu, dos salgueiros que te olham embevecidos
há ilusões e há repentes
que sou ave entre a folhagem
e em ti revejo minha imagem
meus olhos janelas baças
já de tanta fragilidade
parece-lhes ver a jovem,
de quem trazem saudade...

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 22 de dezembro de 2017

sonho-te...poema traduzido na língua catalã



Poema de NATÁLIA CANAIS NUNO traduït del portugués al català per PERE BESSÓ
.
ET SOMIE
.
No hi ha dolor
només la veu matxucada en la tarda lenta
escric i els meus dits canten a l’amor
que l’enyor inventa...
sent el vent per entre les branques de l’acàcia
què dirà ella voltant pel jardí?
Escric i hui plou dins
de mi...
el vent en el seu cant culminant
gosa d’interrompre aquest silenci pur
com a voluptuós amic i amant
entra en el meu cos desabrigat
es deté com centella
en un foc apagat.
torne a la meua mudesa
la deixe partir, en un vol lent
demà potser...
aconseguesca el meu cor ressuscitar
aqueix vent amic i amant
em done un bes en l’hora de gitar-se.
sempre que la soledat s’insinua
et somie i et trobe en les memòries perdudes
en el vent, que a poc a poc m’envaeix
sóc teua de nou en aquestes línies contingudes,
on ara nie al somni entrellaçada
fins a la matinada...
.
.natalia nuno
rosafogo

SONHO-TE
.
não há dor
apenas a voz esmagada na tarde lenta
escrevo e meus dedos cantam ao amor
que a saudade inventa...
ouço o vento por entre os ramos da acácia
o que dirá ele às voltas p'lo jardim?
escrevo e hoje, chove dentro
de mim...
o vento no seu canto culminante
ousa interromper este silêncio puro
como voluptuoso amigo e amante
entra no meu corpo desabrigado
detém-se como centelha
num fogo apagado.
volto à minha mudez
deixo-o partir, num vôo lento
amanhã talvez...
consiga meu coração ressuscitar
esse vento amigo e amante
me dê um beijo na hora de deitar.
sempre que a solidão se insinua
sonho-te e encontro-te nas memórias perdidas
no vento, que me invade devagarinho
sou tua de novo nestas linhas contidas,
onde agora me aninho
ao sonho entrelaçada
até de madrugada...
natalia nuno
rosafogo
Ver TraduçãoPoema traduzido para a língua catalã 
pelo amigo Pere Bossó, uma bela surpresa...muito obrigado.

quinta-feira, 21 de dezembro de 2017

sonho-te....



não há dor
apenas a voz esmagada na tarde lenta
escrevo e meus dedos cantam ao amor
que a saudade inventa...
ouço o vento por entre os ramos da acácia
o que dirá ele às voltas p'lo jardim?
escrevo e hoje, chove dentro
de mim...

o vento no seu canto culminante
ousa interromper este silêncio puro
como voluptuoso amigo e amante
entra no meu corpo desabrigado
detém-se como centelha
num fogo apagado.

volto à minha mudez
deixo-o partir, num vôo lento
amanhã talvez...
consiga meu coração ressuscitar
esse vento amigo e amante
me dê um beijo na hora de deitar.

sempre que a solidão se insinua
sonho-te e encontro-te nas memórias perdidas
no vento, que me invade devagarinho
sou tua de novo nestas linhas contidas,
onde agora me aninho
ao sonho entrelaçada
até de madrugada...

natalia nuno
rosafogo







segunda-feira, 18 de dezembro de 2017

lembranças, louca companhia...



lembranças movem-se
na mente
numa louca orgia
e eu mudamente
finjo não sentir
tão louca companhia,
estreitam-me em seus laços
e cada uma me fala diferente
trazem-me saudades dos teus abraços
galopam dia e noite doces e constantes,
recordam-me teus passos
uma morre, logo outra nasce,
instante a instante...e o sonho
faz-se.

lembranças nostalgias aos molhos
trazem-me alegrias ou lágrimas aos olhos
engendram-se em mim
e em mim se abandonam
com voz desvelada,
que hei-de eu fazer
se me sinto lembrada
numa saudade que não consigo
esconder?!
saudades trago uma braçada
que acabei de colher.

as horas sucedem-se
e eu neste viver
o sonho, tão perto e se foi
fez-me feliz, como tive esperanças
de o ser...hoje nos meus olhos
a sombra que dói!


natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 15 de dezembro de 2017

histórias recontadas...: encontro de rua casual...comadres I

histórias recontadas...: encontro de rua casual...comadres I: Claro que são as comadres!encontro de rua casual Sempre com tanto para contar, ele são os filhos, e depois os netos, e eram os maridos...

quinta-feira, 14 de dezembro de 2017

lembranças saudosas....




hoje lembrei a adolescente que conservo na lembrança com comovido afecto, e recordei-a feliz e descontraída, no seu sapato alto e saia reduzida, orgulhosa da sua aldeia e da sua gente que apesar de pobre, era rica de sentimentos, sendo eles que deram sentido e esperança ao desabrochar desta adolescente. hoje, lembrei também dos rapazes de mãos rudes e palavras desajeitadas e dos bailes onde sonhava ser princesa sem castelo....há diariamente uma história que conto a mim própria que jorra desta fonte que é meu passado, ora alegre ora sombria mas sempre viva... a aldeia e eu seduzimo-nos mutuamente, há recordações que acarinho e evoco nas minhas horas sombrias e assim me vou distanciando da solidão dos dias, sentindo que agora sou de novo um ponto ínfimo no fim da caminhada... devora-me o tempo, só a Poesia me  conforta e a memória é ainda guardiã do arquivo onde guardo todas as lembranças... lembranças que me segredam os azuis do arco íris que preciso para voar, se inclinam sobre mim com ideias risonhas e me afastam pressurosamente do ser que sou agora...

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 13 de dezembro de 2017

pequena prosa...


Cada homem tem uma história para contar,
leva a vida como pássaro, a granjear a subsistência
caminha por atalhos cinzentos com a chuva dentro dele,
desde que nasce o sol até que se despede de si com o corpo cansado
desposando o sono e derramando o seu desejo nesse repouso,
onde como rio se afasta... aguarda a madrugada para renascer de novo
de mãos vazias, apenas o coração a bater... e o afecto que nele nutre por alguém que o traz ainda embriagado, algum rumor antigo que lavra na sua memória, que evita lembrar, para não se sentir de novo abandonado e para que os olhos não voltem a chorar desamparados... abre o dia e ilumina-se a noite e ele neste vai vem até esquecer a idade e sentir o sabor amargo da travessia...abandona-se à sua verdade como se fosse uma folha em branco de onde já não quer sair...sente nos ossos o som da morte que ao longe caminha sorrateiramente...

natalia nuno





pensamento



Sobre o mar sereno dos pensamentos, surge de quando em quando uma nuvem negra que se avoluma e faz bater o coração a um ritmo quase doloroso...

natalia nuno

hora calada



casa branquinha
minha velha casinha
ainda ouço nela
as gargalhadas sonoras,
dizia a mãe: ri-te, ri-te
que logo choras!
na janela os raios de sol
o sino da igreja bate as horas
as horas mansas, mornas, ternas
aos meus ouvidos eternas.
soam-me ainda os ais
da avó de luto vestida,
e as rezas que nunca eram de mais
para agradecer a Deus a vida.

casa velhinha
hoje assombrada
onde as almas deambulam
p'la  calada

os ramos frágeis do salgueiro
caindo sobre o  poço
agora sem burro à nora
nada ali já ouço...
na nostalgia desta hora
só permanece da terra o cheiro
minha última sensação
o destino marcou, e o tempo
vai -me levando o coração
resta-me a lembrança
foi Deus que assim quis
que apesar da mágoa, foi ali
que fui feliz!

natalia nuno
rosafogo

eu e tu, apenas...



puseste a mão na minha cintura
vi estrelas na noite a brilhar
eras um rio de ternura
de mansinho na madrugada,
em mim a desaguar
tantas lembranças serenas
tempo de fascínio, o pulsar da magia
eu, e tu apenas
a quebrar o silêncio na casa vazia
deixei-me aprisionar
até que o dia a noite afogou
e trouxe gotas de mel ao teu olhar
que o outono suavizou...

sinto a leveza do vento
o perfume dos teus beijos
é o momento para cair de novo
no abandono dos teus braços
alheia à vida, numa volúpia tardia
amar, amar era o que mais queria
na margem do teu rio que me abriga
numa plenitude sem idade
enquanto um bando de pássaros
canta lá fora a sua cantiga.

fica o coração abater em lentidão
surge a saudade,
como um último vento de verão
e na aurora do desejo... só mais um beijo.

natalia nuno
rosafogo






















terça-feira, 12 de dezembro de 2017

quem se lembra amanhã...



quem lembrará amanhã
de meus versos de saudade
desta tristeza que trago
que escrevo e não apago
ao recordar da mocidade

quem lembrará amanhã
meu nome escrito na folha
 talvez algum sonho o acolha
oração que lhe dê guarida
e assim me lembre em vida

quem lembrará amanhã
do Poeta que Deus fadou
dos queixumes, desta fome
da saudade que o consome
 da solidão que testemunhou

quem lembrará amanhã
o brilho da sua imaginação
os lábios que a sombra calou
a alma que a morte devorou
a melancolia que traz no coração

quem lembrará amanhã
do sofrimento e do pranto
do vendaval a correr
do padecer que é tanto
deste gosto de sofrer...

mas, quem amanhã me lembrar
que saiba que m' sonho é verde
hei-de escrever até cansar
até...que a memória se perca
a tempestade me quebre
a vida me seja breve,
e a morte me leve.

natalia nuno
rosafogo


terça-feira, 5 de dezembro de 2017

na poeira do tempo...



na poeira negra do tempo
há flores que se desfolham
num torpor sonâmbulo e gelado,
já nenhuns olhos as olham
com olhar apaixonado
foram  flores de verde pino
de olhos verdes expressão bravia
suave ou triste foi o destino
de melancolia hoje seu dia a dia.

o tempo cria caricaturas sem dó
tira-lhes o brilho que tinham outrora
e o sorriso que as faces iluminava
pétala a pétala lhe deixam só
a saudade, que as persegue hora a hora
a saudade magoa-as, quebram-se num
silêncio cismando em tudo e nada
e há lembranças que nem chegam a abrir
quando a memória é já de si delicada

flores que teimam em não morrer
expostas ao inverno e às nortadas
alimentam-se de sonhos, querem ser amadas
ressuscitam sentimentos de tanto querer.
um murmúrio de água na voz perdida
no âmago ainda a idade de ouro
e os olhos desencantados a prender-se à vida
quando a noite é já pálpavel

natalia nuno
rosafogo





entre ser e não ser nada



há sempre uma hora que morre
deixa meu coração ermo
e minha face amadurecida
na solidão...
minhas mãos me parecem alheias
de rabiscos cheias
com poesia inacabada
entre ser e não ser nada.

ao redor a escuridão  me cerca,
na mão a bagagem triste
percorro um corredor sombrio
meu tempo se enche de vazio
e frialdade...já nem sei o que existe
sou solidão e saudade!

mais uma hora morta
como impedi-la de passar?!
ouço os passos do tempo,
deste tempo que teima meu sonho
quebrar.
esta hora é tudo que resta
vejo passar os dias um a um
e já nem sei a idade
e como se não restasse nenhum,
meu sonho
permanece na obscuridade.

tudo parou na tarde que morre
parar o tempo como queria!
rente à sombra das àrvores a escuridão
a noite desce, não há saída
morreu o dia,
a noite traz-me o sonho p'la mão
amanhã haverá novo sentido
para a vida.

natalia nuno
rosafogo

dedicado às minhas colegas
o poema é cinzento, mas haverá sempre um amanhã a amenizar o nosso
estado de espírito... a esperança nunca se acaba.

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 1 de dezembro de 2017

espelho meu...



Abrem-se sulcos no rosto
o tempo acumula-se amadurecido
o sorriso perdido
onde não resta nem brilho no olhar
e é já sol-posto.

os mares dos olhos secaram
as lágrimas a recolher-se
eles que tanto sorriram
trazem rios de nostalgia a esconder-se

a lição repetida
vive-se de sonho e ilusão
o coração não sara 
e o tempo não pára!
na moldura dourada amor vivido
 por nós jamais esquecido
a saudade faz-se antecipação
vangloria-se o tempo campeão.

volto à raiz de mim
às coisas que não esqueço
e não me reconheço!
interpelo o espelho
que nada  esconde
também ele velho.
e às perguntas
nem um ai me responde,

tempo abutre ou serpente
a vida eterno trovejar
morrendo continuamente
e nascendo a cada instante
num gesto ou num olhar

o peito trovejando
numa raiva feroz
e a vida passando
como raio veloz,
rasgando-o sem dó,
noite negra sem rumo
sequiosa, desatando o nó
desfazendo-se em fumo.

natalia nuno
rosafogo


à minha terra...



Terra minha, minha amada
aldeia que quero tanto
p'la tua graça fascinada
sucumbe meu coração
ao teu encanto...

Já está a terra cavada
lança-se nela a semente
seja por Deus abençoada
vai ser pão de muita gente
olho o sol e que assombro
lembro no campo o cavador
com a enxada já no ombro
e o rosto corado do calor.

Gritam as aves p'lo espaço
está agora maduro o trigo
e lá segue o lavrador
cheio d'esperança e cansaço
mas a terra é seu abrigo

Canto à terra venturosa
às gentes que lembro ainda
à Banda de Além formosa
e à frescura de lá vinda...
minha aldeia perfumada
de tempo brando e macio
pelo  sol és bracejada
espelhando-se no teu rio

Minha alma é tua parente
trago do teu rio o jeito
sou raiz da tua semente
tenho por ti amor no peito

Meus versos tão naturais
escritos pela minha mão
são puros como cristais
numa íntima comunhão
que só Deus determina
meu sonho aqui nasceu
como a fé que me ilumina.

São meus versos forte auguro
tanto os desejo... imortais!
esculpidos no teu futuro
pra que não esqueçam jamais.

Nesta linha, neste verso
transborda a luz da madrugada
foste minha morada meu berço
terra minha, minha amada...

natalia nuno
rosafogo

a palavra abandonou-me...



trancada a porta corro a cortina
a palavra passa por mim excitada
e eu recolho num sono profundo
sonhando comigo menina
acordando só de madrugada.
levantei-me tarde
e a palavra abandonou-me
mas a verdade, é que preciso
de me sentir vazia,
deixar-me elevar a um estado de serenidade
próximo do paraíso...

há giestas em flor pelas estradas
o vento levanta a frescura
sei de cor as melodias cantadas
e a sua singularidade
traz-me à memória a ternura
da saudade...

mas hoje, estou de espírito cinzento
há qualquer coisa que não bate certo
a palavra anda sem emoção, sem alento
a alegria há muito arredia
- é o deserto
a tentar-me o pensamento.
o vento continua a soprar à minha porta
que importa ?
continuarei na errância dos meus sonhos
mesmo com a ingratidão da palavra morta...

 natalia nuno
rosafogo




quarta-feira, 29 de novembro de 2017

cais de sonho...



hoje o sol levantou-se derramando claridade
a vida está madura e a saudade
tirou bilhete de ida e volta
trazendo aos sonhos a magia
e a ventura desta hora,
tudo é perfeito e o coração se solta
dia em que a a aurora
traz ao mundo esperança
e tudo se recria.

a vida, retoma a suavidade
do cair dum véu
grácil, como um cisne a levantar vôo
a elevar-se ao céu.
acomodo-me no assento
esqueço a vida que se esvai
e o meu olhar fica atento
vou sonhando com emoção, aventura,
sonhando abraços
e nem sinto, o pisar dos meus passos.

bebo dum trago os tons de outono
sinto a monotonia da vegatação
aos meus olhos a emoção
que existe em cada fim...o abandono,
insisto em recordar-me o rosto
minha memória de vento em agonia
é agora sol posto...

desfolha-se o dia
o céu de estrelas pontelhado
a lua os caminhos prateia
respiro o perfume das trepadeiras
que sobem ao telhado,
a alma entre a manhã e a tarde
a felicidade rareia
mas de tudo o que sobrou
sinto-me em cada passo que dou
e à primeira luz do dia que avança
desembarco num cais de sonho
onde me sinto sempre criança...


Itália, 21/11/2018


terça-feira, 28 de novembro de 2017

Dueto: Natália Canais Nuno/Manuela Fonseca




Dueto: Natália Canais Nuno/Manuela Fonseca

Debandam pássaros em alvoroço
Rezo meu rosário de contas

Ato a vida p'las pontas

Sopra o vento, não o ouço!

Canteiros de flores e besouros
A fragrância da terra molhada
Há risos e sufocados choros
A hera sobrevive à geada
Meu rosto já sem idade
Esconde-se nos dias sempre iguais
Ah...coração, que tenacidade!
Teu bater nunca é demais.

Acorrem a avisar-me...
Que sou sombra duma lenda!
Hão-de os pássaros lembrar-me
Já que Poeta...não há quem entenda...( nnuno)

Depois de eu morrer
Então sim, é a valer
Até as beatas perdidas
Que – juro – nunca fumei
Serão pedaços de alquimias
Herança que vos deixei
Depois de eu morrer
E do poema se fartar
De contar e escolher
Lendas de encantar
Rezarás contas de ler
Forçadas para rimar
Depois de eu morrer
Hão-de ouvir dizer
A palavra foi de génio
As aves voaram amor
E a morte lhe dará prémio...(mf)

Outro brilho, nova cor.

14/05/2012

terça-feira, 14 de novembro de 2017

olhar longínquo...



junto sorrisos na penumbra
e na face já adulterada
sinto a brisa da folhagem,
surge-me então a imagem que trago comigo
e a ninguém digo...o que sinto!
já não me amo inteiramente
trago o corpo desabrigado
já nada sente, cansado...
olho o espelho a que o inverno embaciou
o cristal, agora tão velho!
como posso levar-lhe a mal?
mas há uma luz que não se apaga
a mesma que às vezes os meus olhos alaga.

quiméricas lembranças vêm à minha memória
consumida...
de todo esse tempo que passou por mim
abre-se me o peito, e enternecida,
alargo o sorriso, o olhar longínquo
a cismar, a cismar sem fim.

procuro espantar o frio que chegou à vida
levo aves de sonho no meu caminho
e deixo a manhã em meus olhos crescer
a cada instante proponho-me a um
sorriso de murta e jasmim
sou um outono que não quer morrer
e assim renascem rouxinóis adormecidos
em mim...

e no sonho me perco e carícias teço
nele pé ante pé, com jeito
e de lá não regresso, tudo é perfeito
em sol e lua aninhada...
amanhã, talvez amanhã quando me sentir
amada!

natalia nuno






sexta-feira, 10 de novembro de 2017

pespontando sonhos...



minhas mãos ficam ávidas
em delírio, enquanto as palavras sobem
e afloram veementes
ganhando raízes no pensamento
em cachos dourados
provenientes
dos cinco sentidos,
ali me aguardam pacientes
como recém-nascidos
a refrescar-me os dedos
a calar-me os medos
a olhar-me como quem olha
um espelho quebrado
despido de sedas,
vestido de máscaras
espectáculo de outono sem cor,
acabado.

e logo as mágoas retornam como chuva
extraviada...
enquanto o vento frio esvoaça a cortina
e eu já de tudo despojada
numa ternura cega
às palavras me faço entrega
quase alegre como se as minhas mãos
fossem asas de frescura...

em serena felicidade
estou grata por envelhecer na saudade
ainda que seja longo o inverno na minha janela
e eu navio perdido entre a bruma
a palavra subirá sempre mais bela
e será meu sonho que p'la noite se esfuma.

natalia nuno
rosafogo

aldeia 06/11/2018




segunda-feira, 6 de novembro de 2017

palavras amargas...



amarga alegria
coberta de pó
sonho rasgado
numa noite fria
e há os que riem
fingindo ter dó.

amarga ausência
de tudo e de nada
deprimente a morte
que feia e forte
um dia sem sorte
se fará anunciada.

amarga desilusão
dia a dia a crescer
sabendo de antemão
que não é nada afinal
tudo tende a desaparecer
e é tudo tão natural.

amarga decadência
do sangue da gente
e leva à desistência
gargalhada deprimente
de fel e cansaço
lento, muito lento o passo.

natalia nuno
rosafogo




domingo, 5 de novembro de 2017

meu coração aperta-se





os olhos nas vidraças,
baças
o olhar distante
o ruído da chuva incessante
meia atordoada e feliz, na efémera
duração dum sonho...

os dias de outono tão melancólicos
soltam-se fragmentos de memórias,
inesperados,
sento-me na margem da tristeza
e vejo meus sonhos a preto e branco
desenhados.
sopra o vento da incerteza
olho o céu cinzento sem pássaros
meus dedos estão estéreis
acentua-se a solidão,
já não seguro meus ais
nem o vento segura as folhas outonais.
até um pássaro sonâmbulo, que a primavera levou
num destino incerto,
fez ninho no meu peito,
encoberto...
e a saudade voltou

e eu sem saber que rumo dar ao pensamento
abrigo-me da vida na memória distante,
a caminho do nada,
a alma cansada,
e é, a criança que em mim
vive  que segura a minha mão
enquanto o vento lá fora vai varrendo
as folhas, que caem ao chão.

natália nuno
rosafogo

poema escrito na aldeia em 11/2017








sexta-feira, 3 de novembro de 2017

homenagem à amiga Barbára...PARABÉNS



há tanta luz
neste céu de pássaros
nesta tarde que mais parece
de verão,
eu e tu
com uma lista de coisas
para serem escritas à mão
o trabalho é árduo e estranhamente
sem ti não o faria
testar sucessivamente
não é meu ofício,
mas é tua alegria...

assim nos vamos entretendo
tarde fora,  poesia em mente
terra morena, trança de espiga,
vou deitando à terra a semente
faço-te este poema minha amiga

e de novo te desejo boa sorte
e agradeço-te, tornas minha vontade mais forte!

prenhe o teu desejo de viver
que sintas sempre esse palpitar da vida
o sonho ronda no teu amanhecer
trazendo  ainda por longos anos
a menina em ti adormecida

natalia nuno
PARABENS amiga, sei que pensarás este poema hoje não saiu grande coisa, tens razão... no poema conto-te o esforço por fazer melhor porque mereces, por isso é bom ter-te por perto, mas a inspiração nem sempre está presente, no entanto as tuas palavras sempre me dão força e eu desejo que repitas este dia por muitos anos com muita felicidade...

segunda-feira, 30 de outubro de 2017

possuída pelo sonho...



já se denuncia a madrugada
a iluminar me o olhar
esperança a fazer-se demorada
ou tudo em mim a desabar...
foi o verão e as colheitas
foi-se o sonho chegou o dia
levanta o tempo suspeitas
se era dor o que em mim doía

do assunto não me desvio
quero saber toda a verdade
se era dor ou se era frio
ou impiedosa saudade...
se era sentença ou castigo
deixar-me à mercê do sobejo
tempo que me agride inimigo,
quando ao espelho me vejo

sou criança amanhecendo
que sorri... e mal balbucia
ao sonho me fui rendendo
ausentando-me... mais me prendia.

natalia nuno
rosafogo

o estremecer dum sonho



a Poesia é sempre admirada
ora por uns ora por outros
é olhada com olhar perscrutador,
tem encanto, é delicada
e é escrita com amor,
com sensibilidade e arte
fala de saudade e do tempo
que parte.
brilha, é nobre no seu doce canto,
eu lhe quero tanto!
Poesia filha do coração
canto de felicidade
e gratidão.

venero-a permanentemente
canto-a como se fosse Poeta
a minha ternura por ela é maternal
componho-a com rima natural,
quero-lhe demasiadamente
depuro-a, dou-lhe verdadeiro rumo
com os olhos rasos de lágrimas
nem sempre surge talento
assumo!
a saudade é a essência
geme e soluça nela a toda a hora
palavras correm  em eterna
florescência...

fascina-me o olhar,
faz-me esquecer o inverno que há-de vir
e lembra a primavera a chegar,
leva-me a sítios
onde não posso mais voltar,
faz ressurgir o passado
e tudo quanto no coração
trago gravado,
resta viva nela a certeza
de viver
sem ela...sou grão de areia perdido
sem ela, não tem a vida sentido


natalia nuno
rosafogo


hoje atardei-me...



extingue-se a luz do crepúsculo
e os aloendros já adormecem
caem as trevas da noite
sobre o salgueiro abandonado
e a minha mão caída sustém
um livro fechado...
meu olhar permanece quimérico
olhando o poente vou sonhando
as recordações sobrepõem-se
quando mergulho no passado...

os traços escapam-se e as interrogações
se apoderam de mim, que fiz eu deste meu tempo,
que fez este tempo de mim?
debato-me em meditações

hoje atardei em chegar
fiquei-me pelo sonho... a sonhar
para não sentir o declínio das próprias forças
crio ilusões,
estendida numa álea florida
tocando as cordas da memória
agora já sem gestos de doçura
a voz sem melodia
a fazer-se sentir o silvo da agonia

mas habita-me ainda a saudade
e no coração a agitação
ainda, de alguma felicidade

natalia nuno
rosafogo

sábado, 14 de outubro de 2017

saudade de quem?...



ondulam fortes ventos numa melodia constante
e como eles meus pensamentos
num confiado sonho distante
como pássaros migratórios, levam de mim
saudade...
a vida começa como se nova fosse
numa plenitude difusa subtil e doce
entrego corpo e alma à brisa, à claridade
ao que nunca vem,
ao que não existe,
à saudade... saudade de quem?
caem folhas de outono moribundas
já mal me conheço,
chega a tarde declinante
é o fim do começo
aos meus ouvidos um ruído distante
passam os dias da minha vida
geme neles o silêncio e a escuridão
como se nunca mais pudessem ser
senão,
dias de solidão.

ficou para trás a primavera das amendoeiras
brancas,
que nostalgia!
extraviaram-se meus olhos
desse vínculo que me seguia,
permaneço com olhar de criança
perdido na lonjura,
e minhas mãos são asas de frescura

esqueço o outono da vida que se vai alterando
tento distanciar a pressa
e na emoção do caminho,
o amor sempre regressa
com tenacidade vou sonhando
e recordando o muito que vivi
pássaros ardentes, borboletas às cores
viajantes nas  nuvens, amores,
boa parte das coisas simples que nunca esqueci.

natalia nuno
rosafogo






sábado, 30 de setembro de 2017

já mal me lembro....



nuvens vieram sombrias
nada me dizem afinal
promessas de melhores dias
neste meu tempo outonal
não está distante a entrega
meus sonhos são o que são
na alma folhas secas, no coração
a vida que dele já despega.

cantei às flores da primavera
chorei com o som do ribeiro
por ti meu coração ficou à espera
à tua espera o tempo inteiro...
amadurecem os frutos na horta
e eu no meu destino solitário
mas o coração não fecha a porta
e vou desfiando este meu rosário

trago de prata meus cabelos
e na saudade vou caminhando
e se me vires a desprendê-los
é porque m' sinto ave d'céu voando
voando entre um nevoeiro espesso
por entre cedros e abetos
à procura de quem nunca m' esqueço
em busca do amor... e de afectos!

rugas do meu rosto  são bofetadas
que vou levando a torto e a direito
há nele risos e lágrimas escancaradas
enquanto o coração bate no peito
desenfreado tempo que tudo arrasas
por isso são tristes minhas razões
vontade esta de voar já sem asas,
aceito este viver de sonhos e ilusões.

natália nuno
rosafogo




passado irrepetível...



na ternura da tarde
trago a mim pedaços de recordações
um vício que me satisfaz
que me preenche o vazio
e me traz a paz
as palavras saltam-me dos lábios
renasce nelas a vida toda
e com intensidade ,os momentos
que não sei esquecer
e me dão alento e vontade de viver

um frio silêncio me aguarda...
nego a solidão, sonho com o vento
nos pinheiros do meu outono
vivo!... não deixo o sonho ao abandono!
no silêncio da noite surda
sinto saudades do tempo perdido,
do calor dos sonhos tão nossos
do amor enlouquecido
do passado irrepetível
que só pode ser recordado
com tanta ternura, alegre como rouxinól
em mim despertado...

chega o oculto regaço da noite
chegam aves de sonho à minha mente
trazendo o aroma da murta e do jasmim
com sua esbelta simplicidade
e cresce em mim d'outros tempos
a saudade...

natália nuno
rosafogo


quinta-feira, 28 de setembro de 2017

abraça-me...




não sei onde escondi a solidão
recordo-me que senti frio...
agora que sorrio,
aliviou m'coração
enquanto tu dormes a meu lado
eu digo que te amo
mesmo sem estares acordado.
ouço a tua respiração
contemplo o teu rosto sereno
pesponto sonhos de esperança
e  visto traje de menina
nossos corpos íntimos numa dança
encontram-se como no primeiro dia
chegam-me da recordação,
horas cálidas de harmonia...

nos momentos absurdos do meu esquecimento
ensombram-se meus olhos
despojam-me do sono
chega o tempo lento
e o medo do abandono

nego a solidão
vivo a intensidade dos momentos
espelhados dentro do coração,
as recordações oferecem-nos longevidade,
sinto o fogo da felicidade e a paixão pela vida,
abraça-me que me sinto protegida
sou o súbito amor que sempre renasce em ti
hoje, porque o tempo ficou longe de nós
a solidão aboli...

natalia nuno
rosafogo





domingo, 17 de setembro de 2017

semeando palavras...



e estava ali de olhar longínquo
distante de si, a evadir-se
da máscara que os anos gravaram,
com o corpo sem esplendor a querer
encobrir-se...
e no sonho, um comboio de ideias...
na memória turva ainda aquele amor
aquele, que sempre lhe trouxe ansiedade
- sonho baldio o seu sem piedade
que insiste ser sua companhia,
dia após dia.

e estava ali escutando o vento
e as memórias lhe surgiam, não
sabia donde... quem sabe do infinito?!
e sem alento escutava o eco do seu
próprio grito...

e estava ali, escutava a alma errante
e comovida
perdendo a força e o rumo
distante de esperanças, envelhecida
desfeita como o orvalho da manhã
o fumo do fogo quase extinto
- alma que chora por dentro, enquanto o futuro
já perto, murmura,
tempo duro, desprovido de ternura
que o coração recolhe com dor
e tenta afogar num nó.

e estava ali lavrando versos com dó
de si mesma, memoriando os dias
tocando a estrela que ainda a encandeia
esquecendo o que a rodeia, desgastada
é tudo e é nada,
enquanto palavras semeia...


natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 29 de agosto de 2017

no vazio do verso...



a minha taça está cheia
cheia de mel e de fel
meu passado não é água nem espelho
é um cesto onde guardo vivências dum tempo velho
q' apaziguam meu coração
chão outonal sem folhas nem flores
raízes que crescem dentro de mim
onde só os sonhos tem odores
a jasmim...

os meus ombros dobram-se ao peso da idade,
enquanto o inverno estás prestes
a trazer-me a nostalgia
na última sombra do último dia
nos meus lábios há suspiros que a saudade
sustenta,
e me sinto menina que sonhos inventa,
mas na minha tarde já o sol declina
e os ventos avançam no corredor da mente
fustigam os pensamentos,
e quebram-me a alegria.
só o sol nascente
me trará com clemência, um outro dia

a minha taça está cheia
do ontem e do hoje
ficou meu rosto ausente
e já a vida me foge.
se insisto em ficar,
ela insiste em me desfolhar
despejo mais um cálice na estação que nada traz de volta
mas o sonho me impede de acordar
e no vazio do verso minha alma se solta...

natália nuno
rosafogo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

lenta existência...



é tarde, geme a escuridão
fim do dia, noite negra de solidão
a aldeia está morta, cheira a terra molhada
gotas caindo do arvoredo
desperta-me uma sombra alada
pousa perto uma pomba sem medo
hoje nem o sol lavrou o céu
nem deixou cintilação dourada
a nostalgia atravessa a rua
chega fervorosa a lua...
lenta existência, cega ilusão
restamos nós, os de então!

mato o tempo sem pressa
a aldeia enche-me os olhos
cegos de ternura, a infância regressa
à emoção do caminho,
com a imagem e os sonhos
que tive então, amo o silêncio,
nele me aninho.

passaram anos velozes e lentos
restarão as chuvas dos esquecimentos
em evidência a menina nos seus pensamentos
espanta o frio que à vida lhe chegou
sente a liberdade
e ainda o fogo da felicidade
que em si perdurou...

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 21 de agosto de 2017

do tempo e do sentido...



seu rosto é um vale de sombras
com riachos a marulhar
recorda-lhe a vida que podia ter tido
mas já não faz sentido
nem sequer recordar,
o tempo lento a devora
o peito lhe golpeia
é o ressoar da hora
é o ficar presa na teia,
é a obscuridade
tirando-lhe até o júbilo da saudade
os sonhos, a vida,
despoja-a de tudo, como um eterno inimigo
deixando-a sem porta de saída...

tempo predador, onde não existem sorrisos
e é em vão a vida sem resplendor
tão pouco existem estrelas, nem o azul do céu
e nem ninguém ouve o grito seu,
sente apenas agora aquele cansaço
e a sensibilidade doente
a recordação constante numa lufada quente,
é ave trémula que se agita ao vento
distanciando-se cada vez mais
no firmamento...

o tempo traz-lhe o pavor do desconhecido
cambaleia... em todas as direcções
a sua única ideia é fugir
caminha cada vez mais depressa
uma voz se faz ouvir, não quer porém
nem mais uma palavra de ninguém.

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sonhei contigo...



cheguei-me à borda da encosta
crescia em mim tanto alvoroço
sonhar assim, quem não  gosta?
 ver-te do outro lado ainda moço

ficaram meus olhos enfeitiçados
em chama acesa, forte pavio
e meus braços ali desamparados
esperando-te nesta tarde de estio

as minhas mãos de giesta feliz
aguardam o romper do nevoeiro
num tempo perdido que lhes diz
que voltarás... para elas inteiro

sei bem, são sonhos, são ilusões
grãos de pó, tudo eu inventei!
desdobrei em nós as estações
estrelas em nosso olhar semeei

lavrei a terra do amor no peito
nos rostos sulcos desbravados
somos rios com o mesmo leito
trazemos sonhos a nós atados

no adeus à tarde, quero-te tanto!
em meu colo repousa teu cansaço
c' mansa ternura aquieto o pranto
perde-te em mim, em meu abraço

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a lembrança em mim...




a lembrança é um caminho de mansidão
um abrigo dócil na minha mente
é trazer o passado no coração
e de repente...
um lume aceso que me aquece
por instante, mesmo dele distante.
momentos que voltam, para logo fugir
lembrar é algo com sentido,
- é sentir,
é trazer de amor o coração vestido.

lembrar os verdes esvaídos da beira rio
lugar de encontro, de ficar em silêncio
hoje sinto- lhe meu próprio vazio
à infância rumei,
desço a ladeira que antes pisei
e ali me retenho...por mim!
para matar esta sede da saudade sem fim.

apaziguo- me com o tempo que me censura
deixo por lá minha alma
abraço o rio, só ele me acalma
comove-se o salgueiro, despeço-me com ternura
lembranças, molho de açucenas  com aroma
a saudade...caules de aloés,
chão tão meu, onde descalça descanso os pés,
enquanto pássaros cantam na margem do verão,
açoita o inverno o meu coração...

natália nuno
rosafogo


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

nó na garganta...



porque não vens quando te chamo?
o sono não vem traz-me cinza ao olhar
e o peso da saudade...é porque te amo
os sonhos dissipam-se deixo de sonhar

o nó que se prende na minha garganta
tão grande, tão grande q' nem se mede
mas a esperança é tanta, tanta... tanta!
que o coração sempre mais amor pede

gira ...gira,  sempre a roda da sorte
quem sabe algum dia roda da fortuna
gira esta minha vida já sem norte
longe vai  o amparo de coisa alguma

quero passar da vida o resto
como um sonho, em esquecimento
esperando todo o tempo por um só gesto
doce, uma terna voz trazendo-me alento

os prazeres o tempo vai apagando
trago o bolor do tempo nos abraços
a ti me conduz, vai-me encaminhando
só ele sabe da firmeza dos meus passos

pássaros cegos em meus olhos a voar
volteiam, volteiam, bem no interior
por entre folhedo verde do meu olhar
mantêm  meu rosto sem prazer nem dor

sinto o vazio nas margens da saudade
o céu acinzentou... o dia ficou pardo
se te chamo e vens, reina a felicidade
lembro-me donzela ... a flor do nardo.

natalia nuno
rosafogo





terça-feira, 25 de julho de 2017

a ti me prendo



já escuto a madrugada
houve últimos adeus à vida,
e uma dor mal contida
nesta noite de mim se apoderou
e o meu coração gelou...
e a terra que dava frutos e semente
escutou a minha dor
os grilos não cantaram mais
e tudo se calou
a vida quer levar-me de raspão
partiu a minha gente
sem se despedir
restaram os ais...
a tristeza aos outros não revelo
fico na dor a reflectir

a vida quer levar-me de raspão
 mas eu sou tenaz e luto sem tempo
nem paz, ponho a trote o coração
já escuto a madrugada
meu corpo comparo com espuma do mar
desfeita, quero ainda assim ser amada
e amar, amar-te e no teu corpo me afundar
deixar que o sol viva em mim
aprender de novo a primavera
ser outra vez flor do alecrim
e espera...me espera,
que eu volto à cama onde a chama ateará
e nosso amor  como fénix renascerá
as nossas mãos nunca mais estarão frias
estarei sempre por perto trazendo
centelhas do sol a dourar nossos dias

natália nuno
rosafogo



segunda-feira, 24 de julho de 2017

idade sem data




com laço de seda cingi a cintura
fiquei a menina da brincadeira
ouvi as vizinhas dizer com ternura
sai à mãe quer queira, ou não queira

debruço-me à janela, o mundo é meu
ouvindo as pombas num arrulho louco
já se põe o sol, escurece o céu
e os lírios vão crescendo. pouco a pouco

mil vezes se repete  minha imagem
nas águas do rio que corre por perto
a mágoa vive o sorriso está de passagem
já nada regressa e é o futuro incerto

surge a dama da noite, toda claridade
adormecem as margaridas no monte
preciso de afecto mas vem a saudade
que percorre hoje e amanhã m' horizonte

e as bonecas de trapo sorriem pra mim
choram os salgueiros a sua solidão
com as tílias em pranto vão chorando assim
mas a mágoa é minha consomem-se em vão

já não sou menina sou mulher feita
sou raiz funda agarrada a este chão
a palavra é minha garra que quero perfeita
só o tempo me traz  profunda solidão

pode a saudade gritar-me na garganta
pode o vento voltar de novo quedando-se no jardim
narcisos deixarei em poesia ...tanta!
que também restará  saudade de mim...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 22 de julho de 2017

outono adentro...



meus cabelos repartem-se em pedaços
de prata, brilhando de claridade
e na sombra escura do meu olhar
brilha a saudade...
sossego a dor sem pranto
só a minha queixa  a denuncia
enquanto ela tece a trama
de mais um dia
choram no jardim as rosas e os crisântemos
ao ver-me assim de voz quebrada,
perto dum tempo que me desanima
ao olhar a fotografia que me detém desde
menina...

tempo vivido em minha pele
tempo de outono adentro
tempo que me é infiel,
cinge-me desdenhoso, traz-me
imobilidade, tempo que me oferece
apenas
saudade...

crescem-me asas no pensamento
mas sem alento aonde vou
nesta claridade emprestada
onde já nada sou?
e memória prevalece
mas e o corpo? já esquece!
arrancaram-me as portas
sou pássaro vagueando em ramos
de folhas mortas
se lágrimas me virem verter
em alguma ocasião
não liguem não,
não é dor, não é sofrer
é tão sómente saudade no coração.

natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 18 de julho de 2017

alquimia ao fim da tarde



recordações têm o viço das rosas
sempre mais frescas e belas
que surgem com estranha saudade
alquimia ao fim da tarde
fazem-me esquecer o presente
lembrar o nosso primeiro olhar
mas não há paraíso sem serpente
nem o sonho vai para sempre durar.
corremos atrás duma fantasia
já não corre em nós a força do mar
diz-nos o espelho com ironia:
não sois mais, folhas no ar a dançar

sem que déssemos por isso
foi-se a vida esvaindo
como se fosse enguiço
ou desvairada trepadeira por nós subindo

desenlaçam-se as recordações vividas
e a memória vai no tempo descendo
e vão crescendo as coisas boas e as sofridas
nos meus dedos, como impetuosas rosas
é denso o pavio que incendeia e propaga
a mente, e ao papel chegam lembranças generosas
num acontecer constante
tudo é vida, tudo é sonho, tudo é terra prometida
tudo é distante,tudo é um instante
tudo é um mar sem princípio nem fim
uma busca, um caminho profundo
dentro e fora de mim...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 15 de julho de 2017

amarro o tempo...



que angústia é esta de onde me chegam
meus poemas, que saudade me invade
quantas asas de pássaro se chegam a mim
trazendo-me memórias sem fim?
o tempo, esse mudou-me o rosto
agora nele reside a sombra
já não o reconheço, extinguiu-se seu poderio
é agora um inverno frio
onde a amargura é crescente
que será de mim amanhã
só a tristeza será minha irmã?

e o meu peito subitamente
se mostrará conduido, deitado por terra
em busca de algo que o mantenha vivo
enquanto apalpo palavras na tentativa
de me manter viva...

como posso esperar que o sorriso regresse
se as horas se despedaçam, e só a mágoa vive?
já não amanhece, só anoitece
adormeço nas recordações dos amores que tive

emolduro tudo o que é melancolia
relembro o nome de flores,
amarro o tempo
e sento-me a olhar as giestas, a ouvir os rumores
dos regatos cantantes, até que o coração
embeba de alegria...
e uma gota de orvalho venha trazer-me de novo
tempo de ventura, para poder cantar em meus versos
uma nova colheita de ternura...

natalia nuno


segunda-feira, 10 de julho de 2017

amor de outono...



ora verde ora seca a verdura da alma
e o coração é como vela a arder
é chama viva,
ora doce e calma
de assim, por ti sofrer...de tanto te querer.

agora que já se quebram os passos
caminho lentamente  até ao inverno da vida
abandono a tarde dos abraços que é já um mito
as aves acalmam as penas
nas horas mortas serenas do meu silêncio
só eu lhes escuto o grito,
já a hera não trepa o muro
nem o orvalho enche a manhã
que tempo este... tão duro,
outono de esperança vã
que o sol já não doira...

já o pássaro não chora o ninho
nem as madesssilvas floridas
enchem o caminho,
morreu-me a vontade de semear
arrefeceu o gosto de colher
já nem sei o que é amar
esqueci até que sou mulher
nunca o sol me viu tão triste
já meu pensamento desatina
se é que o amor existe
não fez parte da minha sina.

resto agora de esperanças vazias
a saudade no meu peito mora
morro todos os dias a toda a hora
mais um pouco, por amor, 
justamente
de amor rendida...
saudades matam quando estás ausente
e meu corpo o desejo não olvida
enquanto não arrefece no meu peito
este amor quase perfeito...eu te quero
e sempre te espero...

natalia nuno
rosafogo





















sábado, 8 de julho de 2017

a saudade dói...




longos dias... correndo vão!
solitária vai a m’ alma magoada
em luta a mente e o coração
e neles a tua imagem gravada
nas horas vagas minha vida se evade
fico rio solto no mar
deixo-me numa aparente imobilidade
sonhando com beijos que me dás
e eu te vou dar…
em certos momentos nada te digo
sonho um tempo que me afaga
- que é agora nosso inimigo
trago saudade no peito ancorada
do tempo
por nós vivido...
escuto a noite numa solidão sem par
apoio o ouvido na almofada
sou de novo esse rio solto no mar
ziguezagueando p´lo teu corpo
sentindo-me amada
e tu és o meu mar de água cálida
que me chega à cintura
e com leveza teus lábios me beijam
com ternura…
fica meu coração toldado
abre-se a noite e perdura
sabendo que estás do outro lado
deste sonho por mim sonhado
e que tão pouco tempo dura
já meio morrendo vamos!
mas sempre no meu sonho te ergues
e eu sempre posso alcançar-te… e amar-te
já me assalta a aurora
já a noite se foi
sou o vazio agora
e a saudade me dói.

natalia nuno
rosafogo