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domingo, 17 de setembro de 2017

semeando palavras...



e estava ali de olhar longínquo
distante de si, a evadir-se
da máscara que os anos gravaram,
com o corpo sem esplendor a querer
encobrir-se...
e no sonho, um comboio de ideias...
na memória turva ainda aquele amor
aquele, que sempre lhe trouxe ansiedade
- sonho baldio o seu sem piedade
que insiste ser sua companhia,
dia após dia.

e estava ali escutando o vento
e as memórias lhe surgiam, não
sabia donde... quem sabe do infinito?!
e sem alento escutava o eco do seu
próprio grito...

e estava ali, escutava a alma errante
e comovida
perdendo a força e o rumo
distante de esperanças, envelhecida
desfeita como o orvalho da manhã
o fumo do fogo quase extinto
- alma que chora por dentro, enquanto o futuro
já perto, murmura,
tempo duro, desprovido de ternura
que o coração recolhe com dor
e tenta afogar num nó.

e estava ali lavrando versos com dó
de si mesma, memoriando os dias
tocando a estrela que ainda a encandeia
esquecendo o que a rodeia, desgastada
é tudo e é nada,
enquanto palavras semeia...


natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 29 de agosto de 2017

no vazio do verso...



a minha taça está cheia
cheia de mel e de fel
meu passado não é água nem espelho
é um cesto onde guardo vivências dum tempo velho
q' apaziguam meu coração
chão outonal sem folhas nem flores
raízes que crescem dentro de mim
onde só os sonhos tem odores
a jasmim...

os meus ombros dobram-se ao peso da idade,
enquanto o inverno estás prestes
a trazer-me a nostalgia
na última sombra do último dia
nos meus lábios há suspiros que a saudade
sustenta,
e me sinto menina que sonhos inventa,
mas na minha tarde já o sol declina
e os ventos avançam no corredor da mente
fustigam os pensamentos,
e quebram-me a alegria.
só o sol nascente
me trará com clemência, um outro dia

a minha taça está cheia
do ontem e do hoje
ficou meu rosto ausente
e já a vida me foge.
se insisto em ficar,
ela insiste em me desfolhar
despejo mais um cálice na estação que nada traz de volta
mas o sonho me impede de acordar
e no vazio do verso minha alma se solta...

natália nuno
rosafogo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

lenta existência...



é tarde, geme a escuridão
fim do dia, noite negra de solidão
a aldeia está morta, cheira a terra molhada
gotas caindo do arvoredo
desperta-me uma sombra alada
pousa perto uma pomba sem medo
hoje nem o sol lavrou o céu
nem deixou cintilação dourada
a nostalgia atravessa a rua
chega fervorosa a lua...
lenta existência, cega ilusão
restamos nós, os de então!

mato o tempo sem pressa
a aldeia enche-me os olhos
cegos de ternura, a infância regressa
à emoção do caminho,
com a imagem e os sonhos
que tive então, amo o silêncio,
nele me aninho.

passaram anos velozes e lentos
restarão as chuvas dos esquecimentos
em evidência a menina nos seus pensamentos
espanta o frio que à vida lhe chegou
sente a liberdade
e ainda o fogo da felicidade
que em si perdurou...

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 21 de agosto de 2017

do tempo e do sentido...



seu rosto é um vale de sombras
com riachos a marulhar
recorda-lhe a vida que podia ter tido
mas já não faz sentido
nem sequer recordar,
o tempo lento a devora
o peito lhe golpeia
é o ressoar da hora
é o ficar presa na teia,
é a obscuridade
tirando-lhe até o júbilo da saudade
os sonhos, a vida,
despoja-a de tudo, como um eterno inimigo
deixando-a sem porta de saída...

tempo predador, onde não existem sorrisos
e é em vão a vida sem resplendor
tão pouco existem estrelas, nem o azul do céu
e nem ninguém ouve o grito seu,
sente apenas agora aquele cansaço
e a sensibilidade doente
a recordação constante numa lufada quente,
é ave trémula que se agita ao vento
distanciando-se cada vez mais
no firmamento...

o tempo traz-lhe o pavor do desconhecido
cambaleia... em todas as direcções
a sua única ideia é fugir
caminha cada vez mais depressa
uma voz se faz ouvir, não quer porém
nem mais uma palavra de ninguém.

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sonhei contigo...



cheguei-me à borda da encosta
crescia em mim tanto alvoroço
sonhar assim, quem não  gosta?
 ver-te do outro lado ainda moço

ficaram meus olhos enfeitiçados
em chama acesa, forte pavio
e meus braços ali desamparados
esperando-te nesta tarde de estio

as minhas mãos de giesta feliz
aguardam o romper do nevoeiro
num tempo perdido que lhes diz
que voltarás... para elas inteiro

sei bem, são sonhos, são ilusões
grãos de pó, tudo eu inventei!
desdobrei em nós as estações
estrelas em nosso olhar semeei

lavrei a terra do amor no peito
nos rostos sulcos desbravados
somos rios com o mesmo leito
trazemos sonhos a nós atados

no adeus à tarde, quero-te tanto!
em meu colo repousa teu cansaço
c' mansa ternura aquieto o pranto
perde-te em mim, em meu abraço

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a lembrança em mim...




a lembrança é um caminho de mansidão
um abrigo dócil na minha mente
é trazer o passado no coração
e de repente...
um lume aceso que me aquece
por instante, mesmo dele distante.
momentos que voltam, para logo fugir
lembrar é algo com sentido,
- é sentir,
é trazer de amor o coração vestido.

lembrar os verdes esvaídos da beira rio
lugar de encontro, de ficar em silêncio
hoje sinto- lhe meu próprio vazio
à infância rumei,
desço a ladeira que antes pisei
e ali me retenho...por mim!
para matar esta sede da saudade sem fim.

apaziguo- me com o tempo que me censura
deixo por lá minha alma
abraço o rio, só ele me acalma
comove-se o salgueiro, despeço-me com ternura
lembranças, molho de açucenas  com aroma
a saudade...caules de aloés,
chão tão meu, onde descalça descanso os pés,
enquanto pássaros cantam na margem do verão,
açoita o inverno o meu coração...

natália nuno
rosafogo


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

nó na garganta...



porque não vens quando te chamo?
o sono não vem traz-me cinza ao olhar
e o peso da saudade...é porque te amo
os sonhos dissipam-se deixo de sonhar

o nó que se prende na minha garganta
tão grande, tão grande q' nem se mede
mas a esperança é tanta, tanta... tanta!
que o coração sempre mais amor pede

gira ...gira,  sempre a roda da sorte
quem sabe algum dia roda da fortuna
gira esta minha vida já sem norte
longe vai  o amparo de coisa alguma

quero passar da vida o resto
como um sonho, em esquecimento
esperando todo o tempo por um só gesto
doce, uma terna voz trazendo-me alento

os prazeres o tempo vai apagando
trago o bolor do tempo nos abraços
a ti me conduz, vai-me encaminhando
só ele sabe da firmeza dos meus passos

pássaros cegos em meus olhos a voar
volteiam, volteiam, bem no interior
por entre folhedo verde do meu olhar
mantêm  meu rosto sem prazer nem dor

sinto o vazio nas margens da saudade
o céu acinzentou... o dia ficou pardo
se te chamo e vens, reina a felicidade
lembro-me donzela ... a flor do nardo.

natalia nuno
rosafogo





terça-feira, 25 de julho de 2017

a ti me prendo



já escuto a madrugada
houve últimos adeus à vida,
e uma dor mal contida
nesta noite de mim se apoderou
e o meu coração gelou...
e a terra que dava frutos e semente
escutou a minha dor
os grilos não cantaram mais
e tudo se calou
a vida quer levar-me de raspão
partiu a minha gente
sem se despedir
restaram os ais...
a tristeza aos outros não revelo
fico na dor a reflectir

a vida quer levar-me de raspão
 mas eu sou tenaz e luto sem tempo
nem paz, ponho a trote o coração
já escuto a madrugada
meu corpo comparo com espuma do mar
desfeita, quero ainda assim ser amada
e amar, amar-te e no teu corpo me afundar
deixar que o sol viva em mim
aprender de novo a primavera
ser outra vez flor do alecrim
e espera...me espera,
que eu volto à cama onde a chama ateará
e nosso amor  como fénix renascerá
as nossas mãos nunca mais estarão frias
estarei sempre por perto trazendo
centelhas do sol a dourar nossos dias

natália nuno
rosafogo



segunda-feira, 24 de julho de 2017

idade sem data




com laço de seda cingi a cintura
fiquei a menina da brincadeira
ouvi as vizinhas dizer com ternura
sai à mãe quer queira, ou não queira

debruço-me à janela, o mundo é meu
ouvindo as pombas num arrulho louco
já se põe o sol, escurece o céu
e os lírios vão crescendo. pouco a pouco

mil vezes se repete  minha imagem
nas águas do rio que corre por perto
a mágoa vive o sorriso está de passagem
já nada regressa e é o futuro incerto

surge a dama da noite, toda claridade
adormecem as margaridas no monte
preciso de afecto mas vem a saudade
que percorre hoje e amanhã m' horizonte

e as bonecas de trapo sorriem pra mim
choram os salgueiros a sua solidão
com as tílias em pranto vão chorando assim
mas a mágoa é minha consomem-se em vão

já não sou menina sou mulher feita
sou raiz funda agarrada a este chão
a palavra é minha garra que quero perfeita
só o tempo me traz  profunda solidão

pode a saudade gritar-me na garganta
pode o vento voltar de novo quedando-se no jardim
narcisos deixarei em poesia ...tanta!
que também restará  saudade de mim...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 22 de julho de 2017

outono adentro...



meus cabelos repartem-se em pedaços
de prata, brilhando de claridade
e na sombra escura do meu olhar
brilha a saudade...
sossego a dor sem pranto
só a minha queixa  a denuncia
enquanto ela tece a trama
de mais um dia
choram no jardim as rosas e os crisântemos
ao ver-me assim de voz quebrada,
perto dum tempo que me desanima
ao olhar a fotografia que me detém desde
menina...

tempo vivido em minha pele
tempo de outono adentro
tempo que me é infiel,
cinge-me desdenhoso, traz-me
imobilidade, tempo que me oferece
apenas
saudade...

crescem-me asas no pensamento
mas sem alento aonde vou
nesta claridade emprestada
onde já nada sou?
e memória prevalece
mas e o corpo? já esquece!
arrancaram-me as portas
sou pássaro vagueando em ramos
de folhas mortas
se lágrimas me virem verter
em alguma ocasião
não liguem não,
não é dor, não é sofrer
é tão sómente saudade no coração.

natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 18 de julho de 2017

alquimia ao fim da tarde



recordações têm o viço das rosas
sempre mais frescas e belas
que surgem com estranha saudade
alquimia ao fim da tarde
fazem-me esquecer o presente
lembrar o nosso primeiro olhar
mas não há paraíso sem serpente
nem o sonho vai para sempre durar.
corremos atrás duma fantasia
já não corre em nós a força do mar
diz-nos o espelho com ironia:
não sois mais, folhas no ar a dançar

sem que déssemos por isso
foi-se a vida esvaindo
como se fosse enguiço
ou desvairada trepadeira por nós subindo

desenlaçam-se as recordações vividas
e a memória vai no tempo descendo
e vão crescendo as coisas boas e as sofridas
nos meus dedos, como impetuosas rosas
é denso o pavio que incendeia e propaga
a mente, e ao papel chegam lembranças generosas
num acontecer constante
tudo é vida, tudo é sonho, tudo é terra prometida
tudo é distante,tudo é um instante
tudo é um mar sem princípio nem fim
uma busca, um caminho profundo
dentro e fora de mim...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 15 de julho de 2017

amarro o tempo...



que angústia é esta de onde me chegam
meus poemas, que saudade me invade
quantas asas de pássaro se chegam a mim
trazendo-me memórias sem fim?
o tempo, esse mudou-me o rosto
agora nele reside a sombra
já não o reconheço, extinguiu-se seu poderio
é agora um inverno frio
onde a amargura é crescente
que será de mim amanhã
só a tristeza será minha irmã?

e o meu peito subitamente
se mostrará conduido, deitado por terra
em busca de algo que o mantenha vivo
enquanto apalpo palavras na tentativa
de me manter viva...

como posso esperar que o sorriso regresse
se as horas se despedaçam, e só a mágoa vive?
já não amanhece, só anoitece
adormeço nas recordações dos amores que tive

emolduro tudo o que é melancolia
relembro o nome de flores,
amarro o tempo
e sento-me a olhar as giestas, a ouvir os rumores
dos regatos cantantes, até que o coração
embeba de alegria...
e uma gota de orvalho venha trazer-me de novo
tempo de ventura, para poder cantar em meus versos
uma nova colheita de ternura...

natalia nuno


segunda-feira, 10 de julho de 2017

amor de outono...



ora verde ora seca a verdura da alma
e o coração é como vela a arder
é chama viva,
ora doce e calma
de assim, por ti sofrer...de tanto te querer.

agora que já se quebram os passos
caminho lentamente  até ao inverno da vida
abandono a tarde dos abraços que é já um mito
as aves acalmam as penas
nas horas mortas serenas do meu silêncio
só eu lhes escuto o grito,
já a hera não trepa o muro
nem o orvalho enche a manhã
que tempo este... tão duro,
outono de esperança vã
que o sol já não doira...

já o pássaro não chora o ninho
nem as madesssilvas floridas
enchem o caminho,
morreu-me a vontade de semear
arrefeceu o gosto de colher
já nem sei o que é amar
esqueci até que sou mulher
nunca o sol me viu tão triste
já meu pensamento desatina
se é que o amor existe
não fez parte da minha sina.

resto agora de esperanças vazias
a saudade no meu peito mora
morro todos os dias a toda a hora
mais um pouco, por amor, 
justamente
de amor rendida...
saudades matam quando estás ausente
e meu corpo o desejo não olvida
enquanto não arrefece no meu peito
este amor quase perfeito...eu te quero
e sempre te espero...

natalia nuno
rosafogo





















sábado, 8 de julho de 2017

a saudade dói...




longos dias... correndo vão!
solitária vai a m’ alma magoada
em luta a mente e o coração
e neles a tua imagem gravada
nas horas vagas minha vida se evade
fico rio solto no mar
deixo-me numa aparente imobilidade
sonhando com beijos que me dás
e eu te vou dar…
em certos momentos nada te digo
sonho um tempo que me afaga
- que é agora nosso inimigo
trago saudade no peito ancorada
do tempo
por nós vivido...
escuto a noite numa solidão sem par
apoio o ouvido na almofada
sou de novo esse rio solto no mar
ziguezagueando p´lo teu corpo
sentindo-me amada
e tu és o meu mar de água cálida
que me chega à cintura
e com leveza teus lábios me beijam
com ternura…
fica meu coração toldado
abre-se a noite e perdura
sabendo que estás do outro lado
deste sonho por mim sonhado
e que tão pouco tempo dura
já meio morrendo vamos!
mas sempre no meu sonho te ergues
e eu sempre posso alcançar-te… e amar-te
já me assalta a aurora
já a noite se foi
sou o vazio agora
e a saudade me dói.

natalia nuno
rosafogo





quinta-feira, 6 de julho de 2017

calo a desdita



este tempo que me prende
este querer e não querer
esta monotonia que ninguém entende
esta noite no meu ser...
deixo morrer os dias,
sem que eu de ti palavras diga
já que a saudade de ti
a sofrer me obriga

calo a desdita
são coisas do passado, mas ainda
vivem em mim
perdido, reencontrado, o amor ainda grita

e toca-me pela doçura que recordo
sem fim...

um doce momento me consolará
seja qual fôr o tempo e o lugar
e o sonho embora lento há-de chegar
e assim vivo um dia mais
sempre em mim uma rosa florescerá
à minha volta um solidão invulgar
escuto o silêncio, e só um pensamento tenho
nesta minha noite sem aurora
lembrar-te e lembrar de onde venho
eu que fui um dia amor...
que sou agora?!

natalia nuno
rosafogo


quarta-feira, 5 de julho de 2017

nasceu de mim...



nasceu de mim este poema
da saudade que trago agasalhada
encontrou cantinho no meu peito
e logo espreitou o tema
chave de ouro, a saudade ali fechada.
na solidão por ali ficou
esperando a luz do outono,
e com fino gume gravou
... do meu coração seria dono

ficou-se ali a ver o tempo a bater-me no
peito,
esse tempo sem jeito
que o coração dilata
que me põe o cabelo cor de prata
e q' eu não sei entender
mas que é tempo do meu viver

nasceu de mim este poema
numa manhã morna
e orvalhada,
viveu fugaz eternidade
e adormeceu na saudade
quando me sentiu mitigada
agora, afago as palavras
ponho um sorriso no rosto
este rosto que  o tempo silenciou
dia após dia,
num anónimo viver,
e nos meus olhos
de maresia,
sinto-me à morte... a ceder.

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 22 de junho de 2017

meu canto se nutre de ti...



falar do meu sonho, algo mo proíbe
trago no rosto o olhar de verde terra
no coração a criança que ainda vive
no passo a lentidão q' o tempo aferra

meu sonho só o teu regresso espera
logo o júbilo no coração me surge
não quero morrer de morte austera
vem então depressa q' o tempo urge

em vão, não se vive ... a ser verdade?!
estarás tu para sempre a mim unido
demasiado antiga é esta nossa idade

somos agora o outono, outono lento
amas-me ainda, n' tudo está perdido!
à que se perde em mim, sorri o alento

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 21 de junho de 2017

minhas sombras...



tuas mãos sossegam o meu receio
quando o sol não chega onde a sombra habita
esta sombra que me invade
esta amargura crescente de onde me chegam
meus poemas, esta saudade,
ando louca como pássaro no cio
chegar-me-ei ao rio
e o espelho das águas me dará uma razão
para que minha loucura abrande
no tempo que trespassou meu coração

surge a noite de olhos escuros
e as tuas mãos sossegam meu receio
vem o vento de poente traz os dias duros
e a vida vai a mais de meio

o tempo, sempre o tempo, sem tréguas dar
choram os salgueiros da beira rio
nossos olhos, nossos beijos vão cruzar
ando louca como pássaro no cio

já o sol decai na nossa vida
já tudo ao nosso redor se aquieta
nossos corpos trazem a lição aprendida
alheios abandonamo-nos ao sonho que nos liberta.



natalia nuno
rosafogo





domingo, 18 de junho de 2017

choro ao afastar-me...



despojada vou envelhecendo
restam-me os versos que faço com agrado
tudo se foi perdendo
tal como o sol que se acaba no prado
as memórias vão esvaindo num céu intenso
e o coração em turbilhão tudo encerra
digo adeus às lembranças acenando lenço
e duramente p'la morte fico à espera
morre a menina de malha na mão
e arco à cintura
e  vestidinho de verão
como nuvenzinha levada p'lo vento
com ternura,
deixa-se dormir lá p'lo firmamento

a vida é bola de sabão
que a todos enamora
vai do crepúsculo à aurora
volta a subir ou talvez não!

trago comigo, tanto passado
tanto, tanto como um longínquo mar
de tanto, tanto ter amado
só meu olhar o sonda e lhe pode chegar
a minha voz já é um pouco rouca
e a luz em mim é já tão pouca
como me lembra a rapariga
q' inda em mim se abriga...
no peito apertada com ingénua paixão
enquanto nesse peito bater o coração

natalia nuno
rosafogo




sexta-feira, 16 de junho de 2017

caminho que não oferece regresso



com passos rígidos enfrento o caminho
meu tempo é desanimadoramente curto
a noite abre clareiras mais um dia prestes a raiar
entrego-me contra vontade  e nem adivinho
as ondas agitadas que terei de amansar
há becos apertados neste caminho
e sombras a impedir o azul no meu céu
os pensamentos agitam-se  como asas de pássaros
e já a saudade no meu peito cresceu

sinto assim o caminho percorrido
não me disponho a chorar
nem de mim a ter pena
num torvelinho recordo o tempo vivido
deixo-me na saudade ficar
sinto-me percorrida por uma certa calma
interior, consciente do meu sentido de lealdade
e amor ...
para com o Pai que sempre hei-de louvar!

às vezes há um frio mordente
que me domina, que me deixa num estado
obscurecido, veemente
deixa meu dia a dia infectado
como doença que me pegasse,
e me deixasse uma certa fragilidade
dias tristíssimos que não evocam esperança
caminho que não oferece regresso
e do presente já tanto me esqueço

mas etérea é em mim a saudade
que trago do meu caminho de criança.

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 15 de junho de 2017

o olhar estendido...



vejo o sol a erguer-se na imensidade
do horizonte
o mar desdobra-se até lá
diante dos olhos uma mágica visão
assim deixo correr os dias sem os contar,
olhando o céu, deixando a alma retemperar
a tarde cai, retomo o caminho meu
afadiga-se a imaginação
e o astro lá... no céu
a recolher num silêncio
arrebatado, foi curta a duração
por cima da minha cabeça aves de passagem
daqui a pouco a lua a iluminar
fica a penumbra e os meus dedos palpitando
na escrita... e a desdita
do meu corpo esquecido,
faz-se noite, mas o dia sempre ressuscita
só na minha alma, se crava com impiedade
a saudade de todo o tempo vivido

uma e outra vez volto a sonhar
meu sonho é como navio encalhado
que se abate sobre a ondulação
e meu coração a pulsar
teimoso, num sussurro ignorado.

a noite às vezes enche-me de pavor
outras, de uma amada sensação
nada afinal mudou, nem o amor
que pretende sempre ressurgir no coração
sempre a vida se renova
e algo me faz saber
que o sonho cresce e é a prova
que dá asas ao meu voo e me faz viver

natalia nuno
rosafogo






quinta-feira, 1 de junho de 2017

ausência...



puxa-me ao teu peito
e aperta-me até fazer doer
a tua ausência deixou uma ferida aberta
e a minha espera permanece
assola-me o frio na noite deserta
aperta-me contra o peito, faz-me esquecer
que a dor também se esquece!

assedia-me a tristeza, abre-se a noite silenciosa
e, nela ecos que nos unem, ressoam na mente,
sinto-os docemente, como um vento
a querer abrir-me a boca
e como louca, aceito o beijo num beber doce
como se de verdade fosse...

- mas, sei que me engano
e cai uma lágrima em busca dum rosto,
que já foi luar,
irrompe dos meus olhos como um mar,
em sonhos, sinto ainda a recordação
do tempo que trazia aos nossos dias odor a jasmim,
lembro o teu corpo de desejo,
agora... de ausência em mim...

natalia nuno
rosafogo




Obrigado...


a todos estes meus leitores que a cada poema que partilho estão presentes neste meu blog, venho agradecer, são o motivo desta minha escrita... é o cume dum grande privilégio contar convosco, para que as minhas mãos não silenciem , nem a abrasadora sede de escrever e o sonho não acabe, criando assim sempre mais um poema que carrego nas minhas asas invisíveis, com palavras trémulas e remotas, com a pureza de quem se entrega por inteiro......à Poesia.
OBRIGADO





segunda-feira, 29 de maio de 2017

quimeras...



Guardei os sapatos de cetim
E o vestido de levar ao baile
Juntei-lhe perfume de jasmim
Ficou na memória o xaile
Pobre do xaile e de mim!

Desvanecem-se os pormenores
A saudade é tudo o que resta
Dos bordados e bastidores
Dos meus primeiros amores
Quando a Vida era uma festa.

O futuro é corredor escuro
E o amor fogo que ardeu
E não há nada mais duro
Que na Vida o que se perdeu
Vejo-me ao espelho não sou eu
Já nem sei o que procuro.

Olhos às nuvens erguidos
Lembram mãos q' se apertavam
Lembram os beijos furtivos
Os abraços que se davam
Cartas escritas se rasgavam
Mas já esqueci os motivos.

Tenho que dar ordem à vida
O tempo é quem tem a culpa
De me trazer esquecida
Sem sequer me pedir desculpa.
Dor sem peso nem medida.

Tardava em adormecer
Amar era um trinta e um
Mas pior era não ter
Na vida amor nenhum.

Que importa!?Que me importa!?
O que lá vai é esquecimento
Trago a viagem já morta
Promessas leva-as o vento.


natalia nuno
rosafogo
Escrito há muito tempo vinte anos talvez, tinha o nome de Caixa de Pandora, mas já nem recordo a razão, hoje mudei-lhe o título, e é mais uma poesia simples que sai do arquivo.


afã de palavras...



guardo palavras na noite
que renascem pela madrugada
deixo-as ao relento enquanto sonho
com a criança de pele rosada,
da qual nunca quererei fugir.
sinto-a como o sonâmbulo vento, num ir e vir
numa cadência quente flutua
na minha retina
um arco-íris que aparece e desaparece no céu
no segredo aprendido, tudo acaba... e eu,
não sou mais eu!

ao longe a menina
fresca polpa, fragrância formosa
gota de orvalho, raminho fresco
orquídea, rosa, riso de laranja
que se atreve a sonhar
miragem distante que em sobressalto
me vem acariciar.
a transparência do instante
leva-me a tocar o horizonte, desperto
e sinto-me na claridade da fonte
miro-me nas águas cristalinas do rio que tocam meu coração
tudo tão distante, mas põe-me ao rubro a emoção

vou sonhando-me numa teimosa nostalgia
numa voragem absoluta,
adormecida sob a ramagem do salgueiro
por todo este tempo oculta a sonhar com a felicidade,
num amor indecifrável à terra, à vida,
num continuado afã de palavras de saudade
recolhida...amando a que um dia fui.

natália nuno
rosafogo







domingo, 21 de maio de 2017

ao nascer da aurora...



adivinha-se o nascimento irresistível
da alvorada no imenso horizonte campestre
o meu pensamento relembra o tanto amor
que me deste,
perscruto a paisagem como que à espera
do eco da voz conhecida
do amor da minha vida...
ao fundo da colina,
vejo-me ainda menina
a aurora cresce hora a hora
enquanto o meu pensamento relembra
as minhas mãos perdidas nas tuas mãos,
nossos dedos entrelaçados
dois corações que se encontram enamorados
sinto até medo de espantar a felicidade
rezo para fazer o tempo parar
e com os olhos húmidos de ternura
lembro-te com saudade
enquanto teu braço m' rodeia a cintura

de repente fica o sonho nublado
sinto o peso da idade os dias de solidão
tremo como um pássaro apanhado
e olho longamente com olhos de sonho
a querer abraçar-te, para que o sonho não
seja mais um para sempre perdido
e num gesto de ramo florido
de tília ou de jasmim
dizer-te que ainda te amo tanto
quanto me amas a mim...

natalia nuno
rosafogo







sexta-feira, 19 de maio de 2017

quando a tarde morre...





nada mais belo que as árvores a dançar ao vento
e um céu azul semeado de nuvens brancas,
a vida é feita de luz e sombra, feita de espaços
de gestos ternos ... beijos e abraços
frágil, ardente quando o amor consente,
com prodigiosos acasos do destino
basta sorrir para receber em troca
outro sorriso... a combater o vazio
quando nada acontece,
sorrir porque é grato recordar
e aceitar, que dos rostos
já pouco se reconhece,
mas a vida sempre devolve  o sonho,
o desejo, e ainda um pouco de paixão
apesar do coração me pisar o peito
sentirás sempre o seu pulsar
e o meu amor derrubará qualquer
tristeza no teu olhar...

voam aves livres no meu pensamento
arautos que me trazem saudades
há árvores a dançar ao vento
e rosas pálidas nas proximidades

cairá meu coração onde ninguém o espera
cairá desmoronado no outono de folhas caídas
quem sabe ao nascer da primavera,
ou ao dourar das espigas...
quebrar-se-à em pedaços
e como pássaro sem asa por entre sombras desvanecidas
morrerá nos teus braços

natália nuno
rosafogo











quarta-feira, 17 de maio de 2017

chove-me na alma...



vi-te olhar a luz lenta que se perdia
olhei as primeiras sombras da solidão
a cada dia com mais precisão
olho-te e a dor é forte
é o meu sangue que sente
que nos há-de separar a morte

de repente um aroma a recordar-me
palavras doces, trémulas e remotas
que me abrem as janelas da memória
e me conduzem ao tempo do sonho
nele somos a juventude...
volto à quietude, onde amiúde
o recordar do teu sorriso me provoca
estremecimento

pressentimento frio
sussurra ao meu ouvido
e com audácia fala-me da vida por um fio
tanto tempo decorrido... e agora a solidão
crescente... é meu sangue que sente
esta vida que nos emudece
este outono de pegadas vacilantes
este querer lembrar que já esquece
neste dia, na sombra  deste instante
com saudade de todos os instantes...
esta obstinada desordem, esta angústia sustida

nada me resta, traz-me a morte seduzida...

natalia nuno
rosafogo



amor dávida plena...



esperava um pouco de amor
palavras ditas com ternura
só... neste silêncio de inverno esperava uma mão,
um sorriso, recuperar recordações desaparecidas
e murmurava...mergulhada na escuridão.
através das cortinas impelidas pelo vento
deixava que entrasse a esperança secreta e imconfessada
e queria muito de novo ser amada,
esquece o que há muito foi
continua um pouco triste, porque a verdade dói.

o coração ainda lhe transborda d'amor
deixa-se a meditar para aquietar a dor,
as palavras vão perdendo seu significado
aguarda o sono em vão de pesadelos povoado

é quase a frescura da manhã
ainda traz o sonho da juventude
espanta o frio que chegou à sua vida
sente a liberdade dos rouxinóis que vivem em si
na alma um bem-te-vi
canta a cada instante o fogo da felicidade,
espera um pouco de amor
e no bosque nocturno do seu corpo
com um fervor quase de adolescência
vive abraçada à saudade.

natalia nuno
rosafogo







segunda-feira, 8 de maio de 2017

lembranças ditosas



à noitinha o último canto da cotovia
e no meu coração como flor,
o amor nascia
os sons nostálgicos da tarde não morrem
vivem na memória de verdade
sou a jovem que recorda, o adulto que me ouve
sou a razão do meu coração pulsar
e aquela que com a saudade se comove,
trago ainda o odor do tomilho, o cheiro
da madrugada,
que são essência em mim enraizada
trago lembranças seduzindo-me com doçura
perfeitas, ditosas,
que são trinados de melros
com ternura...
abrem as portas do passado
trazem-me a brisa do salgueiro
o marulhar das águas do rio amado
e o sonho dum amor... o primeiro!

rememoro cada fruto silvestre
cada um com sua sensual fragrância
o êxtase de cada dia, o sol que ainda hoje
me veste enamorado, como quando eu era criança.
vive em mim toda esta felicidade
estremece a brisa quando me vê,
quando toca meu ouvido,
o tempo ficou longe, andam imagens rasgadas
sem sentido... mas será sempre eternidade
que levanta a primavera no meu coração
ajuda a sair desta saudade sem portas
até que minhas mãos estejam mortas.

o meu silêncio põe e dispõe
e assim me vai enclausurando
enquanto um cisne branco ma minha memória flui
e um lago de palavras vai murmurando
sedução que ao coração aflui...

natalia nuno
rosafogo








quarta-feira, 3 de maio de 2017

sonhos...



beijos quentes e derramados
em bocas murmurantes
girassóis abertos na noite
aromas de corpos gritantes
agora... só na imaginação
foi-se o tempo da aurora
resta a recordação

perdidos como um grito no vazio
os corpos murchos,em total obscuridade
o peito frio, e nele a saudade...

e na esperança contínua do desejo
vai-se acabando a vida, aceita-se o nada
vai-se quebrando o medo com beijos
com ternura reforçada
com palavras que se perdem
alguma ilusão, a mesma loucura
o mesmo sonho e ainda
alguma paixão, a mesma loucura
que não finda
o mesmo amor, neste amplo corredor
que é a vida,
e assim o destino se cumpria,
em harmonia
e eu de mim esquecida...


natália nuno

escoam-se os dias



Como um rosário de contas
escoam-se os dias sempre iguais
como é inconveniente pensar demais!
o coração é uma hera que sobrevive
ao tempo, à geada,
trago ainda o aroma a terra molhada
e a saudade como recompensa
galopando no meu peito...imensa!

o tempo passa resmungando
escapa-se por entre os dedos
enquanto o coração se apressa
a bater palpitando...
aos ouvidos,
surgem meus medos
emoções, nostalgia dolorosa
momentos de alheamento, desprendimento
passa por mim a brisa morna do outono
morre-me a voz na garganta
fica ermo o pensamento.

ao despertar do sono
é como se tudo, não existisse mais
escoam-se os dias sempre iguais
eu pássaro sem orientação
perdido, voando até à exaustão
ainda assim vou sonhando, pois
do sonho não posso nem quero abrir mão.

natalia nuno






momentos...




Quando olho minhas mãos, apercebo-me das fadigas por que passaram e olho a sofreguidão dos meus dedos em agonia por não saberem ainda estar parados, lembro as vidas que dependeram delas e hoje vejo que são mãos cheias de nada.

natalia nuno
rosafogo

pensamento...



às vezes fecho os olhos para ver melhor...
a VIDA é amarga, mas o sonho continua e é mediador entre os momentos menos bons e as dávidas que ela sempre acaba por nos oferecer...

Momentos...III




Olho a Lua fria e repousada, num céu onde é rainha há milénios, tudo parece tranquilo, como se a Vida corresse sobre rodas. No meu pensamento renascem lembranças de tempos ídos, mas fácilmente se adivinha que apenas a Lua é rainha, enquanto eu, esmoreço no lusco-fusco da noite com as palavras em silêncio... perdida na memória do tempo.

natalia nuno
rosafogo

sábado, 22 de abril de 2017

a saudade foi tema...



a saudade tem mãos de mãe
sempre previsíveis na sua ternura
pespontando sonhos e esperança
no riso da sua criança...

abro os braços à recordação,
a saudade leva- me à loucura
e com grande arrebatação
nada silencia a minha mão,
entrego-me à saudade com ternura
acaricio as águas onde me banhei
e como cana ali plantada com fortes raízes
lembrarei... os dias felizes.

em tantas ocasiões
sou aquele rouxinol entre o arvoredo
e no sonho da palavra... sou o segredo
povoam-se os meus olhos de visões,
sinto o frio do remoto, a audácia do eco
que se prolonga decidido,
apesar do tempo decorrido
e lá vou!
borboleta na aurora, à espera da hora
de ouvir o sopro incandescente do poema
dizendo q 'siga em frente, q' a saudade
será sempre o meu tema...

natalia nuno
rosafogo





quarta-feira, 19 de abril de 2017

elegia à luz do dia...



a luz do dia é ainda menina
chega formosa e repentina
beija a terra, sorri por entre as árvores,
beija as flores
traz à manhã frescura e aos corações amores
e com ternura derrama-se pela tarde,
daqui a pouco é sonho,
é névoa beijando o horizonte
e logo depois súbita eternidade.
deixando o dia, leva saudade
e  sonha voltar amanhã, ao íntimo da fonte.

esquecida, testemunha em silêncio,
vejo-a a escapar-se por entre a folhagem
dos loureiros, e adormecer no regaço da noite
enquanto vou sonhando com m' imagem
com meus sonhos... primeiros.

amanhã voltará com sorriso derramado
despertará os rouxinóis que trago em mim
e alegrará no monte a murta e o jasmim.

prontamente acalmará o vazio dum sonho inacabado
trará de novo um inventário de esperanças
vestirá  minhas lembranças
com traje de menina,
em harmonia...seguiremos crianças
por mais um dia.

natalia nuno







sexta-feira, 14 de abril de 2017

sonho que o dia sustém...



a lucidez sempre te interroga...
porquê esse vôo até ao obscuro?
porquê esse abismo inesperado
essa inquietude...que é fogo
esse contar de rugas novas...
deixa que te acompanhe a formosura do vento,
a ternura do correr das fontes azuis,
a verdade dos sonhos
nas trovas
despoja tudo o que é dor,
e deixa-te levar num passo doce,
com  olhos de criança
como se ontem, ainda hoje fosse


abre as pétalas vermelhas do sorriso

retira os olhos  da penumbra
deixa ver o verdor desses gerâneos
trazes a esperança delapidada
acalma a ânsia desolada
atreve-te a sonhar,
avança um pouco mais
e deixa a tristeza nos umbrais
deste poema...


natalia nuno

rosafogo









natalia nuno

sexta-feira, 31 de março de 2017

pincelei meu dia...




dei uma pincelada neste dia cinzento
ficou o céu com um ar rejuvenescido
subjacente à minha intenção ficou um sentimento
o da saudade que faz em mim ruído
os dias são desertos e se sucedem
neles mil incertezas me assaltam
eclodem do pensamento palavras que medem
a solidão antecipada dos dias que me faltam,
hoje trago os olhos queimados de poesia
no coração trago uvas ao sol com doçura
pincelei assim este meu dia
e deixo-me num mar de luz e de loucura

entranço o meu vôo no arco-íris
e o aroma da vida em meu ventre avança
e em plena aurora, chega a hora da mudança

separo-me do obscuro que me percorre
e o dia enche de ar e jasmim a minha boca
arrebatada me agarro à esperança que não morre
e aproximo-me do teu corpo como louca
neste dia cinzento dei uma pincelada
e jovem corro em plenitude e alvoroço
nas asas  dum sonho que arde
não deixo a indolência tome conta de mim
pois que para sonhar nunca é tarde...

natalia nuno
rosafogo









quinta-feira, 23 de março de 2017

confusão de difusas luzes...



o dia a querer fugir
enquanto a saudade se aperta
contra o meu peito
e esta ferida aberta que se aproxima e se evade
como sonãmbulo vento, na noite deserta
procuro-te, e sinto-te cada vez mais distante
foste o sol que subias p'lo meu corpo
abrindo clareiras, brilhante...
agora, invento sonhos quando a solidão
me traz carência de ti, a tua ausência
é um tempo onde escuto a tristeza
é com certeza o verdor onde verdeja
o meu instinto, a minha resignação,
esperando um tempo de alegria, de fragrâncias
de atiçados ventos, que me devolvam os momentos
de amor...e de paixão.

perco o olhar numa lânguida vastidão
o céu é um mar de estrelas,
fico nesta hesitação
ainda com tantas palavras por dizer
procuro esse corpo de desejo que me falta,
um pranto sem palavras dos meus olhos salta
vindo do fundo do meu ser...

já lendários se tornaram nossos dias
e apesar das ausências e regressos
os teus olhos penetram no meu espanto
e eu quero-te tanto....

natalia nuno





sábado, 18 de março de 2017

oscilam os pensamentos...



afoga-se o seu dia num espesso relento
obscurecendo-lhe o alento
e há reinos de mel a que abdica
e ela ali fica...
sorvendo o que lhe resta
acostumando-se a calar
para não se despenhar
nos oásis da sua loucura
onde o vazio lhe devora a memória, sem cura,
permanece pensativa e certa que lhe vão
fugindo as recordações, meras ilusões
dos anos que passaram...
o tempo gravou-lhe lentamente
sombras nos olhos, retirando-lhe sensualidade
o odor a espessa madressilva ou mel quente
enlouquecida na saudade,
esqueceu-se gente

olha para trás e pressente
o rumor da queda na tristeza
segue a orla do seu mar silenciosa
esquece os ecos que a atormentam
escreve palavras implorantes, desejosa
duma promessa de vôo até nova quimera,
e pelo sonho espera...sonha e extasia
e aos seus olhos embaciados volta de novo a alegria.

natalia nuno
rosafogo



segunda-feira, 13 de março de 2017

ébrias fantasias...



o olhar é um poço sem fundo,
verde como o esplendor do mundo
vibrante e quente o coração
inundado de emoção,
e nos corredores da mente ébrias fantasias
onde a felicidade é agora saudade.
o inverno dita o rigor dos dias
mas a vida agita.se feliz diante do nada,

cansada, assim vai vivendo e morrendo
na dor que dói e permanece,
mas ainda sonha a mão que escreve,
e a dor esquece...
a palavra percorre-lhe o sangue
molda-se e cresce no papel
vogais, consoantes, acariciam-lhe a pele.
dos sonhos nascem adjectivos
que tece  e destece
memórias e desmemórias,
sonhos que se agitam vivos
vindo do seu desmesurado coração
metáforas brotam-lhe dos dedos
mais formosas que o vento batendo na ondulação
sem medos, uma alegria antiga
traz ao seu sossego,
sonhos de amor e paixão...

natália nuno
rosafogo




sexta-feira, 3 de março de 2017

sílabas precisas...



quase noite é... a idade
do rio que em mim corre
teço a própria realidade
sonho em mim não morre


sobre ruínas desperto
a palavra sol me ilumina
na vida q' parecia deserto
sonho-me de novo menina

natalia nuno
rosafogo

o odor da rosa...



este dia não me pertence
deixou-me e foi-se embora
é passado e me convence
a vida é caixa de pandora


sou espinho reclamo a rosa
já que o odor nunca esquece
dos versos à humilde prosa
prenhe inquietude acontece

os pássaros precisam de voar
meus sonhos são d' esperançar
com palavras rego minhas dores

abro o peito para o que der e vier
cá dentro ainda o sol a crescer...
lirismo onde morrem os amores

natalia nuno
rosafogo

a vida é jogo...



começa a vida num xadrez
mal e bem ... forças inimigas
no tabuleiro apostam... talvez
um dia vão deixar-se d' brigas

escasso tempo dura a partida
por atalhos oblíquos... segue
não há pausa é guerra sentida
e só a morte a paz consegue...

como a maré esculpe as areias
m' punho palavras vai golpeando
e as minhas ideias andam alheias

alto sol às vezes na noite me alumia
nas manhãs sem nada vou andando
e nas tardes pinto de mim outro dia


natalia nuno
rosafogo

saciar da saudade...



cerca-me a memória a saudade
que não me abandona
como brisa que me traz a linguagem das flores
e o harmonioso tempo da felicidade,
e dos amores,
atravessa esta paisagem de estio que é meu corpo
e é como rio que corre,
oscilando entre o silêncio e o rumor
nada cala a dor
nada procura nem espera
diz-me apenas palavras por dizer
cresce com os anos,
com o maduro sentido de viver

é testemunha do meu silêncio
do meu entardecer...

enquanto a tarde se põe no poente
e as rosas desfolham com o vento
escrevo linhas misteriosas com o coração que sente
enquanto da terra escuto o alento.
o eco da infância é ventura
de voltar a sentir e a contemplar
a frescura... da minha origem
e com inocência poder a sede, da saudade saciar.

natália nuno
rosafogo


ebriedade...



no rosto a indolência da bruma
o sonho em chama a surpreende
a saudade, já de coisa nenhuma
um vendaval que ninguém entende

do tempo traz nela a voracidade
entre os lábios a quente labareda
os desejos transbordam de saudade
no olhar tristeza que ninguém arreda

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 24 de fevereiro de 2017

graça divina




seu papel representa dia a dia
os olhos revelam melancolia
olham todas as coisas
não se fixam em nenhuma,
o riso já não é luminoso nem cristalino
olha as estrelas uma a uma
vai seguindo o destino

as horas vão passando
remexe-se no assento
sonha com serafins e querubins
ai fica suspensa indefinidamente
sonhando ser seara à mercê do vento
reflecte longamente
ai a força do tempo...
e o esforço do coração para se libertar
querendo a vida aprisionar.

as mãos nervosas
vão enchendo folhas
as ideias multiplicam-se no pensamento
apenas o céu azul, o odor das rosas
o espírito e o corpo livres
e por graça divina
volta a ser menina.

natalia nuno
rosafogo





segunda-feira, 20 de fevereiro de 2017

sonho maior...




sobrevoando os verdes da mente
viajo entre memórias embriagadas
num céu azul transparente
ou de nuvens pelo sol talhadas
vôo, ao compasso duma música que só eu escuto
na tranquilidade do sonho que me leva em desejo
até ao delírio... sussurra-me um canto confidente
esqueço até o rosto enrugado
essa verdade veemente,
que em mim se tem arvorado.
como abertas flores, os sonhos ou alucinações
rodopiam como se fosse um acontecer constante
e eu desço do tempo, deixo-me nesta cegueira
por um instante...
lembranças desejadas há muito detidas,
algumas, talvez ainda não nascidas!
mas destinadas a acontecer...
busco-as nas minhas entranhas
em sobressalto, como uma música ferida

procuro nelas enlear-me num sonho maior,
que não quero perder...lembranças
são minha vida...

e num confiado sonho vivo,
igual sempre a mim mesma
as horas vou abraçando num absoluto abandono
na escrita meu coração palpitando, aos ouvidos
sempre aquela incerteza que parece falar-me
deste outono que me rasga,
que me traz de repente um aroma
a recordar-me...há um vazio, carente de vazio
onde nada acontece, um espaço surdo e fechado
um rio que quer correr no meu coração parado

sou a mesma... saudade e inquietude
sou a criança que avançou na idade
e ao mesmo tempo sou por ora a juventude.

natalia nuno
rosafogo