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terça-feira, 16 de julho de 2019

a dança dos sentidos...



como a lembrança se aviva agora
ela  que levanta poeira do caminho
silêncio de q' escuta e espera a hora
alheada de tudo, menos de teu carinho

sinto o teu hálito no meu pescoço
um tocar meus céus dos  teus dedos
por dentro um calor, a tua voz ouço
coniventes, loucura nossos segredos

vai a tarde avançada, desejo sedento
ilusões desfeitas crescem agora no peito
e o jogo do amor... não quer adiamento!

sopras a meiguice aos meus ouvidos
fico mar sedento alterando sem jeito,
tarde em declínio, na dança dos sentidos.

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 15 de julho de 2019

orgia...



para  onde irá o vento tão apressado
que nem me vê só eu o vejo
deita-me um olhar  dissimulado
e deixa o meu com um verde já desbotado
vai numa orgia sem começo nem fim
e num bailado, descompõe-me os cabelos
ao passar por mim
vento que me faz andar e é tempestade
sonhando sou barco à vela levo saudade
ouço-o agora ao longe nos caniçais
no lugar onde m'alma é peregrina
trazendo-me o odor dos laranjais
como quando já velho e eu menina.

para onde irá o vento quem é que sabe
que me deixa saudades distantes
e o pensamento num bater  de asas d' ave
águia cansada, com desejo de voar
puder partir sem lágrimas no olhar

vento que passa por mim apressado
passa às vezes com silvo forte
pousa por instante no meu seio esmagado
como a avisar-me  da morte.

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 12 de julho de 2019

rondam dias incertos...



rondam os dias incertos,
dançam cortinas de névoa no caminho
morre o sol na minha face aos pedaços
meu pensamento em torvelinho.
são agora inúteis os passos.
já nenhum espinho me fere nem choro
que me dilacere,
meu riso em botão, é estrela apagada
meu olhar é fogo-fátuo
e há lírios místicos na minha garganta
calada...

agita-se a memória,
já o estio nela habita
rondam sombras de desalento
tapo os ouvidos, não quero saber
se a morte me grita,
trago as asas mutiladas, e esforço-me por entender
porquê, o tempo as consumiu na voragem
deixou meu vôo, sem me reconhecer.
não me falem de nada, deixem minha lágrima fria
e esta cortina cerrada, em mim, noite e dia,
e nesta imobilidade, apoderar-se de mim a
saudade!

natália nuno
rosafogo
imagem da net

quinta-feira, 11 de julho de 2019

meu pedaço de chão...



quando era pequena ouvia o silvo do vento
era minha sedução, contava as estrelas,
era livre meu pensamento
ciosamente amava a lua e as noites de luar
o céu era alto, e o pensamento era como ave
que nele habitava, tanta coisa por conquistar
ouvia os trovões troando
era tão estreito este mundo meu, mas
povoado de sonhos e estrelas brilhando,
ali por perto, as rãs coaxavam saltitando
e os sinos da igreja dobravam Avé Marias
enquanto a avó rezava ali ao lado
todos os dias, com religiosa devoção
e eu amava este meu pedaço de chão.

logo o sol desaparecia cheio de majestade
até cair desmaiado, deixando ao dia saudade
estremece meu peito, como estremecia a vela
a lua era agora o astro e eu a companhia dela
na chaminé pedaços de lenha em chama
faziam o café, o silêncio era mistério
ali me aquecia e mirava a avó com seu ar sério
às vezes sentia-me sem asas, mas compunha a solidão
desdobrava-me em sonhos, voava por sobre as casas
tocava piano com ritmo e harmonia, perdida no desvão
e por lá adormecia, e ao acordar era já dia

este poema ressuscita um feixe de emoções
mas do passado só restam lembranças, a desfazerem-se
em poeira, são como gotas de orvalho nas rosas
hoje só a saudade caminha a meu lado
traz ainda ternura ao meu olhar
seguimos o caminho de braço dado

natalia nuno
rosafogo
poema repescado de 2001

segunda-feira, 8 de julho de 2019

adeus ao que não volta mais...



hoje lembrei os medronhos
enquanto o sol se punha no horizonte
acesos ficaram os sonhos
no doido intento de me levar à minha fonte
talvez saudade dos que a morte levou
saudade a vou escrevendo e é tudo que ficou.
saudade que não se mede
tristeza que não se pede
voz do silêncio no coração apertado
ficou por lá o campo de giestas
e a terra vestida de verdura
pulam as searas em festa
e o meu destino ansiando por ventura.

hoje lembrei os medronhos
como se acordasse dum sono profundo
como não hei-de guardar estes sonhos?!
se foi ali enquanto o sol se punha que vim ao mundo
ali dei os primeiros passos
ali num frenesim dei os primeiros beijos
ocultos, em segredo, suspiros e abraços
num pecado aceso de desejos
vi passar a procissão devagarinho
gente com o coração cheio d'amor
de todas as idades,
e o cheiro a flor do andor
me traz saudades

hei-de voltar a pôr os pés de novo
lá onde cresciam os medronhos,
porque sou menina do povo
e ainda trago acesos os sonhos.

natalia nuno
rosafogo
poema repescado de 2001

quinta-feira, 4 de julho de 2019

nostalgia de doer...


toca-me a saudade
e ela quebra-me em pedaços
o meu ousar vai declinando
fico pássaro sem asas querendo tocar o céu
lembro então como tudo era diferente
e me sentia gente nos teus abraços.
quando a tarde morre, o coração embarga
tento esquecer mas a saudade não me larga
lembro do meu rosto e do beijo enamorado
fica meu peito ansiado... e,
não entendo porque vive mas vive batalhando
ainda está amando, num compasso turbulento.
em vão desprendo o pensamento
meu olhar fica distante
mas logo a saudade volta a mim fecundante,
então nem sempre é noite, e nem sempre é dia
ela me traz tristeza mas também alegria.

e no meu corpo ardente, mansamente,
esqueço a solidão que me apavora,
sinto-me leve vai-se perpectuando a descida
esqueço o sabor amargo da vida
agiganta-se o meu céu
e volto sempre à menina que sou eu...

medo tenho, do dia que me deixe de ti saudosa
sinto esse mal como ninguém sente
ficarei sem riso, sem canto, chorosa
estremece o peito sempre que esta nostalgia
de doer me vem à mente.

natália nuno




sábado, 22 de junho de 2019

coração doído...



a luz que o sol distribui tão generosamente tudo gera, é ele o olhar da manhã que aquece o dia e esmaga a noite, adoça a vida, com sua mão quente percorre o nosso corpo, e depois corre disfarçado por entre as sombras e vai deitar-se por detrás do horizonte, deixa a saudade o cansaço os sentidos adormecidos e a luz se fecha. E as rosas respiram o orvalho da noite, nos montes tão velhos quanto eu  o dia e a noite faz-se paz... até que ensolarada nasce a vida de novo no dia que clareia...nas telhas partidas dos telhados já entram raios, é o sol que abre as pestanas dizendo bom dia à terra, e o ar do campo é lavado e saudável, acordam os girassóis, não há tempo a perder que o sol vai caindo calmo e tranquilo fechando os olhos...lá cai mais um dia!espero há horas calada pelo amanhecer da noite, mais uma tarde que se despede os sinos tocam as trindades, de repente lembro as horas e é então que sinto um vazio cheio de novas esperanças no sereno da noite, faço aceno ao dia que parte, a solidão é difícil e profunda, tão próxima estou do passado e tão ausente do presente, dou dois passos em frente e ando só por andar não por ter pressa de chegar. invento sonhos a vida inteira, trago o coração doído, o tempo sempre à minha beira e eu pensando tê-lo perdido.
natalia nuno
rosafogo