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domingo, 17 de setembro de 2017

semeando palavras...



e estava ali de olhar longínquo
distante de si, a evadir-se
da máscara que os anos gravaram,
com o corpo sem esplendor a querer
encobrir-se...
e no sonho, um comboio de ideias...
na memória turva ainda aquele amor
aquele, que sempre lhe trouxe ansiedade
- sonho baldio o seu sem piedade
que insiste ser sua companhia,
dia após dia.

e estava ali escutando o vento
e as memórias lhe surgiam, não
sabia donde... quem sabe do infinito?!
e sem alento escutava o eco do seu
próprio grito...

e estava ali, escutava a alma errante
e comovida
perdendo a força e o rumo
distante de esperanças, envelhecida
desfeita como o orvalho da manhã
o fumo do fogo quase extinto
- alma que chora por dentro, enquanto o futuro
já perto, murmura,
tempo duro, desprovido de ternura
que o coração recolhe com dor
e tenta afogar num nó.

e estava ali lavrando versos com dó
de si mesma, memoriando os dias
tocando a estrela que ainda a encandeia
esquecendo o que a rodeia, desgastada
é tudo e é nada,
enquanto palavras semeia...


natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 29 de agosto de 2017

no vazio do verso...



a minha taça está cheia
cheia de mel e de fel
meu passado não é água nem espelho
é um cesto onde guardo vivências dum tempo velho
q' apaziguam meu coração
chão outonal sem folhas nem flores
raízes que crescem dentro de mim
onde só os sonhos tem odores
a jasmim...

os meus ombros dobram-se ao peso da idade,
enquanto o inverno estás prestes
a trazer-me a nostalgia
na última sombra do último dia
nos meus lábios há suspiros que a saudade
sustenta,
e me sinto menina que sonhos inventa,
mas na minha tarde já o sol declina
e os ventos avançam no corredor da mente
fustigam os pensamentos,
e quebram-me a alegria.
só o sol nascente
me trará com clemência, um outro dia

a minha taça está cheia
do ontem e do hoje
ficou meu rosto ausente
e já a vida me foge.
se insisto em ficar,
ela insiste em me desfolhar
despejo mais um cálice na estação que nada traz de volta
mas o sonho me impede de acordar
e no vazio do verso minha alma se solta...

natália nuno
rosafogo

segunda-feira, 28 de agosto de 2017

lenta existência...



é tarde, geme a escuridão
fim do dia, noite negra de solidão
a aldeia está morta, cheira a terra molhada
gotas caindo do arvoredo
desperta-me uma sombra alada
pousa perto uma pomba sem medo
hoje nem o sol lavrou o céu
nem deixou cintilação dourada
a nostalgia atravessa a rua
chega fervorosa a lua...
lenta existência, cega ilusão
restamos nós, os de então!

mato o tempo sem pressa
a aldeia enche-me os olhos
cegos de ternura, a infância regressa
à emoção do caminho,
com a imagem e os sonhos
que tive então, amo o silêncio,
nele me aninho.

passaram anos velozes e lentos
restarão as chuvas dos esquecimentos
em evidência a menina nos seus pensamentos
espanta o frio que à vida lhe chegou
sente a liberdade
e ainda o fogo da felicidade
que em si perdurou...

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 21 de agosto de 2017

do tempo e do sentido...



seu rosto é um vale de sombras
com riachos a marulhar
recorda-lhe a vida que podia ter tido
mas já não faz sentido
nem sequer recordar,
o tempo lento a devora
o peito lhe golpeia
é o ressoar da hora
é o ficar presa na teia,
é a obscuridade
tirando-lhe até o júbilo da saudade
os sonhos, a vida,
despoja-a de tudo, como um eterno inimigo
deixando-a sem porta de saída...

tempo predador, onde não existem sorrisos
e é em vão a vida sem resplendor
tão pouco existem estrelas, nem o azul do céu
e nem ninguém ouve o grito seu,
sente apenas agora aquele cansaço
e a sensibilidade doente
a recordação constante numa lufada quente,
é ave trémula que se agita ao vento
distanciando-se cada vez mais
no firmamento...

o tempo traz-lhe o pavor do desconhecido
cambaleia... em todas as direcções
a sua única ideia é fugir
caminha cada vez mais depressa
uma voz se faz ouvir, não quer porém
nem mais uma palavra de ninguém.

natalia nuno
rosafogo






segunda-feira, 14 de agosto de 2017

sonhei contigo...



cheguei-me à borda da encosta
crescia em mim tanto alvoroço
sonhar assim, quem não  gosta?
 ver-te do outro lado ainda moço

ficaram meus olhos enfeitiçados
em chama acesa, forte pavio
e meus braços ali desamparados
esperando-te nesta tarde de estio

as minhas mãos de giesta feliz
aguardam o romper do nevoeiro
num tempo perdido que lhes diz
que voltarás... para elas inteiro

sei bem, são sonhos, são ilusões
grãos de pó, tudo eu inventei!
desdobrei em nós as estações
estrelas em nosso olhar semeei

lavrei a terra do amor no peito
nos rostos sulcos desbravados
somos rios com o mesmo leito
trazemos sonhos a nós atados

no adeus à tarde, quero-te tanto!
em meu colo repousa teu cansaço
c' mansa ternura aquieto o pranto
perde-te em mim, em meu abraço

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 11 de agosto de 2017

a lembrança em mim...




a lembrança é um caminho de mansidão
um abrigo dócil na minha mente
é trazer o passado no coração
e de repente...
um lume aceso que me aquece
por instante, mesmo dele distante.
momentos que voltam, para logo fugir
lembrar é algo com sentido,
- é sentir,
é trazer de amor o coração vestido.

lembrar os verdes esvaídos da beira rio
lugar de encontro, de ficar em silêncio
hoje sinto- lhe meu próprio vazio
à infância rumei,
desço a ladeira que antes pisei
e ali me retenho...por mim!
para matar esta sede da saudade sem fim.

apaziguo- me com o tempo que me censura
deixo por lá minha alma
abraço o rio, só ele me acalma
comove-se o salgueiro, despeço-me com ternura
lembranças, molho de açucenas  com aroma
a saudade...caules de aloés,
chão tão meu, onde descalça descanso os pés,
enquanto pássaros cantam na margem do verão,
açoita o inverno o meu coração...

natália nuno
rosafogo


segunda-feira, 7 de agosto de 2017

nó na garganta...



porque não vens quando te chamo?
o sono não vem traz-me cinza ao olhar
e o peso da saudade...é porque te amo
os sonhos dissipam-se deixo de sonhar

o nó que se prende na minha garganta
tão grande, tão grande q' nem se mede
mas a esperança é tanta, tanta... tanta!
que o coração sempre mais amor pede

gira ...gira,  sempre a roda da sorte
quem sabe algum dia roda da fortuna
gira esta minha vida já sem norte
longe vai  o amparo de coisa alguma

quero passar da vida o resto
como um sonho, em esquecimento
esperando todo o tempo por um só gesto
doce, uma terna voz trazendo-me alento

os prazeres o tempo vai apagando
trago o bolor do tempo nos abraços
a ti me conduz, vai-me encaminhando
só ele sabe da firmeza dos meus passos

pássaros cegos em meus olhos a voar
volteiam, volteiam, bem no interior
por entre folhedo verde do meu olhar
mantêm  meu rosto sem prazer nem dor

sinto o vazio nas margens da saudade
o céu acinzentou... o dia ficou pardo
se te chamo e vens, reina a felicidade
lembro-me donzela ... a flor do nardo.

natalia nuno
rosafogo