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sexta-feira, 12 de janeiro de 2018

estremecem as madrugadas...




as tuas mãos são aves do paraíso
que voam na paisagem do meu corpo
percorrem os trilhos sem juízo
até às portas da madrugada
e o tempo é terno enquanto caminhas
ressuscitando a minha vontade
dos tempos de loucura
de que nos resta saudade,
mas voltas e é sempre nova aventura
e a tarde arde ao rubro
e é aí que eu descubro
que o nosso amor é de verdade

quando as tuas mãos se afundam
exprimo o meu desassossego
o tempo ri de mim e de ti
mas o nosso sonho ainda mora ali
o amor fica de sentinela
e a serenidade na alma
´- o tempo o coração gela.
atormenta-nos ver a vida a cair
nossas mãos estão carregadas de doçura
e há estrelas nos nossos gestos
e infinitamente nos amamos com loucura

e amando-te assim infinitamente,
descubro que invento palavras meiguissimas
esqueço tudo o que é triste dou um passo em frente
e carinhosamente voo no sonho enlouquecida
assim corre a vida,
estremecem as madrugadas
quando nos amamos...

natália nuno
rosafogo




terça-feira, 9 de janeiro de 2018

a pingar melancolia...



quando me encosto à solidão
ninguém me pergunte nada
que irei permanecer vazia
de memória esfarelada
com pedaços de noite e ideias cegas
de nostalgia
na mão a folha do poema pronta
a boca de palavras inundada
o poema treme de comoção
pronto a nascer
ninguém nos faça afronta
que somos caudal de rio
pronto a correr...

a pingar melancolia,
nasce o poema quando ainda a noite
se prepara para dar vida ao dia...
fantasias na minha imaginação
palavras agitadas irrompem da minha mão
e num só instante o tempo passa pelo tempo
e tudo me é indiferente
e a palavra fica doce e inocente

surge a lua na janela desaba no vidro baço
e nem eu  lhe mostro o que faço, nem ela
se quer retirar, mostra-me o seu rosto lunar
duma beleza sombria, pouco a pouco
uma chuva macia  e o choro do vento louco
a minha sombra tomba na escuridão
choro os dias que sonhei então
e o rosto já não é o meu
e na minha essência de lua sou estrela
sem fulgor que emudeceu...

natalia nuno


sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

chove na minha alma...



há arbustos que obscurecem minhas tristezas
sentei-me à janela a olhar o presente
sem certezas, cansada das madrugadas
enquanto meu sonho dormia
e na minha alma chovia.
passavam as nuvens no céu cinzento
deslocavam-se para o fim do mundo
enquanto meu pensamento por mim
passava moribundo...
a noite foi minha companheira
tudo ela silencia, traz no ventre um novo dia
de sonhos é mensageira
depois virá esse dia com névoa, que m' arrasta
e da vida mais me afasta...

tudo é absurdo nesta alma nostálgica
o corpo insiste em lembrar que não vale a pena
na expectativa de coisa nenhuma
continuo, meus passos...serena!
minha inspiração determina
que me sinta sempre menina, menina ágil
uns dias forte, outros dias frágil.

com minhas mãos toquei o céu
perguntei-lhe como seria a eternidade
desceu  um pouco até mim e respondeu
vive a vida, vais ter dela saudade.

natalia nuno
rosafogo


quinta-feira, 4 de janeiro de 2018

liláses tardios



amanhece, o quarto de sombra carregado
é a solidão dos dias cinzentos
em mim, lamentos, o pensamento calado
mergulhado num mar profundo
onde a luz não faz morada
penso na vida sem regresso
para a terra fria virada,
na manhã tropeço
no orvalho escorregadio
saio do submerso vazio onde perdida
vejo a vida a envelhecer
só o coração guarda a vontade de viver
a janela nem vou abrir
olho por dentro do vidro a lacrimejar
e não é nada, absolutamente nada o meu sentir
é o tempo... o coração a esquartejar.

como se pode matar as memórias de vez?
como pode este dia ser tão triste...
talvez, que os liláses tardios esquecidos
no jardim, falem por mim...
deito a cabeça sobre a almofada
sinto-me avezinha assustada
o vento ronda a janela fazendo alarido
fala-me uma língua estranha em tom comovido

ficam as horas penduradas
esqueço a janela a lacrimejar
foram-me as lembranças arrancadas
que faço da saudade quando ela chegar?!

natália nuno
rosafogo






quinta-feira, 28 de dezembro de 2017

lembranças de menina...


já não ouço o galo de madrugada
nem o cão a ladrar ao vento
já não colho fruta nem flor plantada
mas trago ainda os gemidos do moinho
no pensamento,e as mulheres fazendo o pão
com a farinha e fermento
já não penduro cerejas nas orelhas
nem procuro passarinhos novos nas telhas
já não ouço o barulho dos alcatruzes
nem apanho goivos liláses
nem musgo do presépio entre as urzes
nem brinco com o pião como os rapazes

já não olho os peixes no rio
por entre os junquilhos
nem ouço o eco dos meus passos
na ponte,
morreram os homens que jogavam matraquilhos
enquanto morria o sol no horizonte...
há sombras pelos campos e a praça está deserta,
a fonte sossegada
já não há moças namorando à noite pela calada
aves já não páram aqui partiram para parte incerta
já só restam janelas fechadas nem uma fresta!
ninguém por elas espreita apagou-se a vida
nada mais resta...

na aldeia agora só toca o sino da igreja
a lembrar quem se foi
nada a minha fé almeja
e a saudade é muita e dói!

ausentes estão minhas mãos e braços
e de todos que partiram, perdi os abraços
no baú que herdei, está minha velha roupa
e da cozinha ainda me vem o cheiro da sopa
o tempo tudo corrói, tudo traça
só a aldeia continua cheia de graça

pretendo manter-me viva com esta paixão
dentro de mim. escrevo-te este extenso poema
olhando o firmamento e tudo perdura
até a saudade sem fim...no coração!
perco-me por entre os laranjais
e ouço as rãs na memória dos rumores
e o piso escorregadio lembro por demais
do açude, e da roupa branca no sabão
toco flores, num avanço e recuo doce
e de novo a saudade no coração
lembrando a menina como se ainda o fosse.
e aquele pássaro ainda me canta aos ouvidos
e à noite o luar devolve-me os sentidos
ouço um murmurar que me traz tranquilidade
o murmurar duma infinita saudade...

natália nuno
rosafogo




quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

nostalgia de doer...



m'nha alma anda ao sabor dos enganos
onde será que ela vagueia agora?
sofrida com o decorrer dos anos
nem de por força morrendo
arranja sossego nesta hora.

paira no ar um rumor de noite calma
por perto uma ave canta, canta
aos ouvidos da m'nha alma
lá em cima o resplendor da lua
que a terra envolve, já pensando
no cortejo da aurora
enquanto m'nha alma por onde andará
agora...

vem do campo o aroma do relento
meus olhos verdes olham em torno
uma brisa morna, que me traz o vento
o coração em desordem do sofrer
ainda morno...
pela boca da noite fala-me a saudade
como um pássaro que anseia pela madrugada
m'nha alma onde andará de verdade?
que se recusa no meu corpo fazer morada.

natalia nuno
rosafogo


trago sinais de nada...



longe vais meu rio d'água
onde minha sede se saciava
pergunto agora pelo meu rosto
que em ti se lavava...
hoje trago sinais de nada
envelhecidos p'lo cansaço
espelho gasto que não reflecte
vou adiante passo a passo
mas a vida já nada promete.

um dia termina,
e tu rio que me viste menina
dir-me-ás adeus, nessa tarde reclinada
sobre nós,
com um canto triste e sombrio
me despeço de ti ó rio
eu, tu e o salgueiro a sós,
levo nos olhos a tua límpida água
e deixo-te com minha mágoa.

o meu nome levará a dor
e um anjo selará o nosso infinito
amor...

já não posso remontar sonhos
esqueci o cheiro da alegria
e nossos segredos bem escondidos
sabes tu, da minha pele macia
sei eu, dos salgueiros que te olham embevecidos
há ilusões e há repentes
que sou ave entre a folhagem
e em ti revejo minha imagem
meus olhos janelas baças
já de tanta fragilidade
parece-lhes ver a jovem,
de quem trazem saudade...

natalia nuno
rosafogo