quarta-feira, 15 de setembro de 2010

FAZ TEMPO!



















Faz tempo!

Faz tempo fiz dois corações
Na casca rugosa dum pinheiro
Entrelaçados de ilusões!
Vivos, dum amor primeiro.

Hoje ao ver-me, envelheci
Da juventude, o que ficou?
Olhei o espelho não me reconheci
P'ra saudade me atirou.

Num coração teu nome deixei
No outro o meu escrevi
Hoje de nostalgia, viverei!
Lembrança é o que resta de ti.

O pinheiro está em ruina
Uma hera atrevida se lhe enleou
É a lua que os corações ilumina
Disse-me um passáro que ali passou.

Faz tempo,muito tempo,
Fiz dois corações
Na casca rugosa dum pinheiro
Era então a idade das ilusões
Queria dizer ao Mundo inteiro
Que aquele amor primeiro!?
Não era só ilusão, não!
Era um amor verdadeiro...
Que não cabia num só coração.

sexta-feira, 3 de setembro de 2010

GENTE DA MINHA TERRA















GENTE DA MINHA TERRA


Longos os anos de provações
Assim a vida reduzia tua dignidade
Caladas as bocas, sofrendo os corações
Gente da minha terra, te recordo com saudade.
Sempre de soluço na garganta
E o suor do rosto a escorrer
Sempre o olhar triste na hora da janta
E o assobio nos lábios para esquecer.

O silêncio era sinistro
A jorna pequena em demasia
Na taberna procuravas euforia, apenas isto
Para enfrentar a enxada por mais um dia.
Votaram-te ao esquecimento
Os grandes que podiam tudo
Verteram a raiva em ti e o lamento
Vestiram-te de rancor, deixaram-te mudo.

Rasgaram-te a pele gretada
Nas mãos sentiste o trigo loiro macio
Pouco tiveste, vergaram-te ao peso da enxada
No frio do Inverno e no calor do estio.
E sempre o demónio a cuspir-te veneno
Eras então um rosto por barbear
Rude nem sempre eras sereno
Tão pouco capaz de emoções mostrar,
na hora de amar.

Tua espinha dobrou trazias o corpo caído
Cabisbaixo, ainda e sempre nas vísceras a agonia
O tempo passou já só memórias dum passado ído
Duma vida dura, onde a utopia perdeu a magia.

Foto com meus companheiros nascidos no meu ano na nossa aldeia, num almoço que habitualmente
fazemos de dois em dois anos.

terça-feira, 31 de agosto de 2010

FESTA NA ALDEIA

FESTA NA ALDEIA

Voltei ao ponto de partida
Solto a palavra precipitada
E é mais um dia de Vida
De alegrias salpicada.
Há fogo de artifício no ar
A jorrar!
Que ninguém pode calar.

Há festa na aldeia
E uma embriaguês que me faz girar
Está de alegria tão cheia
A aldeia...
Que ri o luar!

O luar de Agosto que tudo alumia
Fazendo pirraça!
Ao sol que alumia o dia.
Já no horizonte sem graça.

Solto palavras de ousadia
Porque hoje é dia de festa
E é tão grande a alegria
Que até o sino a voz empresta.

E como tal, começa a festa
Com foguetes e cantares
Passam rapazes e raparigas aos pares
E a minha saudade se manifesta.
E me atormenta
Apesar dos meus protestos inventa
Que há-de ir à festa e voltar
E eu tento sorrir
mas tenho vontade de chorar.

Lembro as festas de outrora,
A rainha da festa, a quermesse
E me dá saudade na hora.
A juventude não se esquece.

rosafogo
natalia nuno

sábado, 28 de agosto de 2010

ESPANTALHO















ESPANTALHO

Trai-me o tempo
Velha história!
Trai-me o tempo e a memória!
Espantalho! De mim se afugenta a Vida!
Estou num beco sem saída!
Olho à minha volta
Andam nuvens ilusórias
Folhas mirradas voando
E eu espantada, perdida, solta
Histórias inventando.
Na seara, já no fim
Sou espantalho de afugentar
Já fujo também de mim
E para aqui fico, solitária a olhar!?
Chapéu negro, lenço ao pescoço
Vozes de quem?! Só eu ouço!
Casaca de remendos às cores
Garridas a condizer com as flores!
Pregadas com martelo e prego
As flores que tenho ao peito
Entristecidas não nego
Regadas com lágrimas, neste meu jeito.

Onde está o Sol luminoso?
O outro?! O do tempo verdadeiro?!
Ser espantalho é custoso!
Mas assim sou a tempo inteiro.

natalia nuno
rosafogo

Este poema foi escolhido pela Camara de Coimbra, a fim de figurar num folheto informativo dum evento
sobre uma Exposição de Espantalhos a efectuar em Outubro próximo. Fiquei feliz pela escolha.

terça-feira, 24 de agosto de 2010

NO FUNDO DO TEMPO















NO FUNDO DO TEMPO

Meus poemas são música que ninguém tocou
São débeis sóis de esperança de criança curiosa
São pedrinhas atiradas ao charco que a ninguém molhou
Porque me queixo eu? De que estou ansiosa?!
Tivesse eu outra forma de criação?!
Bailarina talvez, exprimindo-me por gestos
Mas a poesia é o meu mundo o meu chão
Meus poemas são gritos, são manifestos.
Sentimentos, lamentos e esperanças, neste chão verde
A mão que dou, a palavra que deixo o que recebo e me afaga
São água fresca onde mato a minha sede,
Uma força maior que ninguém silencia, nem apaga.
Estão prenhes de utopia por isso me chamam louca
Um dia virá, eles serão o grito, a força da minha voz já rouca.

Calo-me agora, quando o fim está p'ra chegar
Não resta nada, trago os dias cansados
E o medo espreita no fundo do meu olhar.
Cerro memórias que são já frutos frutificados.
Falei do passado acreditei no presente
O futuro calarei, fátuo fogo em que me apago
A vida não passou dum jogo, correu apressadamente
É bola de fogo, alegria efémera é dor que trago.
Meus poemas, são minha existência a escurecer
Numa solidão onde mais nada há a dizer.
Fico tolhida no fundo do tempo a esquecer
Quanto tempo a Vida me tira, sem eu o querer.



rosafogo
natalia nuno