quinta-feira, 7 de julho de 2011

LEVE ARAGEM



Olho as ondas do centeio
Sinto-me cavalo selvagem
Sinto o aroma húmido da terra
O abrasado do sol pelo meio.
À tarde uma leve aragem.
A maciez e frescura,
no meu corpo ardente,
o renascer dum velho desejo
Vem ao meu coração carente.

A felicidade atravessa a minha pele
E me reconcilio com a vida
Mas esta minha inquietação
é fel...
Lá se vai a vida colorida,
o sonho, a juventude, a ilusão.

Da terra sinto a mansidão
Os pensamentos vão-se desenrolando
E me julgo jovem para sempre!
Vou ao encontro do meio dia
Há flores abertas no meu coração
Cheias de seiva e ternura
A luz do sol me acaricia
Até que surja a luz austera
da noite escura.

Pouso os olhos no azul do céu
Já voa o último pássaro na tarde
Fecho os olhos, volto ao mundo que é meu,
Esvoaçando fresca na saudade.

rosafogo
natalia nuno
imagem do blog-imagens para decoupage

quarta-feira, 6 de julho de 2011

MOMENTOS



Tenho saudades daquele riso
que me tornava alegre
e que eu acreditava que seria perene,
quando só existia confiança
e ainda que frágil
me sentia protegida.

Inunda-me o silêncio,
estende-se pelo meu corpo,
penetra nas minhas raízes,
entrança-me as palavras nos lábios,
e estorva-me o ar que respiro.

rosafogo
natalia nuno
imagem do blog-imagens para decoupage

MIRAGEM




Há um momento que parece esperar-me
Ou serei eu que o invento ?
Por tê-lo perdido!
Uma criança a olhar-me...
Sinto-a de perto com um denso odor,
acenando-me,  de olhar caído.
Criança sem tempo nem idade,
olhando-me com amor.

Me desencaminho só de a sentir!
Fatigada por horas de delírio e saudade,
deixo a vida fluir.

Seus olhos vão-se entreabrindo.
cada vez mais longe menos ao alcance,
como se de mim fugindo.
Mas a memória vai-se precipitando,
como ave atravessando o céu,
abrindo e fechando
as portas deste coração meu.

Momento de sempre e de agora
No verde dos olhos o esquecimento
Fecho os olhos vejo-a na obscuridade
Misteriosa, me acena e vai embora!
Mas volta sempre noutro momento.
E eu  pressinto-a sempre,
na minha saudade.

Chega sempre com a  solidão,
também ela flutuando
Até onde me leva a paixão,
deste momento?
Já dela
meu coração está distando.
Na saudade a acalento.

rosafogo
natalia nuno
06/07/2011

segunda-feira, 4 de julho de 2011

LINHA A LINHA



Perscruto as profundezas
do teu olhar
E meu coração muda de lugar
Sem que dê pela mudança,
esquece o tempo, julga-se imortal
Cresce nele a esperança,
É seu destino amar
Assim, é fatal.

Para as tristezas afogar
Vai ocultando a sua dor
Seu murmúrio tem o som do mar
Quem o escuta ouve a voz do amor.

Ouve-lhe os segredos
Sente-o perdido em nevoeiro baço
Escondendo os medos
A vida do avesso
Procura acertar o passo
Ai...como eu o conheço!

Mas deste mal eu padeço
Olhar teus olhos bem fundo
E achar que os não mereço?
Se acaba o chão e o mundo.
Resta-me ainda a lembrança
Neste peito nu é ventura
Quando choro me traz bonança
Passa a dor, torna clara a noite escura.

E neste meu viver singelo
Recordo com natural tristeza
Não quero esquecer o que foi belo
Deixo em palavras de singeleza.
E à vida que eu amo tanto
Tanta vez ela me afronta!
Lhe deixo este meu canto
Na esperança,
que a vida não me interrompa.

rosafogo
natalia nuno       

domingo, 3 de julho de 2011

ESCREVO PARA FUGIR



Não basta, não basta querer
os passos deter!
Sempre mais uma ruga no rosto
Carregada de mágoa infinita
Onde o silêncio tem seu posto
Assim, não nos deixa esquecer
E nos traz este sentimento inquietante
Porque sempre se acredita
Que a morte vem distante.

Escrevo para fugir
Pensando o tempo enganar
De que serve outro caminho seguir
Se a morte acaba por chegar?

Não basta, não basta querer,
fazer contas de cabeça
Que a morte há-de aparecer
Não há nada, nem ninguém que ela esqueça.

Não basta, não basta querer
Também o sol deixa o horizonte
Um dia a morte vai trazer
beco sem regresso, lágrimas que farão a ponte,
o silêncio que indica o fim.
E fará à terra a entrega de mim.

rosafogo
natalia nuno

imagem retirada do blog para decoupage.

ÚLTIMO INSTANTE



Devagar subo a ladeira
Olho os goivos e os malmequeres
Até que Deus queira,
Lá vou subindo o empedrado
Será que ainda me queres
Com a força do abraço apertado?
Ouço o rumor da vegetação
Sinto o frémito do teu abraço
Espero um sinal de ti
Um sim...ou não!
Para te seguir sem cansaço.

Surge um cheiro a maresia
E eu descanso da viagem
Espero a hora, anseio o dia
Para erguer os olhos com coragem.
Já me confunde o vento
E o gotejar da água
Nenhum rumo, nenhum lamento
No teu lugar mora a mágoa.

Ouves os pássaros que não cantam?
E o rasto das nuvens que choram?
Caem gotas na lembrança me desencantam
Minhas mãos postas já não oram!
E assim meu olhar endurece
Meu sorriso é estrela cadente
Faço agora uma última prece
Para que o amor em nós
seja sol nascente.

Já o vento atravessa as folhas
Deixando-as por aí à solta
Meu amor quando me olhas
O amor me trazes de volta.

rosafogo
natalia nuno

MINHAS PISADAS



Formigas trabalham o dia inteiro
Limpando, carregando o celeiro
E eu libelhinha distraída...
Esvoaço, com medo da vida
Que me faça cativa...
Me estenda uma cilada
Me deixe de asas caídas
Ser e não ser... não ser nada!
Minhas palavras emudecidas.

No vaivém do vento
Andam lágrimas em desespero
Ânsia de ter livre o pensamento
E os sonhos? Para que os quero?
Já vou alargando o passo
Descalça sigo em liberdade
A terra vai apagando meu traço
Meus anos se queimaram na saudade.

natalia nuno
rosafogo