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sábado, 23 de fevereiro de 2013

lembranças miúdas VIII


 
 
pequena prosa poética

Movem-se os ramos das árvores numa infinita liberdade, sorriem parecendo humanos, ao lado, aqui ao lado direito da estrada, uma casa abandonada, castigada pelo tempo, porta e janelas escancaradas, no interior crescem arbustos que se debruçam na janela, espreitando o sol, também a chaminé continua erecta, no cimo orgulhosamente duas cegonhas conservam o ninho, aguardando a descendência que chegará breve, já na primavera. Afinal a casa vive! Só os que partiram não viverão jamais...
Ali corre uma ribeirinha, indiferente, corre noite e dia sem respirar, numa corrida perpétua, abandonou a memória dos que nela bebiam sofregamente e agora apenas um falcão ou uma águia real, cortam a distância para beber seu conteúdo que é vida.
Sigo viagem, bem aconchegada, olhando o manto verde que se estende perante meu olhar, onde as pequenas margaridas já espreitam, sonhando abrir logo que o oculto sol reapareça, e eu vou sonhando com as alcachofras, com o céu, com a terra, com o destino dos humanos, e na mente levo a casa e o que no oculto ela esconde...
No regresso volto a avistar tudo de novo e meu coração acelera, a imaginação cresce à minha medida, e no lusco-fusco do entardecer, ouço os passos, as gargalhadas, os choros, e até sinto a fome de pão destas gentes que aqui viveram e morreram. Ali, na tristeza, também as árvores de fruta reclamam ser tratadas, ainda assim não se negando a florir.
E daqui a pouco a lua que tudo observou, está aí, com ar triunfador, pois só ela resiste...
esgotei a palavra, não consigo ordenar a desordem do pensamento, fecha-se o meu ângulo de visão, embebeda-se minha memória, já me perco entre vivos e mortos, como planta de caule frágil que aguarda erguer-se e sorver a vida... neste tempo levo assim... saudades de mim.

natalia nuno
rosafogo
imag.net

2 comentários:

PÈTALA disse...

Olá Natália
A propósito das tuas lembranças.
A luz brilhava em todas as direções. Tudo que mexia era motivo de interrogações. As brincadeiras sucediam-se aos turbilhões. Cada uma pior que a outra. A traquinice corria-me nas veias como água corredia das ribeiras. Ao longo do ano, os campos tinham (tem) várias tonalidades, deste norte quase sempre verdejante. As flores campestres onde fazia colares e que ainda muito menino já oferecia às raparigas que já nessa altura eram “as meninas dos meus olhos!” Quem cresceu no campo nunca esquece os milhentos odores tao característicos de tudo que nos rodeia. Todos os jogos tao peculiares que só quem cresceu neste ambiente é capaz de compreender! Já mais crescido, a recitar poesia junto ao rio para a natureza sem que mais ninguém ouvisse! Momentos únicos que permanecerão para sempre na memória! Como é bom preservar a criança que existe em mim!
Beijo
João

Natalia Nuno disse...

Como é bom preservarmos a criança em nós João...as semelhanças do que descreves são inacreditáveis, eu lendo-te e a pensar mas isto parece escrito por mim, é como dizes nada se compara à infância passada na aldeia que não se esquece nunca.Obrigada por este momento que senti como meu.

Beijo João, bom domingo.