segunda-feira, 26 de agosto de 2024

odor a dia distante...



coisas que penso a sós
lembranças que m' ajudam a viver
olho minhas mãos mortas
e nelas os nós
e a dor da saudade, que saudade
me vem trazer

gestos caídos no vazio
a vida dura, que ainda dura
partiram os sonhos, secou o rio

palavras cegas, obstinadas,
quebradas
delírios, desilusões, visões,
espelhos esquecidos de mim
mas o coração não se rende
vai até ao fim

não decifro meu semblante
nem a mão que escrevia
um pouco de odor a dia distante
o que resta  no dia a dia

vou caindo no desconhecido
perdida e só...
num labirinto de memórias
engastada na obscuridade
e diante do nada na garganta
o nó,
surge em mim a saudade.

natalia nuno
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sexta-feira, 23 de agosto de 2024

todo o verdor seca...



deparo-me com o que já foi
e é então que a saudade dói
o poema, é caixinha de lembrança
sempre que a saudade me assalta
eu recordo-me criança,
solta como balão
com riso de gargalhada
sedento riacho de verão
descobrindo o mundo
na ânsia que despertava

livre estreei o mundo
e nele um melro cantava.

na palma da minha mão meu reino 
um jardim
enquanto cuidava dele
esquecia de mim,
escrevia todos os dias, as palavras 
eram voos, onde a luz se estendia

engendrava meu caminho
tudo rodopiava como sonhava

com a chuva foram-se os sonhos
côr de rosa
da flor que era, a corola ficou despida
e o aroma dessa flor generosa
foi ficando sem vida

todo o verdor seca
hoje é planície que asfixia
com uma dor surda que silencia.

natália nuno
imagem pintarest

quinta-feira, 22 de agosto de 2024

palavras...do meu amigo da Clara Dias

 


PALAVRAS

*nada procuro nem espero
apenas umas palavras por dizer*
in  "desespero" de Natalia.C. Nuno

*****
Sei que não basta um rio de palavras correntes,
um lençol plácido de letras alinhadas,
uma caterva de ideias polivalentes
para construir um poema de pequenos nadas

Sei e( antes soubesse o que não quero)
que todas as palavras têm o seu mister
e "se nada procuro nem espero"
tenho ainda "umas palavras por dizer"

são curtas, breves, sem cerimónia
despojadas de brilhos ou fantasias
para dizerem tudo o que tenho para dizer

Escolhidas num alfarrábio com parcimónia
juntei-as junto ao peito todos os dias
para as sentir vivas enquanto puder

22.08.2024
da Clara Dias
sentir vivas as palavras, é sentir-me viva!
É esse o meu desejo. Obrigada ao amigo.

quarta-feira, 21 de agosto de 2024

desespero...


aperta-se o quarto contra
meu peito, cresce o silêncio,
há uma luz que se aproxima
ao mesmo tempo se evade
surge a recordação
permanece a saudade

afundam-se os dias
rápida passagem
e num breve instante
chega ao fim a viagem

trago as palavras num espaço
fechado
e o pensamento despojado
sem tempo para a felicidade
a noite atravessa-me,
e é ferida aberta a saudade

o vento esvoaça a cortina
escrevo com hesitação
esta saudade repentina
que de longínqua distância
me chega ao coração

nada procuro nem espero
apenas umas palavras por dizer
se tudo muda eu desespero
ante o nada do papel, 
será que tenho tempo para as escrever?

 natalia nuno
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quinta-feira, 15 de agosto de 2024

lamento...



o vento hoje marca a diferença
lá fora
e ao meu pensamento
só a saudade não demora,
ao ouvir este meu lamento

que grande é a ventania
bate nas águas do esquecimento
como música ferida,
que chegou à minha vida

nem sempre os dias são coloridos
nem sempre de bem estar
com a vida,
sempre uma briga dentro
e nada se harmoniza
tudo se destempera,
num sorriso derramado
foi-se a primavera

já nem sou prisioneira
sou simplicidade e saudade
assim, até que Deus queira.

natalia nuno
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o peso dos dias...

o silêncio inunda a tarde
enche-me os olhos e a memória
de emoções do caminho
da vida que nasceu para arder
e ainda arde

solidária a saudade, 
sempre retorna a lembrar-me
quando o amor era inteiro
e os corpos se amavam
era a felicidade...

podia o mundo inteiro 
extinguir-se
pararem de cantar os pássaros e
as águas das fontes secarem
que o amor voltava a repetir-se



viajantes as nuvens sorriam
a brisa era música e nostalgia
- tantas as ausências tuas!
saudade era mar que em mim
bramia.

esta melancolia no peito
faz parte do meu mar
ando à deriva, não vou calar
com sorte talvez sobreviva
só quero aliviar
o peso dos dias.

domingo, 11 de agosto de 2024

tínhamos sonhos de prata...



e a conversa ficava mais viva
quando falávamos do passado
tínhamos sonhos de prata
eu e tu sempre lado a lado

um doce  cansaço nos reconciliava
com a vida
a claridade despertava no nosso olhar
era viva a ternura
hoje trazemos a saudade no coração
a morar

nestas horas aprofundadas
pelas recordações
vive o amor
ainda que viva de ilusões

ante a ventura que é recordar
esquecemos o que ao lado passa
e num instante puro nosso olhar
faz-se mar...

vivíamos no êxtase
como se fossemos eternos
de repente passados tantos invernos,
a vida aponta-nos um porto
que já não existe
mas, o sonho persiste.

natalia nuno
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