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quinta-feira, 4 de julho de 2013

as mulheres de então...




posso ainda ouvir o dobrar do sino
e o silêncio das mulheres
que rezam... ao divino,
pelas sombras da sua vida
que só Ele pode iluminar
a sede e a fome mitigar.
no céu resiste a estrela
avistada pelos magos
e na tigela restam do
arroz já poucos bagos.

a vida
repetida
a fragilidade a resistir
e o sino ecoa
à mesma hora todos os dias
a persistir,
chamando à reza... que Deus não perdoa.
assim se vive contente
no meio da tristeza
na certeza
permanente,
que não vai mudar nunca.

eram as mulheres da minha aldeia
sempre adultas na idade
sempre de barriga cheia
filhos eram a novidade.

sucedem-se os dias sem suspeitar
que pouco mais dela sobra,
assim passa a vida
enquanto o tempo dobra e desdobra.
mais tarde fortaleza esquecida
esmorecida, cansada,
afinal pouco mais que nada.

Ave à sua sorte abandonada...

natalia nuno
rosafogo

poema dedicado às mulheres da geração anterior à minha.

5 comentários:

manuel marques Arroz disse...

O pai nosso do antigamente.Lindo.

Beijo.

PÈTALA disse...

Olá Natália

As mulheres merecem todos os poemas! E todos nunca serão demais!

As mulheres foram e serão sempre um hino á vida! Heroínas vezes sem conta! As mulheres doutrora carregaram pesados fardos, alguns pesados demais para as suas débeis forças! Grande parte delas para além de parir os filhos, de cuidarem deles, ainda tinha que esgravatar o seu sustento e o dos seus! Aos homens tudo era permitido, inclusivamente os maus tratos continuados! Mas grande parte das mulheres não tinham alternativa, o casamento era a única porta para saírem de casa, mas era demasiadas vezes, um pesado calvário! Isto não só na lavoura, mas também mais tarde aquando do aparecimento da industria. Os homens tinham o passatempo das tabernas onde as bebedeiras eram o pão nosso de cada dia, aí gastavam o dinheiro que tanta falta fazia em casa!

Mas não se pense que os homens desarmaram dos seus propósitos de maltratarem as mulheres, muito longe disso! Hoje os requintes de malvadez são muito mais sofisticados, e as mazelas em termos de saúde física e psicológica são ainda muito graves. Chegando até inclusivamente a cada vez mais homicídios!

Mesmo no tempo presente sou confidente de casos arrepiantes em relação a homens do campo. Num dos casos tentei por variadas vezes que a mulher apresentasse queixa na polícia. Recusou sempre com o medo que o homem a matasse. Acabei por lhe perder o rasto. Basta dizer que essa mulher tomava a pílula mas sempre escondida, já que o homem não tolerava que a tomasse! Para além de lhe bater, obrigava-a a ter relações sexuais diárias! Quer, ela pudesse, ou não! Um animal, mas irracional! Muitas outras barbaridades poderiam ser contadas, mas este exemplo é bem elucidativo daquilo que algumas mulheres nos dias de hoje ainda sofrem!

As mulheres de então (como as de hoje) são merecedoras e credoras de todo o nosso carinho respeito e admiração.

Beijo

João

Ronilda David Loubah Sofia disse...

Saudades que sentia de ler-te as divinas escritas do teu coração Poetisa Natalia.

E sempre,sempre para mim é um enlevo e uma inspiração, um sopro acariciante de beleza e ternura.

Sim nós as mulheres que sabem como ninguem carregar,suportar e administrar nossas proprias dores e delas encontrar uma razão para termos forças.

Grata por tão diamantina partilha.

Abraço-te com imenso carinho com votos de que tenhas uma semana abençoada.

Helder Gonçalves disse...

Eis aqui o testemunho da minha primeira visita. Para que conste fiquei altamente bem impressionado com a qualidade do poema "As mulheres de então". É um hino à capacidade de sofrimento da mulher,na sua rotina de uma vida sem glória,num contexto de uma sociedade bacoca, numa época, cinzenta, vazia, em que ela representava acima de tudo um objeto parideiro a girar em segundo plano, naquela fórmula aglotinadora "DEUS PÁTRIA E FAMÍLIA"
Gostei de ler-te
Hélder Gonçalves

Natalia Nuno disse...

Obrigada a todos pela visita e belíssimos comentários dos quais me orgulho, embora saiba que sou simples no escrever, agradeço com o coração todo o apreço e carinho aqui deixado por vós Poetas amigos...bem hajam...

Um beijo com amizade