sábado, 4 de abril de 2026

medo...

 

o peito é um mar sombrio, quando a noite surge enferma sem estrelas...as ondas em movimento brusco, vão em grande tumulto desbravando os meus sonhos de náufraga... a cada dia mais inalcançáveis até me deixarem obscuramente no esquecimento...é este o medo que sobe os muros por detrás de cada sombra...
natalia nuno
imagem pinterest

miragem...



uma miragem branca passa pela mente, e esta vai macerando o esquecimento, mas nas sombras dos teus olhos, consigo ver com os meus, que o amor é mais forte e tenaz que a confusão e o caos que às vezes quer apoderar-se do pensamento e apagar o odor a madressilva, o mel quente e o prazer que ainda nos atravessa...no oásis da memória continuam os sonhos como milagre, numa claridade distinta onde permaneces e eu continuo a amar-te...não fugiram de mim recordações que são astros vermelhos de verão a morar no meu coração.

natalia nuno

imagem pinterest

Gota d´água...



Será luz a nova flor que se abre?

 Permanece o silêncio... talvez só uma comovida flor que o orvalho resolveu golpear, num prazer desperto de levar para longe a semente, com a promessa de fazer tremer a gota de água que a fará germinar...se te amo, é porque deixas o teu perfume a cerejas silvestres! Dá-me a tua promessa, acende meu arco-íris de prazer antes que enferruje a minha esperança e as palavras me resvalem na garganta...como um tíbio raio de sol, onde a claridade já estremece.

natalianuno
imagem pinterest

quarta-feira, 1 de abril de 2026

calam-se os rouxinóis...



cai-me na alma uma neblina
memórias de dias distantes
procuro em vão amainar
- o coração,
caminhante entre caminhantes
na esperança que outros dias virão.

as flores abriram
as saudades surgiram

quanto por um dia eu daria
pelo próximo passo
pelo próximo abraço
e, dói, porque tudo se foi

todos os dias o vento da
saudade
em memórias me deixa afogada
relembro com ansiedade

dos olhos cai uma lágrima errante
de súbita nostalgia
de quem se atreveu a viver
num sonho de mais um dia.

natalianuno
imagem pinterest




sexta-feira, 27 de março de 2026

encosto a saudade ao peito...



este meu voltar atrás,
a olhar o florir dos cardos
a ouvir a música nos prados
quando não anoiteceu ainda
faz com que as lágrimas
me visitem,
e, me deixe a pensar
entre a saudade e a solidão

com espanto no meu coração.
e a delicadeza das palavras
que deixo no ar
vou acolhendo poemas como uma criança
que acaba de acordar...

natalia nuno
imagem pinterest

e lá vou eu...



procuro sempre uma palavra que me ensine
estendo-lhe a mão e sigo na sombra
dum sonho inacabado, que me anime

meus dias, transformam-se em grandes
lezírias onde os pássaros
largam sorrisos
no aroma frondoso das árvores,
louca com o aroma dos narcisos
busco vida
e prendo-a à Poesia

talvez seja tudo uma ilusão
mas fica feliz meu coração
e assim passa mais um dia!

natalia nuno
imagem pinterest

minha paz...



há um lilás branco que me olha
e lembra-me que as rosas mesmo que solitárias
espalham seus odores com ternura
ainda que o tempo me enrugue o coração
e me vá tirando o chão
levo na bagagem um sonho interminável
de que a paz seja meu tecto...

natalia nuno

poema a mais um dia...

cumpriu-se mais um dia
onde houve morte e dor
mas, a esperança, a coragem persistem
vamos supor:


que os sonhos que não vêm, hão-de vir
e vão fazer-nos sentir
que «vale sempre a pena se a alma não é
pequena»
depois diremos sorrindo
os escolhos passaram, a vida está indo
alegres, beijaremos campos de trigo
abraçaremos o amigo
até o pó da estrada
desta nossa Terra tão amada

com este sentimento de esperança
que o mundo volte a ser sereno
e no brilho do olhar da criança
que a paz volte e faça aceno

natalia nuno
imagem pinterest


terça-feira, 24 de março de 2026

foi tenaz o amor...




do olhar até ao fervor da alma,
a lembrança do amor e sua quimera
aromas de fogo que já embaciam,
já de mim me esqueço
e aos que tanto me queriam!

o tempo vai macerando o esquecimento
que sofre por esquecer-se,
é esta a dor que  sinto
no peito a debater-se,

olho para trás e te pressinto.
foi tenaz nosso amor, 
com instantes de ternura entregue
fogo felino que ainda me segue,

fogem de mim lembranças
e tudo é já confusão
foste unicamente esse beijo que trago
como recordação?
ou o redobrado amor que ainda sinto
presente no coração?!

permaneço pensativa e certa
que no oásis da minha memória
serás sempre a fonte dos sonhos
risonhos na minha solidão.

natalia nuno
rosafogo













a noite e o vazio...

os anos já perdidos
os olhos envelhecidos
e uma esperança cega
a vida ao meu redor
com tanto esplendor
e a morte, tarda nada
me pega.

um raio outonal que veio
e o desejo ainda me tenta
e o sonho de permeio
último engano que a vida
atenta.

foi porque precisei
unir palavras,
- um dia belo fazer delas,
e nesta lenta despedida, pensei,
abrir da alma, e do coração
todas as janelas.

natalia nuno
imagem pinterest

sonhando com vôo...



caem folhas ao chão 

este instante se apaga, ficam meus sentidos entorpecidos minha noite, em inquietação se alaga

foram-se os júbilos primaveris meus sonhos são ramos partidos que o vento levou para onde quis

as folhas caídas tão frágeis quanto eu, no chão adormecidas, na noite de breu,

e eu, sonhando com o voo, minhas mãos estendidas são  folhas que tempo secou...

 natalia nuno

imagem pinterest

registos da memória...



olho a paisagem
as ramas falam entre si
com linguagem 
que ninguém conhece
às vezes sofrem de abulia

em dias de calmaria
lenta é a visão
quando o vento aparece
o coração estremece

pálido fica o jasmim
as folhas em motim
tudo vive por aqui
só a morte não nos ignora
a mim e a ti

firme o firmamento,
nele a memória dos olhos
e ao pensamento
um doce queixume

e do ciclo o fim
o tempo castiga
- em profundidade
a ti a a mim,

e logo a saudade!


natalia nuno
imagem pinterest

sexta-feira, 20 de março de 2026

imagens vivas...



- quem experimenta um tal amor pelo lugar onde nasceu, sente-se duplicado em tudo, é um amor perfeito que nos inspira e é como uma dádiva benfazeja, as lembranças são colheradas de açúcar que adoçam o coração, ainda vejo a vela acesa na lareira e as feições da mãe na penumbra, embora com alguma dificuldade, mas ainda assim fico plena de júbilo e alimento a minha alma... a minha musa é a natureza, a minha força e pensamento e a memória não dorme...a inocência. o sorriso a gargalhada, a liberdade o alvoroço, imagens vivas que pulsam tal como meu coração.

-crescem dentro de mim árvores, numa longa avenida onde me perco e me encontro, onde me inquieto, onde me comovo, sorrio e sonho, esquecendo a dificuldade da descida...dou guarida às aves, deixo esvoaçar as borboletas, ouço os delírios dos ventos nas flores, ancoram em mim as estrelas, meus olhos bravos olham o vermelho dos cravos, existirei na essência de todas as coisas? crescem as begónias no jardim interior, as tempestades serenam e eu subo ao céu...apenas assim! num vôo de gaivota, leveza de mim.

natalia nuno

imagem pinterest

então vive Mulher...



a chuva intensa alaga a vidraça e tamborila insistentemente no telhado, e ela, alinhavando pormenores que não cessam na mente... fixa o olhar na fotografia em frente, e surpreendida, deixa-se entristecida, às vezes revolta-se, privada de esperança então, o deslumbramento pela vida mistura-se com o medo de a perder...muitas e estranhas são as vicissitudes, escreve palavras afastadas de si no tempo, separada pela vida inteira vai querendo abarcar apenas o dia a dia com inegável doçura, traz consigo uma chama interior terna e abrasante, quente e às vezes lancinante, mas nada a aflige nestes momentos de lassidão...depois, bem... depois conserta as palavras e seca nelas as lágrimas, diz de si para si: o coração ainda a bater, mora nele a vida... então vive Mulher.


natalia nuno

imagem pinterest

quinta-feira, 19 de março de 2026

sem nome e sem destino...



minhas mãos hoje estão enroladas
como flores que deixaram de florir
não aquecem nem arrefecem
nem obedecem à minha voz
que se faz ouvir

já estranham o que escrevem
nem eu sei que dizer
fico de coração a bater
e elas paradas sem saber
se devem ou não devem

neste emaranhado de pensamentos
fala-me a criança em mim
e por esta razão escrevo com doçura
e falo da saudade, dos pedaços de ventura
ainda que ninguém me queira ouvir
falo, até à loucura, 
até alheia a tudo vou voltar a sorrir

mas hoje falo das mãos
que rasgam meu coração,
empurro-as para a intemporalidade
para que viva a poesia da saudade
sem nome e sem destino.

natalia nuno
rosafogo
imagem pinterest



da aldeia moça saí...




trago a mente abalada
como folha amarelada
caída da folhagem
de outono, morta,
lá fora cai a chuva à minha porta
cá dentro eu a suspirar, e um ai
de melancolia me sai.

da aldeia moça saí
e a olhar atrás, nem me atrevi,
do olhar um arco-ires me fugiu
jamais o sol me aqueceu
levei os becos, a ponte e o rio
passou por mim arrepio
o silêncio na carne e a alma doeu

pus no bolso as lembranças
e nunca me refiz da partida
ainda ontem éramos crianças,
hoje já fazíamo-nos à vida

matava-me a nostalgia
os poemas eram grito de pavor
rasgava as entranhas dia a dia
enlouquecido ferimento
por não saber esquecer
a quem tinha tanto amor

a saudade durou uma eternidade
da voz do rio correndo,
do sol a flutuar no azul do céu
e, meu pensamento entontecendo
por deixar tudo que era meu

memórias que ainda existem
e das quais não me liberto
nunca teria sido poeta
se não as tivesse por perto
nas noites desarrumadas
vivo de lembranças atadas
com a poesia comigo

natalia nuno
rosafogo







quarta-feira, 18 de março de 2026

não sei por quanto tempo...

 


não sei por quanto tempo seguirei esta sucessão de instantes, ainda que o meu coração vá batendo, e assim, o corpo obedeça, aqui pertenço por enquanto ao mundo dos vivos, resta-me um pouco de felicidade, todas as manhãs sinto-me como ave que regressa de longe e encontra poiso na doce geografia do ano anterior, deixo adormecer algumas memórias vou ainda com alguma força, fazendo com que a luz que me segue tenha alguma brilho... embora já não seja como antes para mim, o tacto das flores, o riso das águas, nem o voo belo dos pássaros...trago as minhas pouco apuradas palavras tão perdidas na minha imobilidade, que a nostalgia já me está chegando no turvo silêncio da tarde.

nnuno

imagem pinterest

sede de abraços...



 olho de novo o céu de nuvens cinzentas, seus pensamentos ledos e tristes vagueiam perdidos, a ternura que me percorre é como a frescura da manhã, caminho solitária e seus passos são lentos como o gotejar da mais íntima fonte, nos olhos molhados trago a saudade, mas no coração, sempre a mesma sede de abraços...meu sorriso de murta e jasmim vai-se abrindo almejando seu desejo de horizontes, já fui esbelta e harmoniosa e hoje me surpreendo, o tempo a deixou de fulguração despida, cansada, mas grata à vida por  deixar-me envelhecer aguardo a noite que me traz sempre um sigiloso fogo d'alguma felicidade... ouço de novo o beber das palavras pela folha de papel, e uma luz fugidia desliza sobre o tecto dos meus pensamentos, aproxima-se e evade-se é a recordação a querer fugir-me, o peito aperta-se e eu permaneço imóvel no silêncio de destroçados muros, permaneço na espera que se abram clareiras e possa ser de novo flor imprevisível nascida das águas, ser sede, ser fragrância e de novo fogo e ternura para que possa inventar sonhos e ter tempo ainda de felicidade...quererei deixar pegadas na areia e se o vento as arrasar, sentir-me-ei cada vez mais indefesa, apagar-se-à sobre mim mesma, será o final sulcado pela morte...

natalia nuno

imagem pinterest

sonho perdido...

 


é o passado que se desenha na aura deste pensamento em vôo nas minhas mãos... enquanto os meus olhos riem, treme a água no açude e eu criança, com um tremor de asas no sangue...no reino da minha infância, o silêncio e o vento rondando nas ramas, e o chilreio lânguido do pássaro, ignoro quem voa melhor se ele, se eu... juntos pelo acaso deste sonho meu... e o clamor da minha existência vai-se apagando num outono de recordações, a idade avança sob a oculta hipocrisia de que amanhã será melhor, enquanto vou caindo como folha moribunda numa tarde declinante de inverno hostil...porque há muito foi primavera resplandecente, em plenitude... esse tempo que recordo amiúde, como um sonho perdido para sempre.

natalia nuno

imagem pinterest

a côr do outono...

 


hoje não ouvi o pintassilgo, talvez porque o ramo verde onde costuma pousar se encontra nu, não houve acordes de violino, e nem a minha mão indigente e cansada quis escrever palavras macias no poema onde eu pudesse o sol emoldurar... mesmo com a coragem a desabar... retrai a mim o silêncio e o coração descompassou, minha voz voltou à mudez, também eu perdi o ramo, irreparável descuido de meus olhos sombrios, entre a folha de papel e eu... poema feito ao acaso, muito breve e muito raso, com memórias cheirando a alecrim, pedindo que não esqueças de mim...quase... o tempo outra vez de ternura, fecho os olhos e logo a nostalgia a fazer doer! - - com a cor do outono e a maldição do tempo a passar, como eu precisava ouvir agora o pintassilgo tocando os acordes de violino para o coração ressuscitar... e tu, ousasses vir de novo me abraçar... enquanto meu olhar se perde no ramo que era verde...

natalia nuno

imagem pinterest


no silêncio...

 


no silêncio esmagador que oprime, de repente uma ave que cante numa árvore frondosa, uma rosa que abra, o bulício das abelhas ao redor, é sentir uma vontade de viver, deixar-se a fantasiar o resto do tempo, esquecer o vento da descrença, seguir em liberdade, sem o mínimo descuido, que o tempo apouca e corre como um rio fluido, nutrir cada dia com amor e mel como se fosse o último...esquecer a solidão dormente, rir com riso de medronho e continuar no sonho, nunca é sonhar em vão se ao acordar sentir bater, este velho coração...

será luz a nova flor que se abre? permanece o silêncio... talvez só uma comovida flor que o orvalho resolveu golpear, num prazer desperto de levar para longe a semente, com a promessa de fazer tremer a gota de água que a fará germinar...se te amo, é porque deixas o teu perfume a cerejas silvestres! dá-me a tua promessa, acende meu arco-íris de prazer antes que enferruje a minha esperança e as palavras me resvalem na garganta...como um tíbio raio de sol, onde a claridade já estremece.

nataliannuno

imagem pinterest

perdeu tudo...



perdeu tudo, sobra-lhe o nome, perdeu a desenvoltura, a passada, perdeu a vontade ficou sem nada, resta-lhe o nome... o tempo parou, o jogo acabou, como era antes, em tempos distantes?! havia em si todo um caminho toda uma vida e tem agora um beco sem saída...resta-lhe o nome, a vida é viver apenas, reconhece-se em lembranças serenas, passa a vida enviesada ora no passado ora no presente, ou é pedra pesada ou a traz contente...resta-lhe o nome, algumas ideias na cabeça, já nada acaba, mas tudo começa, a solidão é sua condição, mas que importa se o sonho ainda lhe bate à porta? resta-lhe o nome e a terra fria que a espera, há dias e dias em que desespera, recorda o passado como um livro lido, que lhe deixa no olhar um brilho incontido...

natalia nuno


pedaços soltos...



deixa-me o sabor da tua boca, acaricia meu rosto fatigado na tarde lenta em que as minhas mãos tecem palavras de loucura, como se rezassem!...olha-me com espanto, como se eu continuasse a ser o teu encanto, nua ou vestida percorre a minha pele, poro a poro, afunda-me no teu peito com aquele jeito, com que eu sempre coro...não me deixes neste silêncio estranho, ou no vendaval onde me dobro para não quebrar, o tempo cruzou-se comigo nestas longas caminhadas pejadas de partidas e chegadas, deixou sinais que não posso esquecer e restos de esperanças que quero reter...há lembranças que se vão desvanecendo tal como a tarde, percorre-me o sonho na claridade do teu olhar, onde a felicidade e a ternura são canção de embalar...os meus dedos de menina escrevem umas linhas de amor, e nas tuas mãos, esconde-se a lua vestida a rigor...


natalia nuno

a carência de ti...

 


a carência de ti não me abandona, invento tempo de felicidade... meus olhos abertos pelo fogo da ternura voltam a embebedar-se de alegria num beber lento e doce, e a memória volta àquele momento distante quando comecei a desejar-te...de repente há um aroma que me recorda o que ficou para trás, e as minhas palavras são as sombras onde me encontro perdida, lá onde a dor é mais forte e me deixa sem norte, sou agora a velhice e ao mesmo tempo a juventude, grito a dor num poema invisível que declamo amiúde, e num golpe de garra saio do silêncio dos versos e continuo a pulsar com uma força que não aceita derrube...e o amor é um agasalho que me cobre e me põe a sonhar...caio assim neste abandono de doçura vestida, adormecida na minha derradeira saudade.


natalia nuno

imagem pinterest

miragem...

 



uma miragem branca passa pela mente, e esta vai macerando o esquecimento, mas nas sombras dos teus olhos, consigo ver com os meus, que o amor é mais forte e tenaz que a confusão e o caos que às vezes quer apoderar-se do pensamento e apagar o odor a madressilva, o mel quente e o prazer que ainda nos atravessa...no oásis da memória continuam os sonhos como milagre, numa claridade distinta onde permaneces e eu continuo a amar-te...não fugiram de mim recordações que são astros vermelhos de verão a morar no meu coração 

- as acácias encheram-se de flor no interior da minha fantasia, baralharam-me os sonos e os sonhos, deixaram-me nesta lenta solidão, com os olhos adormecidos, e a negarem-me as asas de adolescente que me levam sempre à lembrança, mesmo que a memória demore...as acácias, trazem o perfume ao meu beijo, quando tenho o coração apertado, o tempo me barra o caminho e, me prende o corpo à negação... acelero meus olhos, mora em mim um vento quente e vou admiradamente longe, onde só as acácias têm cheiros de auroras, vindos pelos ventos até meus pensamentos...onde tu moras!

natalia nuno

imagem pinterest

terça-feira, 17 de março de 2026

céu da minha janela...




hoje o sol que mal avisto, olha-me com seu olho negro por detrás das nuvens, deixando-me a sensação de me deixar de vez...golpeada por uma luz cinzenta, a vida é cada vez mais depressa lavareda sufocante, que me queima os sentidos, até que tudo se distancia da memória, desvanecidas as lembranças, fico ouvindo o vento e contemplo a chuva que corrompe a esperança, e o frio nebuloso traz-me o tremor como se fosse a última folha caída da tarde, e impede a alquimia da minha mente, de voltar às lembranças...

natalia nuno

imagem pinterest

sexta-feira, 13 de março de 2026

lá onde abandonei a inocência...




no norte das minhas palavras abandonei a inocência, lá onde tudo era sonho, onde era seara e girassol, onde lavrava a alegria, onde havia lufadas de sol onde via regressar as papoilas vermelhas e os pássaros construíam ninhos nos beirais dos telhados...as estrelas vazaram, e trago agora os olhos molhados...fico a secar os olhos embaciada de emoção, sigo por entre a maresia à minha procura, porque me dói não saber quem sou, nem onde estou, não me reconheço e sempre que a mim regresso há um desajuste entre o sonho e a realidade, parto com velocidade... que mal fiz eu...quem secou a flor em mim?! de trigo eu era...hoje sou girassol que morreu, assim morreu-me também o tempo...sou pássaro no escuro à procura dum pouco de primavera... sigo caminho com o afago do vento não me deixo entristecer, não quero mais palavras, que já nada têm para me dizer...

natalia nuno

imagem pinterest

quinta-feira, 12 de março de 2026

quando a alegria se aposenta...



- recordo o  tempo que foi
e o que me resta
nas rugas do rosto, 
que a nostalgia lhe empresta

há um caminho que me escapa
uma sombra a rodear-me
uma esperada sentença
que passa os dias a esperar-me

uma melancolia cinzenta
quando a alegria se aposenta,
um muro embaciado que cresce
na desmemória enegrecida
p'la humidade,
- num muro escuro,

mas ser-se humilde é aceitar
a vida.

a felicidade é uma árvore 
de raízes fortes, tenaz
e a saudade recolhe-se num coração
- em paz!

desfraldo minhas palavras em cristais
de orvalho
e, é delas que me valho.
gosto da nudez da brisa e do azul
desta estação,
e da luz do sol que é perfeição!
atinge-me com sua ardente energia
e assim soletro a chegada 
de mais um d.i.a.

natalia nuno
imagem pinterest

sábado, 7 de março de 2026

pura magia...



o sorriso voltou-lhe os lábios e depressa se desvaneceu, dissimilou os pensamentos, porém, vai assimilando as voltas que a vida deu... embrenhada na natureza, senta-se numa pedra junto ao rio com a pureza própria duma criança, e vai pacificando as emoções até aquietar o coração... da solidão nasce o silêncio, e como por magia volta a sonhar e a manter viva a esperança, tem pensamentos líricos que viajam na corrente, são agora os olhos que sorriem e volta a sentir-se gente, cada paisagem, cada rosto, é alento do seu dia, e no rasto do silêncio vai crescendo um lago onde um cisne branco se espaneja na memória, deixando promessas de criar do nada poemas de paixão, procura nos caminhos do vento ou nas paredes prateadas da lua a inspiração, sonha em cada linha e caminha indiferente à solidão ... 


natalia nuno

imagem pinterest

nas asas do sonho...


no sonho ali morava
via-me diante dum jardim
escrevia, escutava e salvava
tudo que via, com saudade
aos meus olhos o alecrim
como se fosse milagre
que me fazia crer que o Mundo
não era tão mau assim

ali morava eu sem idade
diante dum jardim abstracto
e escrevia, escrevia a saudade
da juventude que olhava num retrato
decifrava na bruma do sonho
o seu significado, tudo tão disperso
e eu como se fosse "meio-dia"
louca, 
escrevia mais um verso!

mas a "noite", já me apanhara,
hoje sou simplicidade sem nome
a noite meu corpo alcançara
com fúria de quem tem fome!
mas o poema salva quem o escuta
serve de alívio ou serve para nada,
e para quem o escreve é uma luta
de nem saber se é sonho 
ou estará acordada...

natalia nuno
imagem pinterest




quinta-feira, 5 de março de 2026

apelo á memória...


estendo pontes à vida
vou ressuscitando a felicidade
- o amor, e a saudade
apelando à memória a lembrança
do fascínio da infância querida
até ao esgotamento

há dias em que tudo é esquecimento
dias impiedosos do destino
falo então com as estrelas,
quão me sinto próxima de

las
deixei-lhes meu pensamento,
fico entre o transe de ser
e não ser
e as memórias voltam com o vento

balanceiam os loureiros
à beira rio da minha memória
e a nostalgia irradia 
- a alma das coisas sussurra-me
palavras que já não alcanço
já quase não recordo o instante
avanço,
- apesar do entardecer.

natalia nuno
imagem do pinterest








 

segunda-feira, 2 de março de 2026

coisas de Poeta...



quando é evidente a solidão
nem levo a sério se dizes que me amas
o eco da tua voz fica na noite
que desce sobre mim...

faz fronteira com o inverno
- que me envolve
mas traz-me uma fugaz esperança
- ao coração

que obstinado, ainda te quer ouvir.

natalia nuno
imagem pinterest



sempre a solidão...



a solidão, é loucura da mente
fica-se de peito aberto ao que vier
e os desejos que a alma sente, 
o tempo acomoda,
e o corpo 
que é flor bravia,
ama sempre que puder

o amor ilumina o mundo
e serena o coração
às vezes dói bem fundo
quando desespera de paixão,

logo se abrem cicatrizes e
esfria o coração, a alma perdida
presos à recordação
- de dias felizes,
continua a vida... suspensa na ilusão!

natalia nuno
imagem pinterest

dia solarengo em mim...

brindo à vida nesta manhã,

de certo modo aprazível,

cruzam-se pássaros na memória,

 ouço o vento por entre as árvores, 

nem tudo está perdido, percorri, 

caminhei, voltei

- a recordar a vida e a distância,

com a ternura deste inverno,

que brota vida à minha volta...

 

natália nuno
imagem pinterest

vendaval...



 - no rosto a indolência da bruma
o sonho em chama a surpreende
a saudade, já de coisa nenhuma 
vendaval que ninguém entende


do tempo traz nela a voracidade
entre os lábios a quente lavareda
os desejos transbordam de saudade
no olhar tristeza que ninguém arreda.

natalia nuno

(para que não se perca 2006)
imagem pinterest

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

é noite no coração...



embacia o poente
faz-se a despedida silenciosa 
do dia
meus olhos apagam-se
numa difusa recordação
é noite no coração

recolho em mim a sombra
dum tempo,
um mar atormentado que cresceu
humana inquietude, que Deus
me deu!

o tempo vai levando o sentido
o fim da palavra vou ter que aceitar
e depois de ter emudecido
nem sei se arranhadas memórias
serei capaz de ressuscitar

como areia pelo mar engolida
vão-se as lembranças no frio
dum destino obscurecido,
que vida, que rio, que escrita
sem sentido...

desvela-se a realidade
sem piedade
sento quão próximo a sombra
já me olha, e o olhar
se molha

como posso sobreviver
- à sua avareza?
luto sem trégua, 
e atormentada incerteza.

natalia nuno
imagem pinterest
 

sábado, 21 de fevereiro de 2026

audácia de sonhar...



quando o vento levanta a voz 
num canto quezilento,
bate o coração apressadamente
fica o céu cinzento.
a bruma sempre presente
os mares fustigados
silêncios demorados
na memória e na pena
e a terra ferida...

um relógio sem ponteiros
marca a falta de paz na terra
que ora sofre de tempestade
e outros males como a guerra
nem sequer o amor basta
nem a poesia floresce
para adoçar o vazio,
a lágrima solitária cresce
e a terra é humilde abrigo
com paciência se espera
letras para poder esquecer
que a felicidade tão esquiva
venha enfim nos oferecer

vida plena, que se instale
de novo a audácia de poder sonhar
que acabe o mal
sem receio que a paz não seja para ficar.

natalia nuno
imagem pinterest


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

uma paz fatigada...



este raio de sol é como caudal de ouro
cuja claridade me estremece
é tesouro
irresistível, que nos move,
e depois da tempestade
do sol a saudade...
 
dele trazia a vida vazia,
a alma fechada
e o coração estremecia

entretanto de novo chove
contra as inquietas malvas
dos penhascos,
nem o alecrim resiste,
triste, 
fica também
o cântico do abelharoco
oscilando nas ramagens
à roda do vento louco

restam os lilases molhados
ávidos por lamber o sol
no cinzento da manhã orvalhados
até ao esvanecer a luz do arrebol

surge a hora de silêncio, 
rasgada de vozes do passado
subitamente sinto-me a quebrar
com o sonho desatado
e, nem asas para voar.

a chuva emudeceu
deixou uma paz fatigada.

imagem pinterest
natalia nuno
( abelharuco, na aldeia onde nasci,
abelharouco)

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2026

nada pode mudar...



outono doce, inverno amargo
escrevo poemas inúteis
falando da lonjura e da saudade
que trago
finjo esquecer o aceno triste 
que a lembrança me faz
olho o céu cristalino
e fico em paz

nada pode mudar,
o tempo é incessante
recorda-se a vida
que já foi pujante

os olhos vagueiam
mesmo de pálpebras cerradas
a face, o tempo lhe trouxe impiedade
sonhos adormecidos
paixões apagadas
da íntima fogueira, só a saudade

aquilo que ainda arde
é a audaz memória
os instantes que alguma vez amei
lembro, enquanto não é tarde

mas a vida teve o seu lado generoso
hoje dele nos afasta
forja-nos num adeus teimoso
ao sol jovem, e assim nos arrasta.

procuro um pouco de claridade
sou ave ferida de saudade...

natália nuno
imagem pinterest




domingo, 1 de fevereiro de 2026

eu e as minhas bonecas de trapo... memórias




minhas bonecas de trapo
-ainda hoje os meus sonhos são de assombro e a claridade ainda resiste nos meus olhos como se fosse criança, essa criança que acompanha com seu carinho e amor o meu caminho, sempre com a palavra necessária e certa, a esperança a felicidade e a alegria que um dia foi nossa, após tanta distância, unimo-nos, envolvemo-nos em sonhos azuis e escapamo-nos numa embriaguês onde tudo é íntimo...

nnuno
imagem pinterest

as flores do campo...memórias



com tão pouco e tão felizes, as crianças da minha infância, tudo e nada tínhamos, porque o pouco era muito, o pãozinho do forno de lenha, as flores do campo, as canções dos grilos e das cigarras, as poças d'água para saltarmos, e um sonho a cada manhã, poder brincar na rua com asas pespontadas de alegria, com os cabelos ao vento rua abaixo, rua acima, com a benção do sol e a ternura dos pássaros, que nos espiavam para que deixássemos os ninhos em paz, fomos felizes sim, por isso ainda trazemos esta saudade fecunda em nós, nossos olhos roubavam a luz ao sol, enquanto ele nos dourava a pele, enquanto voávamos de pés descalços, com a gratidão ao rubro por tanta coisa boa...a aldeia fermentava de sabores e cores tão nossos conhecidos e à noite o vento cantava pelas frestas do telhado, enquanto o braseiro aquecia o café e sonhávamos, sonhos fumegantes, até chegar o sono e adormecermos em paz... na manhã seguinte, tudo retornava as brincadeiras ébrias de alegria com os companheiros, os saltos e correria... hoje fecho os olhos apago-me no silêncio e rememoro as minhas raízes na aldeia, onde sempre era primavera e os pássaros vinham pousar nas glicínias da mãe...

natalia nuno

imagem pinterest