sexta-feira, 22 de março de 2024

evoco memórias...



olho este poente cinzento, sem fim
e sinto a vibração da poesia
tão íntima e intensa em mim

sussurra-me ao ouvido
que entre névoas, chegará,
para que eu fique cativa
e possa continuar viva
com a certeza que meu coração 
sempre a albergará

às vezes ela se ausenta
deixa-me assim com o destino
dos meus passos
outras vezes ela comigo se senta
nas horas difíceis me acolhe em seus
braços

com os meus versos fico então,
como que escudada da dor
desafiam-me e levam-me p'la mão.

nada me quebranta então
evoco memórias
esqueço a solidão.

natalia nuno








o que agarro se nada possuo?



prisioneira, abraço a solidão
que chega, sempre que vai a noite alta
e me sobressalta,
fico folha trémula, trémulo o coração
prestes a cair, 
morra ou não!?
apanharei os destroços caídos
no chão

ampara-me, dá-me a tua mão
estou cansada e nada levo
deixo a cama quente
do corpo que arrefeceu
quebro  palavras vivas,
 já nada é meu!

com letra que nunca foi cantada
e  com a noite  a apagar,
- ainda hei-de cantar,
quando vier a luz duma nova alvorada.

natalia nuno







segunda-feira, 18 de março de 2024

nau que no mar se agita...



os poemas passam neste mar da vida
como naus perdidas na bruma
tal como a minha vida que se consumiu
e em meus olhos adormecidos, coisa alguma,
agora que o tempo sepulta tudo o que me iludiu

hóspede de mim mesmo é a nostalgia
reclamam de mim os sonhos que não levei
avante
e a tristeza de tê-los abandonado, um dia
já distante.

o papel vazio toca o meu coração
nele vislumbro um milagre incerto
os pássaros pressentem esta minha solidão
e vão-me cantando hinos d' amor, por perto

contam-me minhas vitórias de criança
em sonhos de luz e fragrância,

choram  agora os orvalhos nos trevos
- que deixei à distância.

natalia nuno
rosafogo