quinta-feira, 9 de abril de 2020

andam os lírios...


andam os lírios vestidos de aroma, e riem-se de mim nas minhas costas, enquanto as roseiras me aproximam do sonho, na buganvília há um entrançado de zumbidos a animarem-me os ouvidos que há muito ensurdeceram, os pássaros vejo-os a passear-se de cá para lá, fazendo-me inveja de já não voar como eles, e pasmo...pois pensava não ter perdido a vida de vez... só as cotovias alegram os meus dias, essas não desistem de mim, cantam no parapeito do meu peito, e eu lírica, vou respirando fundo e rasgando mais um dia... e nesta doce paz, não me lembro se morri ou se entreguei o olhar às nuvens que passando me acolhiam no seu regaço...

natalia nuno

trago emoções...



trago as emoções abrigadas no silêncio da noite, desfolhados os sonhos, o amor é agora utopia onde eu própria me abrigo...fico cada vez mais distante do passado, é o tempo que me arremessa e me obriga a dar mais um passo, me arma o laço, e que anda eternamente preso a mim, deixa-me como o sol com medo da noite...e quando cresce a esperança, logo meu pensar fica torpe, esforça-se por alcançar de novo o sonho e criar o poema esquecido que habita em mim desesperançado, embora com as palavras por perto eu não sei o que escrever ao certo, para escrever necessito de fantasias, faço poesias rainhas, mas ainda que fantasiadas, são verdadeiramente minhas...escrevo sobre fragmentos da vida, noite fora até de madrugada, às vezes com a voz embargada, e um grito na garganta, e a poesia me ouve calada e olha meu rosto que morreu, enquanto no céu a última estrela nasceu...
natalia nuno
imagem pinterest

terça-feira, 7 de abril de 2020

saudade de abraçar...



nossas vidas navegam silenciosas
pobre do remador, segue lento
olha o mundo ao redor
e um rio corre-lhe no pensamento
a alma treme, o homem morre
e remédio para o mal
ninguém discorre
arrisca-se a vida,
cala-se o medo que cresce no peito
e vem notícia que diz tudo
todo o dia acaba, triste e mudo!

a vida parada, a porta fechada
a tarde acabada.
fico-me com as vivências da memória
que o coração alimentam
e às vezes atormentam,
quando lembro minha história
ah, não está por aqui ninguém,
posso chorar à vontade, e porque não, rir também?!
de incerteza estou farta, quero esquecer
a realidade...o sol ainda não se pôs
e a vida sempre se recompôs
apesar das ameaças!
amanhã será outro dia

- aquele em que de novo me abraças.

natalia nuno
rosafogo




cada um de nós...



cada um de nós vai construindo a sua teia, até a viagem acabar, vai desbravando caminho nem sempre fácil, quando os sonhos arrefecem é mais complicado, ou quando o amor que era quente vai ficando frio, vai-se levando o barco conforme o momento...mas hoje fez-se madrugada no meu jardim, nasceram os nardos e eu estou feliz por eles e por mim...
natalia nuno

segunda-feira, 6 de abril de 2020

a solidão chegou à estação...



a solidão chegou à estação, procurou por lugar e sentou-se à minha beira, assustada com o apito do comboio em marcha refugiou-se no meu peito, aí se acomodou mais as malas que trazia consigo, ficámos as duas caladas, logo ela insistiu que me conhecia e até à hora da partida partilharia comigo o tempo... agora que já a conheço bem, andamos de mãos dadas, nesta estação cada vez mais esbatida que é a vida, deixamos tudo para trás e partimos sem destino, levamos a saudade de épocas felizes e seguimos viagem resignadas com este tempo triste...dizemos uma à outra: é um privilégio ter chegado à estação sem grandes desilusões, sem ter perdido a voz e ainda com um pouco de audácia neste destino misterioso da vida. Assim vou desenhando sonhos, sem deixar afrouxar o pensamento.

natalia nuno
rosafogo

abro as gavetas às escondidas...



abro as gavetas às escondidas e meus dedos leves dedilham memórias, e enternecida recolho palavras debaixo da língua cheias de saudades de tudo que só eu sei...saudades tão grandes que não cabem no peito, respiro fundo e sinto o coração a bater, cada lembrança faz ninho em meus olhos e cura.me da solidão... vim voando desde a Primavera, até que o Inverno me tocou, e poisei no chão da desilusão, morreu-me o tempo dos sonhos, despi-me de papoilas, vesti violetas, esfacelei o riso e agasalhei a saudade que é na verdade, a giesta que desembacia a poeira do meu dia...
natalia nuno

o rendilhado das ondas...




o rendilhado das ondas apagam com suavidade as marcas deixadas na areia, uma nuvem baixa perdida, o crepúsculo cai rapidamente, nem vivalma, apenas o vento a fustigar-lhe o rosto que o tempo impiedoso crivou de rugas à volta dos olhos e da boca, o pensamento baço, buscando sem saber porquê o que tem perante si e não crê...deixa-se passo a passo à mercê das lembranças, tantas canseiras encheram os anos de instantes que enraizaram na mente, deles cativa... sempre que a memória lhos aviva; cai nas malhas da saudade, sabendo que não há regresso, diante dela abre-se um caminho gélido e misterioso e essa ideia deixa-a confrangida, sente por intuição que é breve a vida, cada passo confirma o seu pressentimento, e é assustador o desalento...as emoções num apertado nó, a luz difusa do poente recorta-lhe o rosto e sente-se só, perdeu quase tudo de outrora, aos seus olhos surgia nesta hora nada mais que uma aparência...como que uma terra varrida pelos ventos... uma gaivota a vem saudar, amanhã a aurora vai voltar...desta vez será mais forte que uma haste de milho e não se deixará vergar pelo pensamento.

natalia nuno
http://flortriste1943.blogspot.pt/
escrito na Manta Rôta

domingo, 5 de abril de 2020

é tempo de ser ave...


uma voz inquieta traz
notícias do mundo
no canto do pássaro que canta
profundo...
tomba uma nuvem espessa
a chuva a fazer-me companhia
como a querer que esqueça
o que o pássaro anuncia.
não tem mais riso
quem finda seus dias
e aos confinados, é preciso
que se ramifiquem as alegrias
sinto hora a hora
que é tempo de ser ave
e em mim não cabe
a vontade de voar, de abraçar,
da solidão quebrar.

esta solidão quebra-me o encanto
desmorona-me o pensamento
implacável o medo é tormento
e é ele tanto, tanto!

dou passos cautelosos
aguardando a liberdade
e quem não há-de
estar pronto para sair das quatro paredes?
vou tecendo aventuras, sonhos, loucuras
falando ao sol com falinhas mansas
chego ao limiar da porta, há um ar que passa
mas ninguém me abraça
e, assim os dias são uma eternidade
hoje gerou-se uma neblina
o dia está cinzento, e só me alento
a sonhar...
- ah, quanto livre eu era em menina!

natalia nuno
rosafogo