quarta-feira, 22 de julho de 2026

presenças invisíveis...



os poemas são meus filhos
às vezes vivem em momentos
de deserto
outras no coração
- ou ali por perto!

às vezes fustigam-me
criticam-me de não condenar
o mundo
outras deixam-me em silêncio
profundo

não me deixam embelezá-los
tiram-me até a lucidez
tento até deformá-los
mas são meus filhos
e eu vou amando um a um
à vez.

às vezes fazem-me perguntas
ignorantes
outros surgem apaixonados
desditosos e amantes
e às vezes pela dor são convocados.

natalia nuno
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devo ou não devo?!...



a vida foi um calendário
vivido hora a hora
onde o amor se alimentou
e a ausência feriu
- distante o sonho ficou!

não quer nem é possível regressar
e golpeia, golpeia na dor
sem parar

tudo é verde, pacífico
e quente,
e a gente
vai tecendo alguma esperança
traz na memória uma lâmpada
secreta,
que lhe traz o fogo de criança

o que escrevo, apaga-se depressa
fica no ar o sonho
dum coração que não se expressa

na alma a poesia permanece
é como aroma do trevo
é ternura silvestre
saudade que sobe e desce
abandoná-la devo, ou não
devo?

natalia nuno
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segunda-feira, 13 de julho de 2026

as sombras...

vou andando, vou embora
levo o caminho do poente
vem chegando minha hora
levo pó corroendo a mente

já tomba a noite e é escuro
não quero o tempo perdido
o percorrido foi tão duro...
que precisa ser esquecido

a percorrer, já é tão pouco
a dor adormecida melhora
este apelo da noite é louco
mil sombras já vão embora

bago maduro de uva negra
prisão que a paixão me deixa
assim meu corpo se entrega
já com a vida se desleixa...

a inquietude que me arrasta
no fluxo ardente das veias
do silvo dos bosques m' afasta
amo até à eternidade! m'creias.

natalia nuno
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terça-feira, 30 de junho de 2026

estado d'alma...



meu estado d'alma
propício à melancolia
deixa-me na inércia,
desfeita como um sopro
de abandono

na amenidade
da tarde 
pouco arrebatada
deixo-me na harmonia
de mais um dia

viver, já não é o mesmo
sonho
a mesma sensação
mas, é bem viva
a recordação

fixo os olhos
num ponto distante
e vejo a vida a fechar-se
como uma flor incolor
de vez a desfolhar-se

até ao vazio final!

natalia nuno
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segunda-feira, 22 de junho de 2026

sentença...



golpeia a dor como se eu
tivesse  
uma janela, onde ela
pode entrar sempre que quer
insiste e continua
e agarra o corpo como
se este lhe fosse pertença

ainda que por vezes seja sentença
atravesso o deserto,
e não deixo que me vença
.
insiste e esmaga
sigo sem rumo nem saída
até que a fé me traga
alento à vida
e me livre das suas garras

com voz de amargura
perco-me nas sombras dos meus
olhos
a sentir a tirania
é quando ela avança
com o maior desdém

sem me dar esperança!

natalia nuno
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ergue-te até ao fim...



-onde queres ir?
não fujas de ti
agarra-te às recordações
não afogues os teus dias
no vazio das desilusões

corre o risco, 
ergue-te até ao fim
sente a sedução do vento
livre
e vive!

não desças à fronteira 
do nada
de repente ensimesmada
onde o sonho anda distante
de si mesmo

tece a esperança, deixa as dúvidas
e a agonia
não te rendas
amanhã talvez seja o dia
te mostre que a felicidade
pode estar de regresso
e tu entendas
que uma nova luz
ainda te pertence

natália nuno
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quinta-feira, 18 de junho de 2026

a vida sempre nos cobra...



perante o imprevisível

uma dor se dobra
é a vida que nos cobra

sempre clamo pelo distante,
p'los sonhos que não sonhei
nada me dói mais neste instante
do que a saudade,
do que sobrevive
na memória e nela guardei

sempre uma inquietante ameaça
e o tempo quase prescrito
porém ainda uma luz que passa
e o amor à vida, se abre aflito

sinto as palavras quebradas
comtemplo as janelas nubladas
velhos sentires que o desconsolo
invoca
a névoa difunde-se sem cuidados
os olhos estão velhos,
os cheiros perdem-se na minha boca
ficam os sons  oxidados.

a vida nos cobra!

natalia nuno
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