terça-feira, 24 de março de 2026

foi tenaz o amor...




do olhar até ao fervor da alma,
a lembrança do amor e sua quimera
aromas de fogo que já embaciam,
já de mim me esqueço
e aos que tanto me queriam!

o tempo vai macerando o esquecimento
que sofre por esquecer-se,
é esta a dor que  sinto
no peito a debater-se,

olho para trás e te pressinto.
foi tenaz nosso amor, 
com instantes de ternura entregue
fogo felino que ainda me segue,

fogem de mim lembranças
e tudo é já confusão
foste unicamente esse beijo que trago
como recordação?
ou o redobrado amor que ainda sinto
presente no coração?!

permaneço pensativa e certa
que no oásis da minha memória
serás sempre a fonte dos sonhos
risonhos na minha solidão.

natalia nuno
rosafogo













a noite e o vazio...

os anos já perdidos
os olhos envelhecidos
e uma esperança cega
a vida ao meu redor
com tanto esplendor
e a morte, tarda nada
me pega.

um raio outonal que veio
e o desejo ainda me tenta
e o sonho de permeio
último engano que a vida
atenta.

foi porque precisei
unir palavras,
- um dia belo fazer delas,
e nesta lenta despedida, pensei,
abrir da alma, e do coração
todas as janelas.

natalia nuno
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sonhando com vôo...



caem folhas ao chão 

este instante se apaga, ficam meus sentidos entorpecidos minha noite, em inquietação se alaga

foram-se os júbilos primaveris meus sonhos são ramos partidos que o vento levou para onde quis

as folhas caídas tão frágeis quanto eu, no chão adormecidas, na noite de breu,

e eu, sonhando com o voo, minhas mãos estendidas são  folhas que tempo secou...

 natalia nuno

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registos da memória...



olho a paisagem
as ramas falam entre si
com linguagem 
que ninguém conhece
às vezes sofrem de abulia

em dias de calmaria
lenta é a visão
quando o vento aparece
o coração estremece

pálido fica o jasmim
as folhas em motim
tudo vive por aqui
só a morte não nos ignora
a mim e a ti

firme o firmamento,
nele a memória dos olhos
e ao pensamento
um doce queixume

e do ciclo o fim
o tempo castiga
- em profundidade
a ti a a mim,

e logo a saudade!


natalia nuno
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sexta-feira, 20 de março de 2026

imagens vivas...



- quem experimenta um tal amor pelo lugar onde nasceu, sente-se duplicado em tudo, é um amor perfeito que nos inspira e é como uma dádiva benfazeja, as lembranças são colheradas de açúcar que adoçam o coração, ainda vejo a vela acesa na lareira e as feições da mãe na penumbra, embora com alguma dificuldade, mas ainda assim fico plena de júbilo e alimento a minha alma... a minha musa é a natureza, a minha força e pensamento e a memória não dorme...a inocência. o sorriso a gargalhada, a liberdade o alvoroço, imagens vivas que pulsam tal como meu coração.

-crescem dentro de mim árvores, numa longa avenida onde me perco e me encontro, onde me inquieto, onde me comovo, sorrio e sonho, esquecendo a dificuldade da descida...dou guarida às aves, deixo esvoaçar as borboletas, ouço os delírios dos ventos nas flores, ancoram em mim as estrelas, meus olhos bravos olham o vermelho dos cravos, existirei na essência de todas as coisas? crescem as begónias no jardim interior, as tempestades serenam e eu subo ao céu...apenas assim! num vôo de gaivota, leveza de mim.

natalia nuno

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então vive Mulher...



a chuva intensa alaga a vidraça e tamborila insistentemente no telhado, e ela, alinhavando pormenores que não cessam na mente... fixa o olhar na fotografia em frente, e surpreendida, deixa-se entristecida, às vezes revolta-se, privada de esperança então, o deslumbramento pela vida mistura-se com o medo de a perder...muitas e estranhas são as vicissitudes, escreve palavras afastadas de si no tempo, separada pela vida inteira vai querendo abarcar apenas o dia a dia com inegável doçura, traz consigo uma chama interior terna e abrasante, quente e às vezes lancinante, mas nada a aflige nestes momentos de lassidão...depois, bem... depois conserta as palavras e seca nelas as lágrimas, diz de si para si: o coração ainda a bater, mora nele a vida... então vive Mulher.


natalia nuno

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quinta-feira, 19 de março de 2026

sem nome e sem destino...



minhas mãos hoje estão enroladas
como flores que deixaram de florir
não aquecem nem arrefecem
nem obedecem à minha voz
que se faz ouvir

já estranham o que escrevem
nem eu sei que dizer
fico de coração a bater
e elas paradas sem saber
se devem ou não devem

neste emaranhado de pensamentos
fala-me a criança em mim
e por esta razão escrevo com doçura
e falo da saudade, dos pedaços de ventura
ainda que ninguém me queira ouvir
falo, até à loucura, 
até alheia a tudo vou voltar a sorrir

mas hoje falo das mãos
que rasgam meu coração,
empurro-as para a intemporalidade
para que viva a poesia da saudade
sem nome e sem destino.

natalia nuno
rosafogo
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