domingo, 30 de agosto de 2026

voltarás...



- virá a madrugada...deixará na noite a última constelação e trará o cheiro a ribeiros e a rosas do teu coração, voltarás, sim voltarás para mim, são os pássaros que me dizem...estendem-se os teus olhos dentro dos meus olhos, a esperança será a estação onde viveremos de novo, com a vontade sedenta dos jovens...revivendo poemas abandonados, estamos perto da estação invernosa, partiu o calor do verão, o sol ainda penetra nas sombras das ramas, e ainda se ouve a canção de estío, cantatas das cigarras, tudo ao compasso da brisa que surge da planície, tudo é felicidade, a tua chegada acontece na espessura da tarde com fogo e alegria, nossos corpos se unem...somos aves que voam no sol do ocaso, livres, de asas estendidas...

natália nuno

foto minha

de pensamento em pensamento...



-  há pelos campos flores baralhadas, remando contra a força do vento, morrendo açoitadas, assim, morrem os sonhos no silêncio dos que sofrem de saudade, ao peso das lágrimas...vivem-se assim tempos de asperezas, onde o remédio é resistir às pressões do dia a dia, ando para aqui de pensamento em pensamento, interrogo-me constantemente do porquê nem as flores escaparem com vida, e numa rapidez espantosa serem despetaladas no encontro com o tempo, oscilante é a vida, ameaçador o tempo, fico a sonhar indiferente e sem vontade, tudo fica assim mesmo...só o coração pode mudar e transformar o nevoeiro instalado em sol, abrindo o verão e agasalhando de novo a esperança, enquanto eu sonho... o céu parado, o verde das hortas, a tarde tranquila, os rouxinóis a despedirem-se, os mochos aguçando o apetite a noite a aproximar, a coruja a piar, e nós os quatro na cozinha comendo a sopa de feijão tranquilamente, o pão na mesa e a chama na lareira, a candeia alumiando, fecham-se os olhos de sono e num golpe de asa... pus os pés em casa... mas, era sonho!

Seja manhã ou já tarde no dia, tudo chega ao fim, não lamento, pois trago em mim Poesia, que é festa no coração partido de saudade e é, dança nos meus dedos, ou até flor cheirosa no jardim... saudades trago de mim.

prosa escrita faz tempo, sem presunção de ser escrita requintada, despreocupada, escrevi-a consoante me surgiu na mente.

natalia nuno

foto do pinterest

sexta-feira, 28 de agosto de 2026

avançando às cegas...



em que lugar estranho
deixei minha mente
e a voz que já não 
é a minha?

perdida, sozinha,
e os instantes então reunidos
num sussurro inquieto
quase perdidos

já nem posso recordar
os instantes que vivi
dentro de mim a estourar
a saudade de ti

secaram as flores
tudo desprovido de alma e rumor
perdido em si, nosso amor,
somos já cinza

e nem mais uma palavra
a negrura ardente
atrás de nós
onde anda a minha mente
que é feito da minha voz?

natalia nuno
imagem pintarest



quinta-feira, 27 de agosto de 2026

O que vou fazer comigo?...




 - o que vou fazer comigo?

ainda tenho medo do escuro do corredor, ainda me deito do lado mais encostado à parede, ainda sofro com os ruídos das tabuas do soalho, tapo a cabeça com o cobertor de papa para não ouvir o corujar das corujas, o sono detem-me, e eu lembro todas estas memórias, de manhã era toda a luz que chegava ao pequeno quarto, entrando pela janela pequena trazendo-me ternura e sossego, depois dum sono inquieto...em troca da paz rezava uma avé maria, da obscuridade da noite, não lembrava mais, nos dias em que o sol era cego e ventava chovendo, ficava quebradiça, mirando atrás das vidraças da cozinha pequena da avó,o mau tempo e sonhava fechando as pálpebras à espera de poder de novo correr pelas ruas da aldeia... e uma mão, a mais macia de sempre acariciava-me

- era a avó com suas asas que me protegia...

natalia nuno

foto minha

terça-feira, 25 de agosto de 2026

uma brisa leve...




- uma brisa leve chegou-me à janela, trouxe-me uma luz mágica tão íntima da infância, e o aroma  bem vincado ainda na minha memória, e ainda que tivesse tardado, continuaria igual, nada pode destruir as memórias... quando as aves me vinham saudar, as folhagens das árvores murmuravam-me tantas coisas que ainda não entendia, o rio turbulento no seu rumor deixava-me olhar no seu espelho, matando a sede aos salgueiros esguios das margens, que alegremente baloiçavam os ramos dobrados ao seu encontro, os frutos acendiam a manhã com os aromas das suas polpas abertas ao vento, os girassóis aguardavam a vinda do sol, e as abelhas fabricavam o mel de flor, tudo era amor e ternura, as laranjeiras eram como noivas, todas branquinhas, agitava-se o meu coração de ânsia, como se nunca terminasse o calor daquele lugar onde vim ao mundo, era o centro da minha vida, livre e ditoso...

natalia nuno

imagem minha

já tudo é fumo...



tenso de estar à espera, o poema,
por uma palavra espera!
busca em vão vida,
e desespera

para ele tudo é um mistério
um labirinto sem saída
já nada é vida,
os erros do caminho
são sentimentos silenciosos
só no borbulhar de ideias
ele se encontra com a saudade,
que ainda é de verdade.

salpico o poema de saudade
e amor
aproximo-lhe meus braços
dou-lhe a minha mão
já tudo é fumo
e a história se esquece,
o poema são todas os seres
que trago no coração.

natalia nuno
imagem pinterest

segunda-feira, 24 de agosto de 2026

noite de névoa...




o silêncio cresce, as árvores avançam com um perfil sombrio, as folhas inquietas, cresce uma profunda tristeza, passo por pessoas que não poderão compreender-me nunca, só a luz da manhã vem oferecer-me paz, apago os presságios e os temores, não me assustam as rajadas de vento e chuva, esqueço a obscuridade, é tudo suave, e então surge  morte sem me dar tempo, me enterra no tempo, afinal é o dia que temo...com um ar ofegante e a voz apagada, me deixo perdida como náufrago em noite de névoa, apenas um frágil queixume, afinal já tantos outros morreram...

natalia nuno

foto minha