segunda-feira, 2 de março de 2026

coisas de Poeta...



quando é evidente a solidão
nem levo a sério se dizes que me amas
o eco da tua voz fica na noite
que desce sobre mim...

faz fronteira com o inverno
- que me envolve
mas traz-me uma fugaz esperança
- ao coração

que obstinado, ainda te quer ouvir.

natalia nuno
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sempre a solidão...



a solidão, é loucura da mente
fica-se de peito aberto ao que vier
e os desejos que a alma sente, 
o tempo acomoda,
e o corpo 
que é flor bravia,
ama sempre que puder

o amor ilumina o mundo
e serena o coração
às vezes dói bem fundo
quando desespera de paixão,

logo se abrem cicatrizes e
esfria o coração, a alma perdida
presos à recordação
- de dias felizes,
continua a vida... suspensa na ilusão!

natalia nuno
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dia solarengo em mim...

brindo à vida nesta manhã,

de certo modo aprazível,

cruzam-se pássaros na memória,

 ouço o vento por entre as árvores, 

nem tudo está perdido, percorri, 

caminhei, voltei

- a recordar a vida e a distância,

com a ternura deste inverno,

que brota vida à minha volta...

 

natália nuno
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vendaval...



 - no rosto a indolência da bruma
o sonho em chama a surpreende
a saudade, já de coisa nenhuma 
vendaval que ninguém entende


do tempo traz nela a voracidade
entre os lábios a quente lavareda
os desejos transbordam de saudade
no olhar tristeza que ninguém arreda.

natalia nuno

(para que não se perca 2006)
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quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

é noite no coração...



embacia o poente
faz-se a despedida silenciosa 
do dia
meus olhos apagam-se
numa difusa recordação
é noite no coração

recolho em mim a sombra
dum tempo,
um mar atormentado que cresceu
humana inquietude, que Deus
me deu!

o tempo vai levando o sentido
o fim da palavra vou ter que aceitar
e depois de ter emudecido
nem sei se arranhadas memórias
serei capaz de ressuscitar

como areia pelo mar engolida
vão-se as lembranças no frio
dum destino obscurecido,
que vida, que rio, que escrita
sem sentido...

desvela-se a realidade
sem piedade
sento quão próximo a sombra
já me olha, e o olhar
se molha

como posso sobreviver
- à sua avareza?
luto sem trégua, 
e atormentada incerteza.

natalia nuno
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sábado, 21 de fevereiro de 2026

audácia de sonhar...



quando o vento levanta a voz 
num canto quezilento,
bate o coração apressadamente
fica o céu cinzento.
a bruma sempre presente
os mares fustigados
silêncios demorados
na memória e na pena
e a terra ferida...

um relógio sem ponteiros
marca a falta de paz na terra
que ora sofre de tempestade
e outros males como a guerra
nem sequer o amor basta
nem a poesia floresce
para adoçar o vazio,
a lágrima solitária cresce
e a terra é humilde abrigo
com paciência se espera
letras para poder esquecer
que a felicidade tão esquiva
venha enfim nos oferecer

vida plena, que se instale
de novo a audácia de poder sonhar
que acabe o mal
sem receio que a paz não seja para ficar.

natalia nuno
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segunda-feira, 16 de fevereiro de 2026

uma paz fatigada...



este raio de sol é como caudal de ouro
cuja claridade me estremece
é tesouro
irresistível, que nos move,
e depois da tempestade
do sol a saudade...
 
dele trazia a vida vazia,
a alma fechada
e o coração estremecia

entretanto de novo chove
contra as inquietas malvas
dos penhascos,
nem o alecrim resiste,
triste, 
fica também
o cântico do abelharoco
oscilando nas ramagens
à roda do vento louco

restam os lilases molhados
ávidos por lamber o sol
no cinzento da manhã orvalhados
até ao esvanecer a luz do arrebol

surge a hora de silêncio, 
rasgada de vozes do passado
subitamente sinto-me a quebrar
com o sonho desatado
e, nem asas para voar.

a chuva emudeceu
deixou uma paz fatigada.

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natalia nuno
( abelharuco, na aldeia onde nasci,
abelharouco)