quarta-feira, 9 de novembro de 2022

lembranças...





sempre o tempo decrescente
a aproveitar-se de mim desprevenida
a gotejar-me na mente
pedaços da minha vida
sinto-me como quem navega 
à sorte,
sem saber para onde
passo a passo para a morte,
isso o tempo não me esconde.
sobra em mim o cansaço
envolvo-me nas memórias
das minhas raízes
passo o tempo a lembrar-me 
d'outras épocas felizes.

perdidos na idade
ando eu e os salgueiros
caem as sombras a pique e a saudade
vai longa, depois de tantos Janeiros.

meu sonho nasce e renasce
dele nem vale a pena acordar
este alento me advém do teu amor
faz meu coração serenar,
lembrança em lembrança
lembrarei com ardor.

natalia nuno
imagem pinrest




quinta-feira, 3 de novembro de 2022

bem longe de acordar...



revivo o sonho de dias vividos
e tenho esperança nos que resta viver
e os sonhos por mim e por ti tecidos,
tiram o vazio dos nossos olhos
é isso que quero ver acontecer,
quero existir sonhando
arrecado as palavras, e tiro o gelo
do espelho
o tempo vai marcando.
e eu pergunto-lhe se o que vejo
sou eu ou ele que é velho,
enche-me a cabeça de pensamentos
é indiferente aos lamentos
que a saudade não sara,
saudade que faz o sorriso acontecer
que é tristeza e também alegrias
saudade na alvorada ou neste entardecer
que passa à minha porta todos os dias.

e é nas manhãs doces a florir de jasmim
ou nas noites de doce luar
que eu me recordo de ti e de mim
e é então que a saudade vem mitigar.

natalia nuno

domingo, 30 de outubro de 2022

cansaço que disfarço...





através das cortinas da alma, 
vou remando até à infância, 
nada me barra o caminho, 
e fico a boiar no poente em liberdade, 
agradeço a Deus por ofertar-me o sonho, 
e a saudade
que me permite encher o peito de seiva nova,
reconcilio-me comigo mesma, 
e em equilíbrio fica o coração
com amor de sobra, 
serena, mais lúcida, vou continuando o caminho
partem as horas, fica o cansaço, 
inacabado o sonho, 
voltam os anseios como trepadeiras
 dando-me abraço.

o cansaço disfarço!
esqueço as canseiras, 
adensam-se  as lembranças dos beijos frementes de desvario, 
suspiros do sol interrompem meu frio, 
escapo-me pelo meio desta nostalgia 
e vou vivendo, sorrindo de novo dia a dia.

natalia nuno
(rabiscos) 1972

povo será teu nome...





morre gente que nunca viveu
a vida toda levou a trabalhar,
tendo apenas por seu
o pedaço de terra
onde as mágoas de vez encerra
quando vai a enterrar.
a cova é à sua medida
foi o que ganhou em vida
nem larga nem funda
morreu sofrendo de cogitação profunda
viu o seu país duma só côr
nunca ninguém lhe deu amor

que desarrumada vida!
neste rectângulo vivida,
pareceu-se a um toro num rio
sem saber o seu destino,
passou fome, calor e frio
passou p'la vida pobre peregrino.

falo assim de quem tão bem,
soube das coisas da vida
fica liberto depois da morte
duma vida, solitária e incompreendida.

natalia nuno
rosafogo
rabiscado 2001



domingo, 23 de outubro de 2022

estremecer voluptuoso...



escrevo o meu nome na água
onde o tempo não o apagará,
nem tempestade e nem mágoa
a esquecimento, ele sobreviverá

abandono a saudade no coração
onde permanece da ave o canto
salva-se a memória e a recordação
estranha magia, acordes de encanto.

tudo se aquieta, é tempo de paz
no meu arquejar, e passos furtivos
escuto-me na quietude, sou capaz!

ponho a vida no seu fogo primeiro
coloco ainda a chama nos sentidos,
apaixonada, capto ainda teu cheiro

natalia nuno



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

no regaço da noite...

 



algo mudou repentinamente

e o tempo vai desvanecendo

obscura e até emudecida a mente
arranhadas memórias vai vivendo

como ressuscitar a felicidade?
por atalho de sonhos vislumbrados?
nos versos de outono a saudade
memórias dos tempos passados.

meu olhos abrem-se ao vazio
à impiedade dum destino a findar
a emoção na m'escrita é agora fastio
as palavras obsessão  que não sei calar.

silencio a inquietação, fico muda
brota do silêncio realidade profunda
a vida ainda conspira faço-me surda
em mim a desmemória já abunda.

senti quão próximo a morte m' espera
deixando talhada a tristeza no olhar
lê os meus sonhos e a alma desespera
obscuridade que de mim se quer acercar.

natalia nuno

domingo, 9 de outubro de 2022

tudo o que resta...


florescem poemas florescem
nas minhas mãos tão cansadas,
descem até mim, eles descem
no meu rosto são longas estradas,
transbordam de sentimento
galgam distâncias como raios,
são agora frios Dezembros
mas, já foram floridos Maios.

florescem poemas caídos dos céus
que vão transformando em ilusão
sonhos inacabados, teus e meus!
neste declive rápido do coração.

florescem poemas em encrespado vento
com sua música atordoante, ou
dulcíssimo canto que chega ao pensamento,
salmodia da vida já tão arquejante.
e este corpo lento que se devora
onde já não existe medo, só nostalgia,
e o rosto onde nem é noite nem dia
onde um silêncio humilde se arvora.
é tudo o que resta.

natalia nuno