quarta-feira, 17 de julho de 2024

monotonia...

a noite abriu a porta
ficou solitária a cidade,
a lua nem redonda nem torta
acalmou minha ansiedade!

passam os pombos em bando
mesmo junto à minha janela
como a luz, vão-se elevando
na serena obscuridade

e eu na minha idade sem tempo
que vai e que vem na saudade

olho as sombras fatigadas
olho as árvores estendendo 
os braços
e sou feliz diante de pequenos nadas
e tão frágeis os meus passos
a vida é agora miragem

meu sonho vive junto ao teu
caminhamos a mesma viagem
daqui a pouco a manhã sabe a fruta
o sonho será nossa luta

se me esquecer de ti
serei um poema de palavras
apagadas.

natalia nuno
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segunda-feira, 15 de julho de 2024

nada sou, nada me resta...

sou poeta porque entendo
a voz do vento,
quando escuto seu lamento
e ouço o canto das estrelas
na solidão,
sou poeta, porque entendo
do luar a lamentação.

poeta que tem amor à vida, 
cisma e medita
olha a negra tempestade
no céu infinita

também a paz avisto
na já remota saudade q' em mim
se esconde
de paixão me visto
sou poeta, a inspiração
me vem não sei de onde!

enquanto na minha alma
suspira a poesia condoída
ela me acompanha toda a vida.

sou poeta, ouço a fonte
- que murmura!
poesia, minha água 
pura...

ao raiar da aurora
ou na nostalgia da tarde
quando a sombra encanta
os arvoredos
vem a mim a saudade
e nada sou, nada me resta
nem meus medos.

poeta a quem a vida 
já não surpreende
nem molesta!

natalia nuno

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domingo, 14 de julho de 2024

o som dum dia triste...

confio no tempo e na vida, 
que os olhos me ensombram tanta vez
deixam-me numa solidão definitiva
sem porta de saída...
no gume do frio e do fastio!

o som triste do vento
era o som dum dia triste
e eu de alma escurecida
dobrada e desiludida!

mas hoje o dia é diferente
- dos demais!
a vida tem um distinto som
o sol nasce brilhando mais
esqueço os restos da noite,
olho a luz do dia que nasce
e a paz no coração, 
serena, faz-se!

esqueço o frio e a solidão.

natalia nuno
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silêncios de doçura...



porque a noite me surpreende
nem eu nem ninguém entende
vive nela, da morte o presságio
o sonho já não é sonho
e a vida virou naufrágio,

surgem lendários os dias
onde anda o fogo da felicidade?
lá atrás no tempo que é agora, saudade!

já não sou céu nem terra
meu sangue deixou de existir,
sou aquele mistério que encerra
uma música não escutada, antes
da alegria ruir

no silêncio da noite
tudo é sigiloso e obscuro
ardemos nos silêncios de doçura
daqui a pouco brilha a aurora
e eu no sonho, à tua procura!

as minhas palavras
intercalam-se nas tuas
numa harmoniosa alegria
hoje é noite constelada, não amuas!

olhas-me, como se fosse o primeiro dia.

natalia nuno
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quinta-feira, 11 de julho de 2024

o frio que em mim ficou...


sucedem-se um a um
os dias de espera,
passou o inverno
chegou a primavera

tanto ontem, como hoje
a vida me foge!

não há luz, nem escuridão
que toque meu coração
tal como é, tal como vem
o rouxinol canta
não o ouve ninguém

não há nada que me acolha
nem os frutos do meu jardim
só o poema me olha
em silêncio, com pena de mim

as recordações agarrei
com as pontas dos dedos
e nunca mais as larguei
sabe Deus os seus segredos

e o frio que em mim ficou
lembra-me a velhice d'hoje
saudosa de mim que estou
fico à mercê,
- da vida que me foge.

natalia nuno
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segunda-feira, 8 de julho de 2024

o sopro que sobra...



o sopro que sobra, a esperança
que nego, a lágrima persistente, 
tiram-me o sossego
só o sonho, a tudo isto faz frente

os sentidos sofrem ameaça
e a memória é maré que passa

já tudo é inimigo
solidão sem trégua,
a vida tarde que adormece
tristeza a cada nova inspiração
contudo, ainda pulsa o coração
mas a memória esquece.

o esquecimento torna-se adulador
embora poderosa a lembrança
e a esperança
e assim, nem vencido, nem vencedor.

longo se faz o dia
a alma alquebrada
uma canção à lonjura e
o amor fecha a porta, deixa-a bem fechada

chegará então a hora da partida
sou matéria de colheita,
mas nego... nego o adeus à vida,
quando anda a morte à espreita

natalia nuno
imagem do pintarest