sexta-feira, 20 de março de 2026

então vive Mulher...



a chuva intensa alaga a vidraça e tamborila insistentemente no telhado, e ela, alinhavando pormenores que não cessam na mente... fixa o olhar na fotografia em frente, e surpreendida, deixa-se entristecida, às vezes revolta-se, privada de esperança então, o deslumbramento pela vida mistura-se com o medo de a perder...muitas e estranhas são as vicissitudes, escreve palavras afastadas de si no tempo, separada pela vida inteira vai querendo abarcar apenas o dia a dia com inegável doçura, traz consigo uma chama interior terna e abrasante, quente e às vezes lancinante, mas nada a aflige nestes momentos de lassidão...depois, bem... depois conserta as palavras e seca nelas as lágrimas, diz de si para si: o coração ainda a bater, mora nele a vida... então vive Mulher.


natalia nuno

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quinta-feira, 19 de março de 2026

sem nome e sem destino...



minhas mãos hoje estão enroladas
como flores que deixaram de florir
não aquecem nem arrefecem
nem obedecem à minha voz
que se faz ouvir

já estranham o que escrevem
nem eu sei que dizer
fico de coração a bater
e elas paradas sem saber
se devem ou não devem

neste emaranhado de pensamentos
fala-me a criança em mim
e por esta razão escrevo com doçura
e falo da saudade, dos pedaços de ventura
ainda que ninguém me queira ouvir
falo, até à loucura, 
até alheia a tudo vou voltar a sorrir

mas hoje falo das mãos
que rasgam meu coração,
empurro-as para a intemporalidade
para que viva a poesia da saudade
sem nome e sem destino.

natalia nuno
rosafogo
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da aldeia moça saí...




trago a mente abalada
como folha amarelada
caída da folhagem
de outono, morta,
lá fora cai a chuva à minha porta
cá dentro eu a suspirar, e um ai
de melancolia me sai.

da aldeia moça saí
e a olhar atrás, nem me atrevi,
do olhar um arco-ires me fugiu
jamais o sol me aqueceu
levei os becos, a ponte e o rio
passou por mim arrepio
o silêncio na carne e a alma doeu

pus no bolso as lembranças
e nunca me refiz da partida
ainda ontem éramos crianças,
hoje já fazíamo-nos à vida

matava-me a nostalgia
os poemas eram grito de pavor
rasgava as entranhas dia a dia
enlouquecido ferimento
por não saber esquecer
a quem tinha tanto amor

a saudade durou uma eternidade
da voz do rio correndo,
do sol a flutuar no azul do céu
e, meu pensamento entontecendo
por deixar tudo que era meu

memórias que ainda existem
e das quais não me liberto
nunca teria sido poeta
se não as tivesse por perto
nas noites desarrumadas
vivo de lembranças atadas
com a poesia comigo

natalia nuno
rosafogo







quarta-feira, 18 de março de 2026

não sei por quanto tempo...

 


não sei por quanto tempo seguirei esta sucessão de instantes, ainda que o meu coração vá batendo, e assim, o corpo obedeça, aqui pertenço por enquanto ao mundo dos vivos, resta-me um pouco de felicidade, todas as manhãs sinto-me como ave que regressa de longe e encontra poiso na doce geografia do ano anterior, deixo adormecer algumas memórias vou ainda com alguma força, fazendo com que a luz que me segue tenha alguma brilho... embora já não seja como antes para mim, o tacto das flores, o riso das águas, nem o voo belo dos pássaros...trago as minhas pouco apuradas palavras tão perdidas na minha imobilidade, que a nostalgia já me está chegando no turvo silêncio da tarde.

nnuno

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sede de abraços...



 olho de novo o céu de nuvens cinzentas, seus pensamentos ledos e tristes vagueiam perdidos, a ternura que me percorre é como a frescura da manhã, caminho solitária e seus passos são lentos como o gotejar da mais íntima fonte, nos olhos molhados trago a saudade, mas no coração, sempre a mesma sede de abraços...meu sorriso de murta e jasmim vai-se abrindo almejando seu desejo de horizontes, já fui esbelta e harmoniosa e hoje me surpreendo, o tempo a deixou de fulguração despida, cansada, mas grata à vida por  deixar-me envelhecer aguardo a noite que me traz sempre um sigiloso fogo d'alguma felicidade... ouço de novo o beber das palavras pela folha de papel, e uma luz fugidia desliza sobre o tecto dos meus pensamentos, aproxima-se e evade-se é a recordação a querer fugir-me, o peito aperta-se e eu permaneço imóvel no silêncio de destroçados muros, permaneço na espera que se abram clareiras e possa ser de novo flor imprevisível nascida das águas, ser sede, ser fragrância e de novo fogo e ternura para que possa inventar sonhos e ter tempo ainda de felicidade...quererei deixar pegadas na areia e se o vento as arrasar, sentir-me-ei cada vez mais indefesa, apagar-se-à sobre mim mesma, será o final sulcado pela morte...

natalia nuno

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sonho perdido...

 


é o passado que se desenha na aura deste pensamento em vôo nas minhas mãos... enquanto os meus olhos riem, treme a água no açude e eu criança, com um tremor de asas no sangue...no reino da minha infância, o silêncio e o vento rondando nas ramas, e o chilreio lânguido do pássaro, ignoro quem voa melhor se ele, se eu... juntos pelo acaso deste sonho meu... e o clamor da minha existência vai-se apagando num outono de recordações, a idade avança sob a oculta hipocrisia de que amanhã será melhor, enquanto vou caindo como folha moribunda numa tarde declinante de inverno hostil...porque há muito foi primavera resplandecente, em plenitude... esse tempo que recordo amiúde, como um sonho perdido para sempre.

natalia nuno

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a côr do outono...

 


hoje não ouvi o pintassilgo, talvez porque o ramo verde onde costuma pousar se encontra nu, não houve acordes de violino, e nem a minha mão indigente e cansada quis escrever palavras macias no poema onde eu pudesse o sol emoldurar... mesmo com a coragem a desabar... retrai a mim o silêncio e o coração descompassou, minha voz voltou à mudez, também eu perdi o ramo, irreparável descuido de meus olhos sombrios, entre a folha de papel e eu... poema feito ao acaso, muito breve e muito raso, com memórias cheirando a alecrim, pedindo que não esqueças de mim...quase... o tempo outra vez de ternura, fecho os olhos e logo a nostalgia a fazer doer! - - com a cor do outono e a maldição do tempo a passar, como eu precisava ouvir agora o pintassilgo tocando os acordes de violino para o coração ressuscitar... e tu, ousasses vir de novo me abraçar... enquanto meu olhar se perde no ramo que era verde...

natalia nuno

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