sexta-feira, 4 de abril de 2025

remota lembrança...



pairam as abelhas no rosmaninho
mas a casa está desabitada
as flores já não habitam o caminho
tudo é efémero, não resta nada

tudo perdeu força e intensidade
resta a saudade...

paira o cheiro a alfazema
e um vaivém de pássaros chilreia
e eu fazia um poema
enquanto a avó fazia meia

amanhã passa a procissão
vou engomar o saiote com ferro
- de carvão!

levantei cedo minha asa
e ao voltar não sei como calar
a falta que me fazem os de casa
que partiram para não mais voltar

já o pai não faz o baloiço
naquela árvore velha e adormecida
mas o assobio ainda ouço
como se a vida ainda fosse vida

os dias arrastavam-se sonolentos
nas noites chegavam as fragrâncias
estonteantes
e no firmamento estrelas prateadas
distantes.

enquanto a a luz da candeia tremia
- e se ouvia o relógio da igreja dar horas
o sonho alimentava a imaginação
das crianças, ao serão!

hoje tudo não passa de lembrança
que teimosa, não me deixa esquecer
ficou tanta coisa por dizer
dessa criança.

natalia nuno


quarta-feira, 2 de abril de 2025

caí exausta...



da tua ausência
continua uma ferida aberta
contra meu peito se aperta,
sinto na pele, cada vez mais fundo
solidão e carência.

quando surge a noite deserta
ressoam memórias de felicidade
e a saudade traz linguagem de flores
leva aos meus olhos o fogo
da ternura

um ar frio, esvoaça pelo quarto
porque razão te perdi
quando estou tão junto a ti!?
tua mão, é trémula amendoeira
alagada pela chuva extraviada
enquanto tudo dorme,
mais uma lágrima derramada.

quantos anos levei numa insólita
espera
quantas sombras cresciam
na minha mágoa
meu corpo adormecido
só de lembrar desespera,
e no olhar lê-se ainda a mágoa.

caí exausta
o dia de hoje em si mesmo
se desdobra
as sombras surgem de longe e de perto
tenho palavras de sobra
nas quais um melro sempre canta
no meu coração feito deserto.

natalia nuno
imagem pinterest


abrindo as palavras...




já se esfumam as recordações
memórias em esquecimento
já se diluem emoções
só a esperança traz algum alento

mistério a vida atravessa
hoje, amanhã uma árdua dança
mas sempre ao olhar regressa
a luz cintilante d' olhar de criança

passamos a vida à procura
dum bem que nunca se alcança
mas sempre um sopro de ternura
fica girando na lembrança


curto ou longo seja o caminho 
a esperança nunca se nega
até ser tempo que não adivinho
- de à terra,
 o corpo fazer entrega.

passam as páginas da vida
por elas passam meus dedos
ao presente minha mão estendida
que firme despede-se sem medos.

natalia nuno