quarta-feira, 21 de janeiro de 2026

mulher, amante




o caminho que não percorri
aguarda por mim
nesta etapa da vida 
a chegar ao fim.
prevejo tempestade
a viagem quase concluída
trago em mim a saudade
apoio inabalável que sonhando,
me leva ao ponto de partida.

patética mariposa
depois de tantos anos
não é uma loucura?
a distância ficou maior
despenhou-se a bravura
ficou a dor.
hoje acolhe a solidão
aloja-a no coração.

a vida pode dar e tirar
a vida é este instante
e eu sou da vida
ainda, mulher amante.

natalia nuno
imagem pinterest


agora sou a saudade...



o teu ombro ainda me apoia
meu coração é noite escura
habitarei no teu mundo de silêncio?

nasce a noite regressa o dia
olho-te, e meu olhar esfria
sobem estrelas e descem 
a minha solidão conhecem
e da minha janela ao vê-las
as minhas forças esmorecem.

vou sorrindo a quem me olha
e lembro bem quem partiu
agora sou a saudade,
quem me vê, e quem me viu!?
o tempo deita-se comigo
intempestivo, 
e como folha quebrada
ainda vivo, ainda vivo!?
minhas ilusões, uma por uma,
extinguem-se em onda de espuma
deixei os sonhos na juventude,
sonho com eles amiúde.

repletos de memórias
ouço-lhes os ruídos
trazem-me velhas histórias
que me contam horas a fio
aos ouvidos

a casa começa a desmoronar
pela raiz
o sonho como simples luz se reparte
e com arte, ainda me faz feliz.

natalia nuno/rosafogo
imagem pinterest






 

abulia da espera...




escuto o relógio na sua pressa de bater, enquanto meu coração numa angústia tatuada de poesia, bate lentamente, filtrando alguns enigmas da vida... cortei o fio ao sonho embora amasse a esperança, deixei-me na abulia da espera dum sonho que nunca chega...agora, o pulsar do estranho hóspede vai perdendo sua harmoniosa pulsação, lentamente vai ouvindo murmúrios inquietantes, e acometido desta cadência vai dirigindo o amor à vida que silencioso me envolve... esta melancolia dói-me na alma e vai talhando uma tristeza, onde eu criança me vejo a desvendar o tempo futuro, por enquanto as memórias nunca cessam de me vir à memória, as palavras adornam-me a garganta, sobrevivem enquanto nos amamos, cintilam desejos, é dia, há ainda claridade, sento-me na erva à luz sombria do loureiro e vou morrendo de saudade, mais um dia... enquanto fores a certeza que me acolhe, caminharemos juntos até onde o sol nos espera...


natalia nuno

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