sábado, 30 de outubro de 2021

devagar liberto o medo...



chega do mar a brisa,
e o sopro azedo do vento
e a vida precisa
de novo, o encantamento.
chega o Outono silencioso
com luz bruxuleante quase cega,
e o tempo sempre atento
me pega!
a vida é vasta ventura
é sonho não demora,
ah...esse tempo, faz tempo agora!

é hora, 
surge a morte com sua trama
o reverso de quem sonha, de quem ama,
e é tão mais triste
o poeta em mim morrendo,
vive morto a ver a saudade crescendo...

e dói!
sobe-me a dor à garganta, sufoca,
devagar liberto o medo,
liberto-me da aspereza da morte
e à sorte em segredo, 
sinto-me como ave que não sabe onde pousar,
agarro-me à vida que tem outras vidas
que procuro entrelaçar.

quero o tempo reter
enquanto puder
e depois devagarinho
seguir caminho
sem lamento, nem sofrimento,
talvez numa tarde de outono
como hoje, tocada pelo vento
e pela brisa do mar
apagar tudo do pensamento
bater asas e voar.

natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 26 de outubro de 2021

na memória das tardes...




na memória das tardes 
há silêncio constante
e um olhar distante
repleto de saudades,
ouço o voo das abelhas
e o trinar das andorinhas
fazendo ninho nas telhas.
absorve-me o pensamento
aquele momento
em que me enlaçavas pela cintura
era eu uma folha leve levada p'lo vento.

fingia que me eras indiferente
mas quase o chão me faltava
quando sentia tua ausência
de tanto que te amava!
sonhava encostar-me ao teu peito
perdia-me na suavidade do beijo,
hoje fecho-me por dentro
para não sofrer o desejo.
já a noite tomba e eu vazia,
esqueço tudo, até de mim!
como se fosse fácil chegar ao fim
deste dia sem de ti me lembrar.

livro-me das palavras
para não cair na tentação
saudade dói, finjo não sentir
mas a dor assalta-me o coração,
deixo-me adormecer nas memórias passadas
tinjo de côr estes meus pensamentos
caminho com as feridas disfarçadas
amanhã ganharei asas e novos alentos.

natalia nuno
rosafogo


sábado, 23 de outubro de 2021

rosas brancas em atados laços...


olho as mulheres cansadas de andar,
trazem no rosto o abismo da solidão
laboriosas a vida inteira sem parar
no sorriso já não existe emoção.

não tiveram asas, todos os sonhos,
vão pedindo á vida dias melhores
basta-lhes  olhar os filhos risonhos
e assim vão esquecendo as dores.

todo o caminho é um terço rezado
de cansaços,
flores onde o aroma já não tem perfume
rosas brancas em atados laços
a quem ninguém ouve um queixume.
é inútil esperar por melhor,
e se a vida tece algum laço d'amor,
depressa o desfaz e lhe causa dor.
na palpitação das horas
o sonho anda ausente
o desgaste é ferida dolente
urdida de tédio,
a vida é assim, não tem remédio!
é o sacudir da vida que chegou,
é a vida feita em pedaços
é um terço rezado de cansaços
já foram bonitas, foram primavera
rosas brancas em atados laços,
agora, nos dias menos amargos
ainda vibra uma labareda...

natalia nuno




quarta-feira, 20 de outubro de 2021

viver é bom demais...



meço a dor e o pranto
pela mesma medida
o amor a quem quero tanto
e a vida que me vai de fugida.
um sonho belo e vago
um beijo dos teus lábios
mesmo discreto, é bom demais,
esse desejo em mim trago
ébria d`amor vou suspirando ais.

uma noite como esta, de breu
lembro tudo o que ficou para trás,
meço a dor e o pranto meu
apenas ambiciono paz!
o pensamento tem força
mas nem sempre razão
às vezes, põe cinzento o coração.

encosto o peito ao peitoril da janela
olho o céu que me cobria de felicidade,
esse céu que me entrava pelas vidraças
que saudade... da estrela do norte, só eu e ela,
ai dor da saudade, quanto me amassas!
aguardo pelas neblinas matinais
ainda espero viver, 
viver é bom demais.

natália nuno
rosafogo
este poema foi começado em Abril
de 2006, hoje criei o final.



versos soltos...



eu sonho e sou livre
tão livre como criança
que em mim vive,
mesmo se a idade avança

o vento poderá estar
contra mim
mas levarei a esperança
até ao fim...

sou um ser de paixão
não me deixo vencer
saudade trago no coração
que vive e me deixa viver

tenho alma de menina
e um rosto sem nome
trago no olhar a sina
de poesia, a sede e fome!

no grito trago Poesias
nas olheiras trago idade
do desgaste dos meus dias
onde morro de saudade.

trago uma rosa ao peito
morrer é coisa certa!
com poesia me ajeito,
a garganta já se m´ aperta.

poemas sempre existem
foi sonhando que os criei
os sonhos, persistem?!
na solidão os  amarei.

natalia nuno
rosafogo
11/1988






sexta-feira, 15 de outubro de 2021

bálsamo do tempo...



a saudade traz o bálsamo do tempo
antigo, mergulho nela sem rumo
às vezes recua delicadamente
e a vida esvai-se em fumo.
em cada poeira varrida do nosso olhar
agitam-se as flores a cada momento,
sem nenhuma murchar,
esperança mágica, que nos afaga
o pensamento.
vazia de palavras, meu corpo já se rende
vergada ao fim do dia,
a luz fluindo na memória ascende
o sol é meu confidente
tudo é a meu favor
a beleza da tarde envolvente
e o vento ainda volteia no ar,
a memória de acordes a transbordar
e mais um dia a deixar saudade
e o sonho que eu amava?
será só ingenuidade?!
nada tão doce como o primeiro ardor,
estremeço, só de pensar
- nesse tempo d'amor.

natalia nuno

parte de mim...



é na escuridão da noite 
que mais cresce a solidão
que mais se sente a vida gasta
e mais dela o tempo me afasta
consumida vou p'la noite fora
com o resto de esperança que ainda
em mim mora...
é na noite que me sinto pouco mais que nada
tomara chegue a madrugada,
mas o negrume não tem fim
e um arrepio se faz em mim!
sonho acordada, a noite vai alta,
dissimulo que a tristeza não existe
talvez surja um momento de serenidade
se estou triste, não é por minha
vontade...
hoje estou ausente,
arranjei asas e voei
esqueço os silêncios da noite
também os ruídos do pensamento
talvez o sonho me acoite,
a vida não seja mais um lamento,
seja chama intensa
e, a minha mão de solidão
a tristeza vença.

natalia nuno
rosafogo