terça-feira, 2 de janeiro de 2024

inquietude...


reconhece o seu rosto
embora perdido o sorriso
a face é parede parda de inverno
o olhar indeciso
mas o sonho eterno!
contínua a esperança
e a aceitação da vida
relembra-se com ardor, criança

a insónia é constante
o rumor das palavras no pensamento
e um pressentimento a cada instante
que lhe traz desalento

o sonho, ou talvez a paixão,
não lhe deixa cruzar os braços
rasga o silêncio
esquece os cansaços.
traz inquietude sem sentido 
e o tempo melancolicamente 
confundido...

natalia nuno
rosafogo
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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

a aguardar mais um dia...



com cristalino alento
vou deslumbrando meus dias
antes que estes
chamem meu esquecimento,
faço do mar e da lua 
as minhas companhias

também as tardes nuas de verão
trazem aquele doce cansaço
quando o outono da vida
- é já só recordação
e o inverno avança mais um passo

e é na fronteira da noite
que a lua mostra,
um brilho de cisne luminoso
surge o vento enlouquecido, 
traz-me a quimera e nostalgia
herança do tempo vivido
na lívida luz que afoga meu dia!


natalia nuno
rosafogo






sábado, 9 de dezembro de 2023

esvaziei os sentidos...



estou perdida
trago em mim temporais
restos de vida vivida
com anjos e demónios
tão reais
o tempo não apaga 
minhas pegadas pelo chão
nem altera o que guardo
no coração.
no lado de dentro do peito 
sinto as coisas do meu jeito

esvaziei meus sentidos
pobre é minha poesia
pássaros estranhos aos ouvidos
e a insónia dia a dia
que agonia!

há-de chegar a primavera
diz-me o sonho que sonhei
lá estará à minha espera
a alegria que agora sentir
não sei.

natalia nuno
rosafogo
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

destino amargo doce...



para trás foi-me ficando
tudo o que desde criança fui
amando...
lembrando, os passos que dei
nem parecem meus
passam também pela lembrança
os passos perdidos, foi Deus
que assim quis que fosse
meu destino, amargo, doce.

tudo passou.
fiquei eu, árvore tenaz
das raízes obtive herança,
o tempo greta os meus sentidos
mas ainda sou capaz
de trazer sonhos
no coração escondidos.

cada vez mais depressa a vida
palavras, despedidas, madrugadas
silêncios, e tanto que amor dei!
hoje trago as palavras cansadas
restam-me as que por amor guardei.

natalia nuno


sábado, 2 de dezembro de 2023

queimando meu olhar longínquo



as nuvens andam embaciadas
o tempo cinzento
chega o negro das noites desoladas
tudo é incerteza e escuridão

e eu sem alento!

a memória atravessa recordações
meu corpo são ribeiros de veias
espelhando os meus segredos,
vou desnascendo as ilusões
caio na fronteira dos meus medos.

hoje sou uma tela derrotada
sou perdida paisagem sem remédio
tudo é incerteza e tédio, 
na escuridão
levo extenuado o coração.

ávida a vida se evade
eu arauta do silêncio, ouço
o eco insistente da saudade!

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 30 de novembro de 2023

quimera...



hoje escrevo versos de silêncio
calados cá dentro do peito 
cinzentos como a neblina do dia
vou amaciando-os ao meu jeito
nesta luz de outono
gritantes de nostalgia
que se despenha no meu corpo

desistem de mim as forças
o tempo flui e não pára
preciso de sol que me encandeie a pele
acariciando-me como doce mel

a vida é um barco de lenços acenando
que na fúria deste mar vai partindo
já pouco há que celebrar
a viagem findou
e eu com ela findo

na memória aprisionei o céu de Setembro
e o pôr do sol ao fim do dia
para ver se sempre me lembro
e se a memória não se extravia

a quimera nunca mais quis ser quimera
e eu sonho chegar à próxima Primavera

natalia nuno
rosafogo
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domingo, 26 de novembro de 2023

apenas a saudade...

uma nuvem negra desce
e na memória cresce...
a nostalgia traz a noite, a incerteza
de sonhos, ainda assim,
- a vida vai fluindo!
cálida, com matizes de velhice.

cinzenta sobrevivência, às vezes
com murmúrios e tolice.

velozes correm lágrimas 
em turbilhão,
despenham-se p'lo rosto
nascem rugas de solidão,

precipita-se uma avalanche de vento
e na memória crava as garras
pronta a levar-me ao esquecimento

as palavras acariciam minha boca
como a querer consolar-me,
louca, agastada na obscuridade,
fica então entre mim e esta folha
apenas a saudade!

entrego à noite minha loucura
gravito em espaço cego
escrevo sonhos de angústia e paixão
e de repente cai no vazio
a imaginação,
fica a face do silêncio
- tudo é incerteza e escuridão!

natalia nuno
rosafogo
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