quinta-feira, 26 de outubro de 2023

entre o desejo e o nada...

as minhas mãos bocejam sem 
remédio,
até meus olhos me mentem
mostrando fadiga,
ou será tédio?
escuto a sede do minha mente
martelando incessantemente



olho-me ao espelho com
descrença,
o mundo envelheceu
e também eu!

estou entre o desejo e o nada
talvez seja negação,
sinto a ponta da agulha gelada
caindo... no coração?!
há um rumor triste neste quarto
que é meu mundo envelhecido
o tempo corre e eu dele me aparto
pressinto as cores escuras do Outono
chuva de folhas como o passado
vivido...

como papoila golpeada pelo vento
assim vulnerado, trago meu alento.

natalia nuno


terça-feira, 24 de outubro de 2023

tudo se imagina ainda...


procuro algo que assente
bem nos meus sonhos
onde assome um pouco de felicidade
caprichosamente o coração sente
falta de dias risonhos

afaga-me uma voz misteriosa
a saudade!
não sei bem o que escolher
vou navegando neste veleiro
que é minha vontade.

parar é morrer!
e o sonho é persistente
nem sempre se esfuma,
nem as quiméricas lembranças
que são minha intimidade
vão da memória esmorecer

procuro a andorinha que traz
o esplendor da manhã,
procuro a paz, 
por entre a ramagem
onde possa beber o sol

procuro as estrelas
que assomam na viragem do dia
ou o doce da tarde, a nostalgia,
hora em que a ternura se faz tombar

e a saudade me deixa cânticos pelo ar.

natalia nuno







sábado, 21 de outubro de 2023

sonhei estar de volta...



há flores que ressurgem sempre
numa manhã de primavera
e há odores de frutos amadurecidos
à espera de serem colhidos
no olhar, uma luz que passa
e não volta mais,
e hora a hora, a morte nos espreita
e um não, não aceita.
nesta tarde que é apenas a tarde
de mais um dia,
não há rosto que sorria.

como vai longa a distância
nem é sábado, nem domingo
visto roupa adomingada,
dou comigo, indo à oração
logo a lua prateada
me leva p'la mão...

meu sonho enlaçado no nada
diz-se de boca em boca
que voltei!
o querer faz acontecer
e eu, leve como a aragem
estou em casa de novo,
volto a ser, a menina do povo.

natalia nuno
rosafogo



imagens d'água...



nos montes o ouro queimado,
faz o sol a despedida
na mente um espaço fechado
guardando lembranças da vida
um ar frio, esvoaça a cortina
dos meus olhos,
lembro a menina que se banhava
no rio...sua saia aos folhos.

o olhar perde-se na vastidão
esgota-se na distância
saudade, 
sinto-a, permanecer no coração
saudade que vem da infância

vão e vêm imagens d' água
vai e vem a minha mágoa
minhas veias quase a estalar
e na mão que escreve livre
vive um melro

a saudade a chorar!


natália nuno
rosafogo








terça-feira, 17 de outubro de 2023

ri a murta e o alecrim...

 hoje dormem em mim




todos os rouxinóis
chegam-me sonhos com a frescura
da manhã, ri a murta e o alecrim
sumiram todos os sóis,
- e eu sem saber ao que vim!?
despem-se meus dias de fulguração
vai-se diluindo a alegria antiga
morre mais um pouco o coração.

as palavras hoje, são ínfimas e poucas
prefiro ver-me em teus olhos e sentir
as coisas loucas
de que nunca vou querer fugir.

natalia nuno

sábado, 14 de outubro de 2023

pedaços de vida...

às vezes olho a paisagem 
como quem olha quase 
com um adeus definitivo,




com a nostalgia do passeante
solitário, que dela é amante.
olho tudo onde minha vida ardeu
como se fosse o último encontro
olho as ruas soalheiras
e ainda ouço o passo teu

surgem as recordações do começo
na minha impávida memória,
e ainda nelas me reconheço,
leio as gastas cartas de amor
que fazem parte da nossa história

nos rostos que se cruzam,
rememorando vejo o teu e o meu
agora, com o ar cansado dos velhos
quando nos olhamos nos espelhos
o tempo passou sem piedade, 
envoltos em esperança
invade-nos a saudade 
- é o desejo d' amar!
o coração não se rende
ainda à vida nos prende.

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 12 de outubro de 2023

palavras de fumo...






escrevo-te palavras que se perdem por aí,
enquanto a noite avança
a recordar momentos que vivi
e a saudade me perturba
e sempre me alcança.

meu mundo era entre teus braços
tanta vez procurado,
os cansaços esquecia
e o amor resplandecia.

com o corpo recuperado
era o fogo secreto da noite

resgato do esquecimento
palavras de fumo
que conheceram a ternura ardente
hoje me sinto sem rumo
foi-se da alma a alquimia 
e na mente restou a lentidão

as primeiras folhas caídas
na minha mão
e a amargura, neste papel solitário.

natalia nuno
rosafogo
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