domingo, 29 de novembro de 2020

poema sem coração...



dentro de mim mesma rebusquei
um pouco de claridade qual milagre,
pra esquecer a solidão
em que na escuridão me tranquei
flor mirrada, ressequi ao acabar
o verão.
não me procurem na poesia
que ganhei asas e parti desta monotonia,
quero ir além dos sonhos onde nunca vivi
quero ser como o orvalho que se deita
livremente na relva, acariciando
quero ser o vento silvando,
que a minha força se erga outra vez
quero ver o cintilar da luz na água
e depois talvez, esquecer a mágoa
sou um ser inquietante no poema
as metáforas, rasgaram-me a emoção
não quero ser eu o tema
dum poema sem coração

ponho as mãos em descanso
e às letras dou liberdade
na direcção além do sonho avanço
deixo fluir a saudade.

natalia nuno
rosafogo



voltar a sorrir...



a saudade tem sempre uma lágrima
às vezes feita de mágoa que a enfeita
mas no coração sempre ela se ajeita.
trago a saudade ainda a chorar
da vida e do tempo da juventude,
trago-a na memória a ecoar
o choro que vai no coração, amiúde.
sonhava eu enternecida,
sonhos rosa, plenos de ventura
pensava ser por toda a vida
que a vida, assim vivida
eu tinha segura.
embalada num sonho empolgante
meu viver era pura singeleza
como tudo ficou longe,
- bem distante!
sem certeza, vivo agora da esperança,
e o sonho imenso é agora vago
dentro de mim sonhando a criança
e o sonho dela, que não apago.

«na cálida tarde a luz reverbera»
partem os pássaros sem se despedir
voltarão talvez na primavera
e no teu abraço ensurdecedor, ainda
hei-de sorrir.
debaixo deste céu cinzento
a memória move-se livremente
o pensamento vagueia por um trilho apagado
difícil é trazer a morte na mente
e o coração de sombras devorado.

fico procurando a minha paz
«na cálida tarde a luz reverbera»
com asas de pássaro ainda sou capaz
de chegar saudosa, à próxima primavera
deixarei as minhas angústias morrer
a saudade de novo me fará sonhar
o sonho, de criança antes de adormecer.

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 26 de novembro de 2020

conciliando a vida...

 

hoje estou como as águas do rio
numa manhã calma,
calmo está meu coração e minha alma
o tempo vai mudando a sorte
e ninguém sabe quando o vento
virá de norte...e trará meu desnorte.
hoje escrevo sem saber porquê
olho a nuvem que passa, só ela me vê!
podia falar de solidão, de sonho ou de medo
mas o dia é risonho, e eu, o atravesso
de olhos bem abertos, e esqueço
esse pesado fardo que me suga a alma,
trago em mim uma erupção de sentimentos
um silêncio abrandador me  acalma.

são muitos os nós do esquecimento
mas há lembranças que se sobrepõem
com luz, que eu não deixo apagar
vivas, no limiar do peito, onde a treva
ainda não entrou, e não me leva
ao desespero.
aguardo e, como árvore que floresce
fico na esperança que a primavera regresse
um pouco, a este amargo outono.
hoje até o amor que andava vago
no crepúsculo do coração,
voltou sereno como um lago
com vontade de cantar as folhas ruivas
caídas ao chão, 
lembranças antigas tocar-me-ão
tudo me será familiar, então, valerá
a pena sonhar, com o que ficou lá atrás
entre os limos da memória cansada
e procurar ser feliz até ao fim da estrada.
o tempo o corpo devorou, como se me ferisse
mas eu ainda aqui estou,
a vida vai adiando a descida, 
risonha como o sol que incendeia a manhã
assim estou, porque o amor não se apagou.


natalia nuno
rosafogo

domingo, 22 de novembro de 2020

doce ilusão...

 



o anoitecer trouxe um tom alaranjado, 
faz-me imaginar o inimaginável,
alarga a imaginação e até mesmo o coração
nas jarras há flores que choram
num pranto sentido
olho-as com uma expressão vazia
chega a noite, vai-se o dia.
com a respiração suspensa, num inventário
de recordações, mantenho-me embrenhada
na teia duma vida passada.
agora já tudo é escuridão 
as estrelas pontilham o firmamento
uma rosa vermelha cai ao chão
à vida um enaltecimento
por tudo que lhe dera, até a doce ilusão
de ser Poeta.

abrando os pensamentos de lembranças
penosas, e  com o olhar fixo e sombrio
olho as rosas, nas jarras, neste silêncio
devastador, lembro noites prenhes de intimidades
e amor... despertam em mim saudades
aquietando tudo o mais!
lembro as cartas d'amor, atadas com fio de juta
cheirando por demais, a tristeza e alfazema
algumas escritas e não enviadas
comunhão de sentimentos, em noites consteladas.

hoje os dias têm pouco significado
mais parecem devastados p'lo vento
ninguém sabe quando a hora do crepúsculo
lhe corta o pensamento.
as minhas mãos já não colhem rosas, nem molhos
de alecrim, apaga-se o dia
começa a noite em mim...

natália nuno



surpresa...

Poesia que me dedicou um estimado amigo, João Raimundo, brilhante Poeta.

 RESPIRAR POESIA XXIII

*
a sonhar se fez Mulher
Natália como uma flor
em cada poema constrói o Ser
em cada verso renasce seu valor
jrg

domingo, 15 de novembro de 2020

resta viver de saudade...



o sonho é vã quimera
à espiga murcha se assemelha
tenho a velhice à minha espera
quem lhe disse 
que queria ser velha?!
miragem e sonho meu
diz-me que não é verdade
que nada aconteceu,
no rosto, apenas trago  saudade.

as árvores ficam de pé
e eu não quero cair ao chão
morrerei se não tiver força, nem fé
brinca o sol no além e eu sem ele,
no coração.

trago minhas mãos pesadas
das linhas que nelas correm
dos anéis andam cansadas
hão-de morrer, 
eles não morrem!
olho antigas fotografias
nas quais eu sou tão jovem
e é certo que nestes dias
com saudade, meus olhos chovem.
enxergo raios de luar, mas vejo meu rosto triste, 
já não sei se sorri ou não
só sei que no peito, ainda bate o
coração disposto a amar.

espio o fundo do meu ser
para ver se resta alguma vontade
de alma vazia, não quero viver
resta viver da saudade.

natalia nuno



julgo entender, ou talvez não!



esvoaça louco meu coração
partiu, para onde não sei!
só sei que de amor sofreu desilusão
mandei que ignorasse o amor
e de novo me enfeitei
esqueci o amargor
logo outro mor encontrei.

guardei-o só para mim
tapei-o com folhas de outono
assim chegados ao fim
apenas teria um dono.

mas que ideia foi a  minha
querer mantê-lo nesta prisão
mas quem é que adivinha?!
quanto sofre o amor no coração.

julgo entender, ou talvez não!

natália nuno
este poema faz parte dos primeiros
que criei há bons anos (2001)