sábado, 31 de agosto de 2019

volto a ser rio...



a amarga flor da saudade
traz lágrima que desce pelo rosto
curva-se este até os joelhos tocar,
e traz à vontade, a vontade de adormecer
sem tempo nem medida
e, calar a dor, desta saudade sentida
o rumor seco dos ventos,
uma ausência infinita,
as mãos caídas no ventre
num adeus mudo que a saudade
faz crescer de repente.

há sempre uma ânsia em mim
a pernoitar
volto a ser rio, como se ainda não tivesse
secado, deixo-me ao mar levar...
aceito este meu fado,
sonhos e alegrias ardem, na cegueira
das utopias...
e na passividade dos dias
que são uma eternidade,
de enfado, deixo  na saudade o pensamento
abandonado,
na alma é sol posto,
a névoa encobre  meu rosto
e o coração bate num silêncio agitado.

ainda assim, perdida num mundo sem espaço
quero sentir a terra de pé descalço
a ternura pelo cantar dos pássaros quero sentir
e brindar à vida enquanto ela em mim existir.

natalia nuno


segunda-feira, 26 de agosto de 2019

libertação...



sinto-me solta na imensidão das palavras
perco o frio que à alma andava colado
e a vida em mim se ateia
e tudo vem à ideia
corre um tempo de memória, como
um encontro marcado, e um abraço estreito
dum amor que trouxe ao peito
liberto-o no sonho da viagem,
não ficou nada por dizer
junto ao peito só fez paragem
ficou tudo por acontecer.

e lembro este amor com ousadia
sem arrependimentos, com uma certa nostalgia,
ficou a sombra desse raio de sol
na memória que já se esboroa
vapor de água que escoa,
doce libertação nesta escrita
do que ainda sinto no coração
volto a ser daquele tempo
escrevo poema sem fim
com ilusões e verdades
poema a morrer em mim
nas traças das saudades.

natalia nuno
rosafogo
imagem pintarest




quinta-feira, 22 de agosto de 2019

e no tempo que sobra...



este vagar a que me entrego de corpo e alma
este doer que abraço sorrindo
esta chama a chamar por mim, saudade!
toda esta emoção vindo de verdade,
é poesia, ou remoinho de luz
ou o florescer das flores logo que é dia.
a minha alma a morrer, ainda
é plantio de amores no chão destroçado,
deste meu coração...
até que tenha um sopro de vida
não abandonarei o sonho
e no tempo que sobra
viverei sem medos, caminharei afoita
mesmo sabendo que a morte me cobra.

minhas mãos foram de afagos
cansaram de bordar sentimentos em poesia
nas manhãs orvalhadas, onde meus olhos eram lagos
e íntimas as saudades que com magia versos concebia
 infinitamente doces,
de suaves e nostálgicas lembranças.
perco a noção da hora e vou pelo tempo fora
a sonhar esperanças,
apesar de tempo adverso
eu caminho e me fortaleço
trago a felicidade na emoção dum verso
na serenidade do pensamento
no entusiasmo com que teço a vida a cada momento

um dia o tempo me há-de entender
caminhámos lado a lado,
quando meu corpo não estiver mais acordado
e a saudade de mim, à porta lhe bater...

natalia nuno
rosafogo


domingo, 18 de agosto de 2019

nas horas vazias...



entrego-me à lembrança e fico absorta
a vida é tudo, é nada
entrego-me ao sonho nest hora morta
a vida é isto, chorada e amada, por mim
mais um sonho sombrio que a mente incendeia
nesta noite imensa que não tem fim
um mar de venturas e desventuras
que no coração fazem teia
na escuridão da noite tão escura
desmaiam estrelas no céu
em mistério os ventos me envolvem
trago saudades d'alguém
que um dia nasceu
e os sonhos não me a devolvem.

e assim vivo num lembrar permanente
a vida que foi tudo e agora é nada
sou agora nuvem que o vento esfuma
com o coração que ainda sente
até que a morte o consuma
nesta hora serena em que espero tão pouco
meu sonhar é ilusão e ventura
e por amar sempre este desejo louco

alteiam-se os versos nas horas vazias
e nascem plangentes minhas poesias.

natália nuno
rosafogo

sexta-feira, 16 de agosto de 2019

até o dia ser noite...



é bom escrever para quem sente
a mesma nostalgia
o mesmo sonho, a mesma ansiedade
é bom sentir que nos ouvem em poesia
e que esta vive da nossa saudade
fazer à vida exaltação
exaltar a natureza e a beleza que é sentir
o amor no coração.
só se é grande se houver humildade
se, se ouvir a voz dos seus sentidos
ser transparente como manhã de claridade
ir às raízes profundas buscar a fragrância
e a saudade dos nossos jardins perdidos.

é bom escrever para quem sente a harmonia
que há no dizer e pensar dum poeta estranho
na palavra ora doce, ora aguda e fria
ou com o ardor do sol, calorosa, e sem tamanho

por isso eu escrevo e estremeço
e deixo meu coração em brasa sobre os versos
acendo meus sonhos e mal adormeço
- sinto a poesia
a trazer-me a voz crespuscular do anoitecer
ao meu lento adormecer.
depois não há noite nem dia, apenas sonho
e poesia.

natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 13 de agosto de 2019

a tocar-me os pés o estio...



que faço com as asas se findou a primavera
agora que me vejo consumida pelo inverno
na penúria da espera,
na esperança de mais um dia de vida?
no repouso das tardes as ideias
prendem-se na teia da ansiedade,
que fazer com as asas, se vivi dia a dia
de saudade?
cansada dos dias serem só cansaços,
das sombras renascidas nas paisagens
desfeitas dos meus olhos,
da cegueira de ainda ter esperança,
de reaver  abraços
que me foram dados em criança.
no interior do peito o vazio
como estar viva sem ter vida,
caminhar horas cinzentas sobre o gume do fio
e a porta do sonho estivesse adormecida.

vou perguntando e ninguém responde
nem os espelhos, nem os pássaros do rio
não sei por onde ando, por onde?
se os meus passos são esquecimento
e a tocar-me os pés o estio.
minhas asas caídas são lamento
há em mim somente uma imprecisa alegria
epifania profunda fervilhando poesia.

natália nuno
rosafogo
imagem pintarest






domingo, 11 de agosto de 2019

dei-me à vida...



dei-me à vida
e de mim trago saudade
acordei a solidão,
agora que estou de partida
aceito a realidade
como se fosse ilusão.
conto os meus cansaços
e sem apressar os passos
aceito a condição.

digo o que penso e sinto
com palavras vindas do peito
e às vezes dialogo comigo
e não minto, se disser que a vida já não leva jeito,
é um beco sem saída...
as coisas que também sei
é que à vida me dei
mas eu sonho quando anoitece
e o sonho ainda acontece.

olho o mar, olho a montanha
partirei sem nada levar
só uma saudade tamanha
deste tempo em que a morte me poupava
e eu não hesitava um momento
e a vida não parava.
e eram poucos os meus braços
e minhas mãos eram poucas
para gratuitamente dar abraços
para matar saudades loucas.
depois de corridas tantas léguas
trago o corpo descaído
mas à vida não dou tréguas,
valeu a pena ter vivido.

natália nuno
rosafogo