sexta-feira, 8 de março de 2019

na minha inquieta escrita, goteja a saudade...



trémula permaneço a forjar
a minha inquieta escrita
uma luta que vou entremeando
com o silêncio que me escuta.
vou tentando adivinhar e decifrar
se esta solidão obstinada e fria
faz pulsar meu coração,
ou se me mortifica
se é lágrima ou sorriso o que em mim fica
uma lágrima que ama, ou o amor
que por mim chama
cada palavra reclama o fim da loucura,
e permanece em mim como uma ameaça
esta força inteira toda a noite dura,
enquanto o pensamento roda
com demasiada usura...

a solidão viola o meu sentir
faz rodopiar a mente,
p'la madrugada ouço a voz do vento a reclamar
que meus sonhos hão-de vir, hão-de voltar,
e é neste mar revolto que do mundo esqueço
desço na noite, ignoro, mas respiro a vida
e lá vem a arrebatada saudade
curar-me  da solidão a ferida

uma luz mortiça desliza na minha obscuridade
na minha inquieta escrita, goteja a saudade.

natalianuno
rosafogo



quarta-feira, 6 de março de 2019

na sombra do sonho...


é num adejar de pomba
que a vida se some
e neste rosário de palavras
a saudade me consome
e é assim até ao testemunho da aurora
quando a noite me entorpece o pensar
e o sono não chega na hora
posso sentir a quietação da terra
e é como uma teia de amor que tudo envolve
vou escrevendo, meus dedos são asas de beija-flor
sobem muros os meus sonhos
e a vida parece ainda esperar por mim
com dias risonhos, e meu peito se expande
num bem estar sem fim...

tempo sem tempo,
faço das noites meus dias
e é lá que logo o sol regressa, trazendo
aromas à minha fonte e frutos às minhas mãos vazias
nestas horas despidas, ouço minha própria pulsação
a saudade percorre o meu sangue,
vai crescendo como uma sombra
e bate forte em meu coração

as palavras caem germinantes no papel
numa melodia constante até ao sossego
resvalam entre os dedos, esbeltas em cântaros de mel,
ali fica o meu desassossego, parte da minha vida
a extinguirem-se num sonho maior
a noite me olha e me despe
e num breve clamor de pavio
me leva à outra margem do rio.

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

o negro da noite...



o ressoar das palavras toca o meu silêncio
e a solidão o sossego da minha alma
a saudade estende-me as mãos tão perto
que sinto-me perdida e detida no seu eco,
a vida é um beco
sempre pronta a ser-me ruim
roída de desejo, querendo emudecer
a minha memória, respiro no ar
o desdém que quero esquecer,
neste rosto que os anos gravaram
há uma angústia sustida
rosto invernal, no inverno da vida
queimo o meu olhar no longínquo
quero esquecer a que me nega
e evadir-me deste vazio que me pega.

o silêncio me olha
sinto minhas mãos impassíveis
ouço o tiritar da sua dor
numa angústia mais que certa
mas, vou inventando o amor
e ausento-me assim deste poema
que criei só para mim
apagou-se no tempo a menina sonhadora
quem conseguirá escutá-la no seu lamento?
nunca serei inteiramente esta que fez de mim prisão
quero ser essa menina perdida ao relento
livre como folha que esvoaça sem direcção
mais viva a cada pulsação...

natalia nuno



quinta-feira, 7 de fevereiro de 2019

enquanto a noite dorme...



hoje não escrevo palavras de sonhar
lavo as mãos no rio deixo-me banhar pelo luar
vou semeando em liberdade
como areia a deslizar, palavras que
vão falar-vos de saudade

quebrei de tanto remar
trago a alma desistente
como barco a afundar,
mas a minha mão não se detém
vou semeando em liberdade
aqui e além, palavras que
vão falar-vos de saudade

a curva do tempo é apertada
o inverno apresenta-se sem renovo
a vida é água passada
com laivos de choro e de riso
agora, pássaro que não voa
sem asa, nem paraíso
vou fazendo o meu caminho
dialogo com a minha idade
e como pássaro que não volta ao ninho
venho falar-vos dessa saudade

teimosa esta mão que escreve
linha a linha, palavras q' são esperanças
sementes que ainda hão-de florir
aguardam o porvir, em tardio outono
darão frutos... passará a ansiedade
depois já não venho falar-vos de saudade.

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 15 de janeiro de 2019

coisas que a noite urde...



cerrei as janelas dos olhos
e o sono diluiu-se
numa espécie de paz,
como um rio que corre
paisagem afora
tranquilo, na sua viagem
solitária...
olho os altos e direitos pinheiros,
no seu silêncio, sua imobilidade
entornam sobre mim a nostalgia
e tanta saudade
hoje a aldeia está luarenta
e o luar me tenta
meu sonho é uma fogueira a arder
oiço vozes das mulheres, uma sinfonia
e a recordação enche-me de alegria
horas amargas, horas doces
lembranças erguem-se do mais
profundo de mim
e o luar chega por fim
a rasgar-me o esquecimento.
agora, sobre a aldeia adormecida
o céu veste-se de cinzento
é  madrugada e eu acordada
alheia em meu abandono
a escutar a noite calma
até à chegada do sono.
quem pode saber o que me vai na alma?

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 9 de janeiro de 2019

desço a ladeira sem pressa...




havia uma ladeira em declive
lá em baixo o rio e as flores
que eram brinquedos, bonecas que nunca tive
flores de todas as cores, como o futuro
que imaginava enquanto no rio lavava
não há imagens que eu esqueça
existo ali, toda eu sou alegria
existo, em sonho assisto à beleza
da natureza pura alquimia

desço sem pressa a ladeira
o rio me espera encharcado
até hoje namora o salgueiro ao lado
a tarde já recai, regresso à eira
onde um pouco mais de sol e mais de vento
torna tudo um acontecimento
malham o trigo os malhadores
rapazes novos a pensar no casamento
nos amores, será a alegria certa
e serão abençoados,
trazem os dias contados
a noiva levará o véu
e o rio espelhará o azul do céu
recordação que doce se entranha
e toda a vida nos acompanha.

já as sombras caem, as primeiras
estrelas se acendem
meu coração em agitação
e meus pensamentos ao sonho se rendem
e ninguém sabe até onde vão...

natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 8 de janeiro de 2019

livro que ninguém leu....



o coração vive de ilusão
embalado de nostalgia
como uma vela que se apaga
assim passa mais um dia,
e quando o olhar se alaga
faz lembrar uma tempestade de verdade,
que trespassa a memória
corrói as entranhas até não sentir
mais nada, ficam os sonhos na almofada
e alastra um gemido no escuro
depois, apenas o respirar no silêncio duro
se escuta,
perdidas as  esperanças, perdida a luta.

sou agora livro antigo, ninguém leu
um oásis de memórias que adormeceu
não há saída não
meu coração vive de ilusão
apagou-se tudo da memória, até os lírios
nas imediações me olham tristes,
a cada entardecer debruço-me nos lambris
das janelas, pousam as andorinhas em frente
espiam-me como se soubessem de mim e eu delas
há vasos vazios nas escadas, vidros partidos
cortinas desbotadas e portas sem fechadura
que importa, quem lá vivia morreu d'amargura

o céu hoje é mais azul, azul é tranquilidade
dia em que se envelhece ou morre de saudade
pensei-me menina com sonhos e risos
que não consentem partir, mas e
o medo da morte, tenho medo de dormir,
medo até das folhas agitadas pelo vento
tenho medo, que meu céu fique cinzento.

arrumo os medos e as lembranças que me ferem
levanto-me mais uma vez,
ainda há dias de alegrias invento-me
menina nos teus braços,

natália nuno
rosafogo