quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

esperança...



pode não ser hoje
nem amanhã,
podem adiar,
podem até negar
mas os meus versos
encontrarão o que o coração
me diz...

neles o aroma duma infância feliz!
a claridade que fui
o rosto da primavera
a dor da recordação, a espera
do amor,
nos lábios o murmúrio
de tudo que o tempo talhou em mim
a tristeza, a saudade
e seu mistério,
o amar até ao delírio...

meus versos por fim
serão levados a sério
- e logo a vida me deixará a mim.

natalia nuno
2001/5

domingo, 6 de fevereiro de 2022

tantos anos vazios contemplam o espelho...



tantos anos vazios contemplam o espelho
ruas longas num rosto velho,
tudo se cruza ante seu olhar
como num lento adeus,
como um caminho a terminar,
com a nostalgia de quem perdeu
os sonhos seus...
olhar apagado, transtornado,
nem o espelho velho lhe dá esperança,
do retorno desse rosto que amou
desde criança.

nada devolve a a imagem
é um adeus definitivo
este é o último encontro
desta viagem, 
passa o rumor do vento, e neste instante
o vazio entediante, da vida.
agora que tudo se distanciou
sente-se perdida
depois do caminho percorrido
resta-lhe recordar sem ilusão
e poder voltar ao tempo vivido,
que traz ainda na mente e coração
escreve palavras que se perdem
cruza as noites que conheceram 
uma ternura ardente
segue em frente a saudade a sustem,
irá mais além,
definitivamente esquece o espelho
e o rosto frio, 
não se deixará cair no vazio.

natalia nuno
rosafogo






sábado, 22 de janeiro de 2022

pedaços de recordações





a memória recorda e nega
que o tempo passou,
e à memória sempre chega
a quem tanto se amou.
de repente surge o passado
com seu familiar odor
e o corpo sobressaltado
sorri vencido, lembra o amor.

o tempo tudo apaga
é esta a cruel verdade
e logo o olhar se alaga
porque o coração não tem
-quem o  aguarde...

sente-se do tempo a avidez
só a memória oferece longevidade
a realidade  mostra a sua nudez
crescem as sombras, resta a saudade

natalia nuno
rosafogo
poema de 2008


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

palavras que se perdem...


em pequenas coisas, ponho minha emoção
com uma esperança enorme, deixando a memória
lembrar, porque estás no pulsar
do meu coração,
ouço o som dos teus passos
som sempre presente no pensamento
angustia-me a falta dos abraços
é melancolia sentida neste momento.
a vida às vezes se extravia
enquanto damos asas ao desejo
e lá volta de novo ao coração a nostalgia,
lembrando um abraço, um ou outro beijo

há pequenas coisas que ocupam o presente
e outras que não se apagam da memória
de momentos enfeitiçados
instantes da nossa história
ao tempo confinados,
caminhamos, lembrando só o lado generoso
a que dizemos adeus,
o gemido do amor fica à distância
segredos meus e teus...

ponho no olhar uma flor comovida
que te abraça com seu aroma
para esquecer como a vida
se tornou agressiva, e nos toma
a minha boca soletra restos de verão
mas o inverno já na garganta se despenha,
uma centelha de quando em quando sobressalta
deixando um rasto gostoso, antes que a morte venha.
estranhamente ainda respiro e escrevo
a inquietude das metáforas me põe louca
não sei se devo ou não devo
através delas, sonhar ainda, com beijos
da tua boca...

natalia nuno
rosafogo

sábado, 15 de janeiro de 2022

sol morno da tarde...



num amargo silêncio, fico ensimesmada a pensar no que não retorna, só o sonho me entreabre a porta, e me deixa avistar de relâmpago o meu antigo rosto, levanta-se a recordação que permanece na memória como o canto duma ave, e assim,  por longos momentos, a saudade faz poiso em meu coração, a vida e o sonho fundem-se com o livre horizonte, enquanto o sol morno da tarde roça a minha fronte...fico íntima do universo, penetra em mim a nostalgia e escrevo mais um verso, surge a magia de não perder a esperança, de aquietar em mim a criança, de apagar as sombras do dia, e o sonho é toda a minha existência, ainda que seja tão somente um pouco de luz que brota, o mistério duma essência, ou me traga uma doce recordação, o sonho será o rosto ausente que guardo na mente e no coração.

natalia nuno
rosafogo

domingo, 2 de janeiro de 2022

flor murcha...



a tua boca de cerejas viçosas
com sorrisos e sabor tão doce
são a tentação de todas as rosas
que mais queria, só minha fosse.

pede-me o corpo que já declina
e tem do inverno a austeridade
exalta o desejo voltar a menina
esgota a coragem, surge saudade.

perco o olhar, lânguida vastidão
apagam-se os dias sem surpresas
nada procura nem espera o coração

das poucas palavras inda por dizer
já não há nelas nenhumas certezas
só anseio de quem flor não pode ser.

natalia nuno
rosafogo

sábado, 1 de janeiro de 2022

contigo por perto...



trago sonhos guardados
num beco da memória sombria
sempre por mim lembrados
nos silêncios do dia a dia,

por entre nuvens dum céu cinzento    
quando o chão quase me falta
abrando no silêncio o coração
que quase do peito me salta.

aos poucos esbate-se na memória,
o caminho que ousei percorrer
como a vertigem dum voo
que só eu posso entender

na imaginação distante
há como que uma musicalidade
e quando a lua aparece
contigo por perto, sinto de ti saudade

guardo o som que é meu segredo
e embalo a memória nesse encantamento
vai-se a tarde, anoitece cedo,
e eu neste enfeitiçamento

vejo passar serenamente a tarde
meus olhos estão cheios de lembranças
doutros entardeceres
o coração ainda arde
com o amor que inda me deres.

natalia nuno
rosafogo