terça-feira, 23 de maio de 2023

longo caminho...



esta minha vida inteira
é agora um céu de sóis furtivos
sem constelações alegres
nem sonhos vivos.
trago os sentidos sobressaltados
numa inquietude que me arrasta
para uma obscura solidão,
turva a minha visão
e leva-me p'la mão.
faz-se sentir o peso dos dias
não é fácil deter o tempo fugitivo
nem o desassossego que ferve 
em meu coração,
e assim vivo 
com lavareda que me cega
e o esquecimento já me pega.

já não sei, se é o tempo que me ensombra
ou a mente que não quer recordar,
ou os anos sombrios que descendem
sobre a minha orfandade
em momentos de saudade.


natalia nuno
roafogo
imagem pinterest

quarta-feira, 17 de maio de 2023

grão a grão


como água em debandada
foi-se a minha alegria
lágrimas à beira do vazio
nos confins sem tempo
vai a minha estrada...
e eu tão só na nostalgia,
simples o resumo da vida
que voou entre meus dedos
intensa, dizem as linhas da mão
ora oásis, ora deserto
- grão a grão, sem medos.
ouvindo o sangue à distância
na janela de par em par aberta
do coração de criança, sempre
alerta...

como água em debandada
agora mais negra, mais cansada
 -vida é só já, chapinhar!
com desolada luz me alucina o olhar
já não sou a menina, trago dedos
de solidão e a saudade
que floresce feita obstinação.

natalia nuno

segunda-feira, 15 de maio de 2023

ecos vazios...



vagueia a memória numa rajada de vento
até ao último suspiro, até ao esquecimento,
restam as palavras que invento
foi a vida ora tranquila 
ora triste e incerta
rotineira, e ainda assim tão fugaz
como vento que me desperta
me atira para parte incerta
de onde fugir, não sou capaz.

final tortuoso, onde deixei de ser
para apenas parecer.
e o vento murmura para si
«lamento mas esta estrada abrupta é para ti»
ecos vazios ao relento
e cá dentro, um perfume de ansiedade
e a bater, um coração de saudade.

nnuno


sábado, 6 de maio de 2023

inspiração...




a vida deu-me inspiração
então, escrevi até mais não,
até cansar,
mas o mar e o vento
habitam meu pensamento
e esse mar tem algumas marés
em que lembro a despedida,
imagino o destino final
como uma paisagem despida.
sinto forte emoção
que tem sido duradoura
na busca de alguma felicidade,
sabendo de antemão
que a felicidade, é como comida farta
e na hora mais sombria
é quando ela se afasta, 
surge então a nostalgia
com mordedelas de amargura
dos sucessos e fracassos,
e das lembranças de ternura
escrevo urdiduras paralelas
sigo na sombra de meus passos.

n. nuno



sexta-feira, 5 de maio de 2023

ela sabia...

 


ela sabia,

que a vida é caminho que termina
tudo que escreve é nostalgia
que traz com ela desde menina
ela sabia,
que a vida vai para trás ficando
é como fogo que perde a chama
sombra que no rosto vai alastrando
nela se reconhece porque ainda a ama.

ela sabia,
que a vida passaria a ser lembrança
já nada lhe oferece o calor
aquele que sentiu em criança
resta-lhe o profundo temor
dum destino a prazo
palavras cálidas chegam-lhe
da recordação e trazem-lhe 
saudade ao coração.

tinha o optimismo dos que amam
a vida
hoje não tem desejo do amanhã
permanece no silêncio dos instantes
com a memória sã
e o corpo a engendrar a partida.

natalia nuno

quinta-feira, 27 de abril de 2023

quando a vida ardia...



no corpo a saudade amanhece
lateja o coração cheio de emoções
mas a alma padece
tão só, na nostalgia das recordações
os dedos são de solidão
e a voz ficou no tempo fugitiva
no mutismo dos olhos
cresceu-lhe uma rosa
que persiste viva
a acalmar a sua ânsia desolada,
a não a deixar da saudade cativa.

doce e recuperadora utopia
memória do tempo das suas raízes
o mundo era dela, e os dias felizes.
no pensamento madressilvas nasciam
faminta, silvestre p'la natureza seduzida
os sonhos ardiam.
em ascensão os instantes de paixão,
escrevia versos ditados p'lo coração
e assim, passou o esplendor da juventude
hoje, de rosto desolado, em quietude,
sem alento, é folha caída, extraviada
ao relento, na incerteza
de ter sido amada.

natalia nuno








segunda-feira, 24 de abril de 2023

crepúsculo



nada me satisfaz na realidade 
escrevo palavras na esperança
de fugir de perturbações
abafo o outono que a mim chegou,
esqueço desilusões, e como criança,
por instantes sou o que ela sempre
sonhou.
nos dias cinzentos
cruzam-se rios e ribeiros
nos meus pensamentos,
há frases que a chuva apaga
ou o vento leva alucinado,
a tempestade já a tarde alaga
e o poema sonhado, aqui parado.

uma nuvem cresce e cobre o passado
como a dizer que não posso voltar,
eternizo o instante e do sonho não 
quero despertar.
atravesso a aldeia, até ao outro lado
mesmo com céu ameaçador,
agarro-me ao fio do passado
e tenho p'la terra o mesmo amor.
o crepúsculo chegou de vez
mas a memória não se desfez.

natalia nuno