terça-feira, 26 de julho de 2022

palavras caladas...



despertam os rouxinóis que dormitavam
em mim, desde a frescura da manhã
agora que é Outono, quase Inverno
e meu tempo a chegar ao fim,
espantam o frio que veio chegando
e trazem -me um sorriso de murta e jasmim
despertam os meus sentidos para a vida
trazem-me uma mão cheia de ternura
saudade duma alegria antiga
e sentimento firme que perdura.
de repente, rodeiam-me os teus braços
fundimo-nos nas noites consteladas
esquecemos o vazio
- e damos mais uns passos!
e em nossos lábios palavras caladas,
quem dera que voltasse a Primavera
quando o sol nos olhava embevecido,
nas madrugadas
em que nos amávamos, o vazio passa agora,
já passou a nossa hora!

natalia nuno




sábado, 23 de julho de 2022

saudade que amanhece...




há luas que nos entram casa fora
nas noites em que a gente quer amar
abre-se a janela àquela hora
descobrem-nos nus, os raios de luar,
e eu fico a pensar?!
tantas noites demoradamente doces
- como é bom recordar!
há ruídos que nos afagam
para lá do tempo, nem sabemos de onde
já todas as luzes se apagam
é a hora a que o sol se esconde.
já não lembro que me dizias
nestas noites ao ouvido,
foram noites, foram dias
tantas como as rugas, que hoje
no rosto fazem sentido.
nas noites albergamos o nosso amor
éramos felizes e eu não sabia quanto,
lembro só do pudor
e mais tarde, como me atrevia tanto!
somos amantes consumidos na nossa 
própria fogueira 
e hoje entra p'la janela a tristeza
a saudade deita-se ali à nossa beira.
já não há luas nem raios de luar,
nem o ruído do nosso amar,
vagueia a saudade nos trilhos da memória
e traz-nos recordações das noites vivas
de glória...
tínhamos a vida toda para viver,
tudo o que nos resta são sonhos com sabor a luar,
são muitas as coisas que eu não sei dizer
o que sei da vida e da morte, 
é que uma passou a correr
e a outra está pra chegar...

natália nuno
rosafogo




segunda-feira, 18 de julho de 2022

no turvo silêncio da tarde...



espero, como quem espera por um estranho
enquanto vejo a luz da tarde a cair,
cresce uma incerteza do tamanho
dum mar tenebroso que me invade.
e eu espero, até a memória consentir,
sonho, tal como noutras noites esquecidas
de ternura e sossego, que ficaram na saudade.
o sono atravessa a noite e a luz da manhã,
regresso à realidade mal dormida,
onde nem a esperança incendeia o meu querer
tanto à vida,
há um mar sombrio que desliza na mente
que me deixa em atitude de espera
e de repente, este mar galga os muros do meu peito
fica a saudade à espreita, enquanto a vida se ajeita.

sento-me perto do aroma do trevo
esquecida de mim, deixo-me ir
até onde a brisa me leva o pensamento,
é tudo quanto minha alma precisa
rasgar a obscuridade a cada momento,
e a inquietude afastar,
deixo-me envolver no tempo sem memória
fico a flutuar como ave extraviada
talvez que os sonhos regressem
talvez a sorte me sorria
e me sinta mais afortunada.

natalia nuno
rosafogo
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domingo, 17 de julho de 2022

gomos sumarentos de paixão...



não me falem de papoilas escarlate
mariposas e crisálidas nas candeias
os prados verdejantes de aveias
onde as vidas eram grandes eram cheias
desse amor que hoje não pode resgatar-te

preciso habituar-me a este rosto
preciso substituir este meu olhar
nas papoilas deixei o sorriso posto´
e agora já não lhe consigo chegar
os olhos verdes de lágrimas marejaram
sigo triste, a noite avança na minha estrada
os sonhos nos verdes prados ficaram
hoje amor...me sinto desanimada

contempla o sol que cinge a madrugada
em gomos sumarentos de paixão
abraça o corpo feno, alma calada
sou teu cavalo, armadura e tua espada
levando do teu peito a solidão
deixa pousar em ti as mariposas
nas papoilas de teus lábios côr de rosas

o teu sol banhou o horizonte de côr
eu presa à janela olho-te à distância
como se o Mundo explodisse Amor
cada vez que poisas na minha lembrança
és recordação viva que quero conservar
meu coração de ti jamais se perderá
com ternura meus lábios deixo murmurar
e às estrelas juro, este amor não morrerá.

DUETO entre  Beija- Flor e Rosafogo
no Lusopoemas

sábado, 16 de julho de 2022

a última rosa...



meu corpo é rio que flui e passa, o tempo é
de alargar o passo
embora hoje só haja sombra
sigo a vida mais um pedaço.
sobre o abismo dos meus sonhos,
o vento irrompe nos meus desejos
é vento de amor num vaivém até ao céu,
meu céu de lampejos...
meu corpo é mar infinito que me traz 
uma orla de esperança,
e a vida que ora me acolhe ora
me ignora, limpa um par de lágrimas
que trago de criança.
meu corpo é roseira com uma última rosa
com aroma suave, que a solidão percorre,
no jardim perdida, despetalada, às vezes angustiosa
onde dia a dia mais um pouco morre.

natalia nuno
rosafogo
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quarta-feira, 13 de julho de 2022

pássaro sem asas...


um dia soluço, outro canto com alegria
depois alheia a tudo entro em nostalgia
sou como pássaro que a canção suspende
depois arrebata o silêncio a agita as folhas,
nem a lua que se abeira entende
o arrepio que sinto quando me olhas,
a brisa os sonhos me embala
sento-me a teu lado, 
com olhar enamorado
como se olha a quem se ama
temos ainda no olhar a chama
e enquanto a vida tece e destece
e os dias nascem no horizonte distante
trazemos erguido o amor
a todo o instante.
.............................
enquanto o Julho me quebra em pedaços
pássaro sem asas , abrigo-me em teus braços.

natália nuno
rosafogo
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terça-feira, 12 de julho de 2022

a horas mortas...



não escolho as palavras
são desejos que por mim passam
sonho com elas, um sonho que não faz ruído,
na minha mente desfilam
e ondulam como um mar erguido.
apresento-as ao mundo, para que minha voz
se espalhe,  como um caudal de luz,
e é atroz senti-las a afogar-se nas águas
dum mar infinito,
levando meu grito, minhas mágoas 
sem querer ouvir o meu sentir,
fogem de mim a horas mortas
nem sei porque as escrevo, só Deus
escreve por linhas tortas!
não escolho as palavras
escrevo como um recém nascido que chora,
com a saudade que no meu coração mora.
memórias escritas que são folhas que caem
em solidão e esquecimento,
move-se minha mão, que não sei porque escreve,
quando o pensamento lhe diz que não deve,
alguma coisa o coração embriaga
será o aroma de pétalas pela vida esmagadas?
ou a esperança, talvez o destino me traga
aos dias, rosas belas perfumadas.

natalia nuno
rosafogo
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