sábado, 4 de agosto de 2018

neste mar embalador...



não sei das ondas que hão-de vir
nem sei para onde me levarão
mas se o coração partir
nem mais um ai me ouvirão,
ando neste mar infinito
ondas vêm outras vão.
em vão contra a tempestade
com o coração aflito
a morrer de saudade

ondas vão e outras vêm
trazem saudosas vozes de outrora
presa ao passado me têm
no sonho e na saudade agora
deixo-me ao sabor da corrente
outras vezes em mim me abrigo
e o passado se faz presente
e no sonho estou contigo

neste mar embalador
onde não somos indiferentes
na corrente vamos ao sabor
do amor, que sinto e tu sentes
brilha a chama no meu olhar
na minha boca há desejos
deixa as bocas de inveja falar
e enche a minha de beijos

trago o coração satisfeito
de ouvir somente o que dizes
quase não cabe no peito
por sermos assim felizes
ficam os olhos marejados
será a vida uma ilusão?!
os pensamentos fatigados
onde está a ventura então?

grito por amor em vão
daquele  amor que me ofertaste
onde está a ventura então?
se ao sonho te negaste!

natalia nuno
2001/3
eram quadras que hoje transformei num inocente poema




segunda-feira, 30 de julho de 2018

inquietação nocturna...



sou o aconchego do teu coração
sou a trave a que te encostas
eu te dou e me dás a mão
digo gosto...dizes gostas
sou o teu calor de inverno
e o teu luar de Agosto
é o nosso amor eterno
estrela para lá do sol-posto.
reforçamos sentimentos
cada dia mais lembranças
são violinos numa velha caixa
de madeira,
até que Deus queira

razão porque se caminha
a vida é nosso bem maior
apesar das adversidades
segue  com nosso amor
um cálice, a transbordar de saudades...

.......................................

os dias avançam e morrem
e o que fica neles de mim?
um avanço, um recuo
e uma melancolia sem fim
quando me tocas, ainda que seja com o olhar
deixo o corpo ao abandono
e de amor o coração deixo de novo inundar
recolho aos sonhos
e é como se me abrisses os braços
eu me perco para te encontrar
atravessas-me o coração que do teu
segue o compasso...o amor queima-me os dedos
e é já de madrugada, empalideço como a lua
esqueço o poema, esqueço que fui tua
sinto-me uma cana arrancada,
 semente longe da raiz
ou estrela apagada, tão somente a que tanto te quis.

natalia nuno
rosafogo




esgota-se o tempo...



Uma insónia me persegue...
através das cortinas da mente,
acordo do meu sonho ardente
e numa erma ternura
relembro o sonho
da idade da candura
mergulho o rosto na
noite crua
e o amor que damos um ao outro
triunfa feliz
tu és meu e eu sou tua.
Sorvo o teu odor
e o desejo floresce
esgota-se o tempo
afasta-se o pensamento
e só o prazer cresce
calaram-se  os gemidos
há os beijos com sabor a mel
estamos mudos, enfeitiçados
da vida esquecidos,
os arrepios vagueiam em nossa pele.

Ficou o sonho suspenso no vazio
só sinto a escuridão da noite
o frio , lentas as horas
mais uma ruga incipiente
e eu sem sono
que foi feito do sonho da gente?
O amor chegou com inteireza
este amor que me prende e dá certeza
chego-me a ti, o consolo da tua mão
é o regozijo do meu coração.

natalia nuno
rosafogo
2001

sábado, 21 de julho de 2018

a sombra...




hoje anda como quem morre
sem encontrar direcção
é a sombra duma  lembrança
no retrato uma recordação
secou o sol o seu rosto
onde cabia por inteiro
secos ficaram os olhos
não há mar, mas um ribeiro
já não são os seios duros
nem as mãos colhem frutos
passa por ela a sombra rente
seus sonhos são agora prematuros
morre tão completamente
no rosto olhos sem brilho, enxutos

sufoca o grito na garganta
a vida a meio parou
a sombra já se agiganta
sua pele o outono manchou
traz o corpo na prisão
e a alma em liberdade
perdida no seu cansaço
só o sonho e a saudade
tomam conta da sua mão

sentimentos e emoções
ao longo de anos acumulou
indagações ao divino sem resposta ficou
a quem entrega o destino?
em crepúsculo a vida, num
inverno se tornou.

natália nuno
rosafogo


terça-feira, 17 de julho de 2018

que o poema não me ignore...



quando o corpo tropeça
a alma guarda as memórias
e é como se um enxame de saudades
viesse p'la mão do vento a trazer-me alento,
e tudo recomeça
vem aquela lembrança que não esquece
que traz com ela a luz e me afasta da sombra
surgem pétalas de luz na escuridão
disfarço o vazio que há em mim
e ninguém sabe o que me vai no coração
a minha alma desorientada
é como o canto nocturno duma cotovia
cinzenta num inverno de nostalgia
quando o corpo tropeça
é tanto o tédio,
que as palavras desbotadas saem de mim
vindas dum labirinto da mente
sem fim.

entre pétalas de solidão, caminho p'lo tempo,
que o tempo apagou
mas a luz me dá a mão
no declínio a vida desatou
em mim a saudade
e até o brilho dos olhos me tirou de verdade
mas quando o sol declina nas horas tardias
no sonho, encontro-me ainda menina.

natalia nuno
rosafogo


o vazio em mim...




sem uma só lágrima
não encontro o pranto
agora choro por dentro
enquanto a vida
como vôo a precipitar-se
se escoa e revoa até cansar-se,
e a mim só resta esperar
enquanto a morte urde a trama
e numa manhã qualquer
me diz: anda mulher!
- por mim chama!

a abundância das estações terminou
não há mais o espanto no olhar
não há mais o coração a palpitar
como outrora,
abruptamente chegou  a hora.
liberto lembranças enredadas na teia
da nostalgia
deixo as palavras foragidas, em liberdade
os pássaros virão chorar por mim todo o dia,
e eu partirei com saudade.

natalia nuno
10/12/2003







subida nostálgica...



já as sombras das árvores se deitam
e a tarde empalidece
e, a enlaçar-e apenas a saudade
pois no presente nada mais acontece
sobre as tílias um ar quente,
inconscientemente, ponho-me a fantasiar
noutro tempo que era tamanho
e passava tão devagar...
hoje traz asas na corrida
e depressa me leva a vida.

que escada enorme foi esta vida
tanto degrau, tanto degrau na subida
agora, vai a uma ponta
oiço meus ais, por entre vendavais
escadaria imensa que agora me amedronta,
trago o sol doendo nos olhos
e lágrimas caem ao chão
subida nostálgica, que me afronta o coração

a vida dobrou-me, dobrou-me,
e eu julgando morrer, cansada de subir
enquanto me afasta, me rouba as certezas
do que está por vir...
é agora outono, não me apresso
subo devagar e não esqueço
que subo para atrás já não voltar
a felicidade não deu ponto sem nó
ficou longe e eu aqui tão só...
sou passado, vento que dobrou a esquina
sou o sol que já declina
para trás ficou a alegre menina em flor
a tenra idade e o fulgor da mocidade,
no velho albúm, conservo o seu sorriso
mato a a saudade, ouvir-lhe a voz
para me sentir viva...preciso!

natalia nuno
rosafogo