quarta-feira, 18 de março de 2026

perdeu tudo...



perdeu tudo, sobra-lhe o nome, perdeu a desenvoltura, a passada, perdeu a vontade ficou sem nada, resta-lhe o nome... o tempo parou, o jogo acabou, como era antes, em tempos distantes?! havia em si todo um caminho toda uma vida e tem agora um beco sem saída...resta-lhe o nome, a vida é viver apenas, reconhece-se em lembranças serenas, passa a vida enviesada ora no passado ora no presente, ou é pedra pesada ou a traz contente...resta-lhe o nome, algumas ideias na cabeça, já nada acaba, mas tudo começa, a solidão é sua condição, mas que importa se o sonho ainda lhe bate à porta? resta-lhe o nome e a terra fria que a espera, há dias e dias em que desespera, recorda o passado como um livro lido, que lhe deixa no olhar um brilho incontido...

natalia nuno


pedaços soltos...



deixa-me o sabor da tua boca, acaricia meu rosto fatigado na tarde lenta em que as minhas mãos tecem palavras de loucura, como se rezassem!...olha-me com espanto, como se eu continuasse a ser o teu encanto, nua ou vestida percorre a minha pele, poro a poro, afunda-me no teu peito com aquele jeito, com que eu sempre coro...não me deixes neste silêncio estranho, ou no vendaval onde me dobro para não quebrar, o tempo cruzou-se comigo nestas longas caminhadas pejadas de partidas e chegadas, deixou sinais que não posso esquecer e restos de esperanças que quero reter...há lembranças que se vão desvanecendo tal como a tarde, percorre-me o sonho na claridade do teu olhar, onde a felicidade e a ternura são canção de embalar...os meus dedos de menina escrevem umas linhas de amor, e nas tuas mãos, esconde-se a lua vestida a rigor...


natalia nuno

a carência de ti...

 


a carência de ti não me abandona, invento tempo de felicidade... meus olhos abertos pelo fogo da ternura voltam a embebedar-se de alegria num beber lento e doce, e a memória volta àquele momento distante quando comecei a desejar-te...de repente há um aroma que me recorda o que ficou para trás, e as minhas palavras são as sombras onde me encontro perdida, lá onde a dor é mais forte e me deixa sem norte, sou agora a velhice e ao mesmo tempo a juventude, grito a dor num poema invisível que declamo amiúde, e num golpe de garra saio do silêncio dos versos e continuo a pulsar com uma força que não aceita derrube...e o amor é um agasalho que me cobre e me põe a sonhar...caio assim neste abandono de doçura vestida, adormecida na minha derradeira saudade.


natalia nuno

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miragem...

 



uma miragem branca passa pela mente, e esta vai macerando o esquecimento, mas nas sombras dos teus olhos, consigo ver com os meus, que o amor é mais forte e tenaz que a confusão e o caos que às vezes quer apoderar-se do pensamento e apagar o odor a madressilva, o mel quente e o prazer que ainda nos atravessa...no oásis da memória continuam os sonhos como milagre, numa claridade distinta onde permaneces e eu continuo a amar-te...não fugiram de mim recordações que são astros vermelhos de verão a morar no meu coração 

- as acácias encheram-se de flor no interior da minha fantasia, baralharam-me os sonos e os sonhos, deixaram-me nesta lenta solidão, com os olhos adormecidos, e a negarem-me as asas de adolescente que me levam sempre à lembrança, mesmo que a memória demore...as acácias, trazem o perfume ao meu beijo, quando tenho o coração apertado, o tempo me barra o caminho e, me prende o corpo à negação... acelero meus olhos, mora em mim um vento quente e vou admiradamente longe, onde só as acácias têm cheiros de auroras, vindos pelos ventos até meus pensamentos...onde tu moras!

natalia nuno

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terça-feira, 17 de março de 2026

céu da minha janela...




hoje o sol que mal avisto, olha-me com seu olho negro por detrás das nuvens, deixando-me a sensação de me deixar de vez...golpeada por uma luz cinzenta, a vida é cada vez mais depressa lavareda sufocante, que me queima os sentidos, até que tudo se distancia da memória, desvanecidas as lembranças, fico ouvindo o vento e contemplo a chuva que corrompe a esperança, e o frio nebuloso traz-me o tremor como se fosse a última folha caída da tarde, e impede a alquimia da minha mente, de voltar às lembranças...

natalia nuno

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sexta-feira, 13 de março de 2026

lá onde abandonei a inocência...




no norte das minhas palavras abandonei a inocência, lá onde tudo era sonho, onde era seara e girassol, onde lavrava a alegria, onde havia lufadas de sol onde via regressar as papoilas vermelhas e os pássaros construíam ninhos nos beirais dos telhados...as estrelas vazaram, e trago agora os olhos molhados...fico a secar os olhos embaciada de emoção, sigo por entre a maresia à minha procura, porque me dói não saber quem sou, nem onde estou, não me reconheço e sempre que a mim regresso há um desajuste entre o sonho e a realidade, parto com velocidade... que mal fiz eu...quem secou a flor em mim?! de trigo eu era...hoje sou girassol que morreu, assim morreu-me também o tempo...sou pássaro no escuro à procura dum pouco de primavera... sigo caminho com o afago do vento não me deixo entristecer, não quero mais palavras, que já nada têm para me dizer...

natalia nuno

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quinta-feira, 12 de março de 2026

quando a alegria se aposenta...



- recordo o  tempo que foi
e o que me resta
nas rugas do rosto, 
que a nostalgia lhe empresta

há um caminho que me escapa
uma sombra a rodear-me
uma esperada sentença
que passa os dias a esperar-me

uma melancolia cinzenta
quando a alegria se aposenta,
um muro embaciado que cresce
na desmemória enegrecida
p'la humidade,
- num muro escuro,

mas ser-se humilde é aceitar
a vida.

a felicidade é uma árvore 
de raízes fortes, tenaz
e a saudade recolhe-se num coração
- em paz!

desfraldo minhas palavras em cristais
de orvalho
e, é delas que me valho.
gosto da nudez da brisa e do azul
desta estação,
e da luz do sol que é perfeição!
atinge-me com sua ardente energia
e assim soletro a chegada 
de mais um d.i.a.

natalia nuno
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