domingo, 17 de agosto de 2025

a utopia que me leva...




hoje deito o poema fora
quero a noite sem hora
não quero nada que me doa
serei ave que voa
quero-me viva
que nada me retenha

quero sentir-me activa
quero ser alma da saudade
e vida da alegria
ter a bondade que me adoce
o coração, e não atormente como hoje
a poesia

poema criado imperfeito
ora me despe, ora floresce
é jogo para a morte iludir
um ardil que sempre cresce
quando a noite está pra vir

poema serve para tudo ou
para nada
que de nada me serve
e nem me fala da saudade
como se atreve?

deito fora, sem idade nem data
olho-o com altivo desdém
não será memória pra ninguém

sonâmbulo não acordará
nem sabe quantos anos andará
foi poema com quem cruzei
que me fez promessas vãs
nasceu fora do meu regaço
atormentou minhas manhãs

na tentativa do meu abraço
como se me importasse o tema
se o poema,
- não me fala de saudade!

natalia nuno
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à procura de mim...



o sonho adormeceu
durou tão pouco
ficou remoto, não me aqueceu

meu tempo é limitado
hoje meu sorriso se fechou
fez-se silêncio
ficou o vento pendurado
nas janelas, debruço-me nelas
à procura de mim

a memória acena-me distâncias
quando chorava no berço 
minha avó por perto rezando o terço
lembro ainda a ladainha


sinto que sou uma andorinha
que emigrou para longe
nesta vida tão excessiva
cujo sopro descaminha

com que prazer o tempo
me esmaga!
apagando mais um pouco
a última miragem
fico à espera que o espelho traga
nem que seja uma pálida imagem

um dia perco o brio
que me resta,
e rompo a negação
não quero mais que meus olhos
molhados, 
vejam triste meu coração.

natalia nuno
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sábado, 16 de agosto de 2025

contudo pergunto, ama-se ou odeia-se?...



vem o sol e nos aquece
logo o frio nos arrefece

há quem diga que a vida
é para ser bem vivida

atenção não vá ao engano
pode vir-lhe daí algum dano

a noite antecede o dia
p'la manhã canta o galo
- com alegria!

ficam os sonhos na almofada
desperta a realidade
- daqui a nada!

o tempo, com que prazer nos esmaga
a infausta memória humilhada

mesa posta, pão na mesa
que amanhã não há certeza

a fome grassa por perto
vida sem jeito, sem amor é deserto

não há quem possa estancar
tenho até repulsa de lembrar

a terra verde adormecida
onde o veneno não se fez esperar

moeda falsa, maldição
falta de amor pelo próximo
ama-se ou odeia-se?
e a paz a cair ao chão!

o mundo em desgraça presente
cruxifica a vida de tanta gente

a paz distancia-se humilhada
é velha memória guardada


natalia nuno
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se eu pudesse esconjurar...



há um caminho entre a bruma
calem-se sirenes e alarmes
o pavor que incendeia
até não restar coisa alguma

e ninguém acode a ninguém
nem ousam o frente a frente
e o mundo já agoniza
e o que se tem?
guerra que o mundo não precisa
nem de alguém com soberbo desdém

ah, se eu pudesse esconjurar
o louco que abriu a ferida
mostrar lhe o meu desprezo
até ele agonizar?!

é tamanha minha aversão
que fico sem coração
se fosse jovem e forte
lutaria pela paz até à morte.

somente o silêncio
neste mundo esfarrapado
não se pode cair no engodo
de gente que se diz do nosso lado

a terra é sombra perdida
luz apagada, mais frio que inverno
cai em desgraça tanta vida
luz mortiça, um inferno!

natalia nuno
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sexta-feira, 15 de agosto de 2025

absurda imaginação...



os dias são tão pequenos
que podia fechá-los
sob os meus dedos apertados,
cativos para não me magoarem
apertá-los para perpectuar a vida,
e com as minhas mãos
desfraldar um arco-íres brilhante,
para que o sol tivesse inveja

absurda imaginação!
é como sorrirmos a sonhar
assim leve e claro
numa noite de outono
quando já tudo fica distante
e o tempo, corre sem parar
- e eu sempre digo... « não vás»!

e o corpo vai morrendo
como uma folha que cai.

natalia nuno
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quarta-feira, 13 de agosto de 2025

poema sem poesia...




a saudade senta-se 
na soleira da porta
esperei por ela desde a primeira
estrela
debruçada na janela, a vê-la
cansada, chegar quase morta.

trouxe-me as emoções
do costume
que me enternecem,
lembrando tempo das ilusões
como magoar-me quisessem

vi-me criança a crescer
com sonhos pendurados
na lua
até o dia nascer

sonhos que ficaram 
por lá sem me aperceber
nas asas dum tentilhão,
que hoje ainda canta
na minha solidão

e a noite demora-se
na minha cabeça
até as acácias darem flor,
no silêncio a saudade
a curar minha dor!
sempre sentada na soleira 
da porta
a cada dia dói mais
a saudade, e eu quase morta

neste poema sem poesia
falhei como criadora
hoje em mim a nostalgia
porque a saudade foi embora

natalia nuno
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domingo, 10 de agosto de 2025

duelo...

 

meu esquecimento está
num duelo
sem saber se esquecer o passado ou
o futuro
passado, poderá esquecê-lo
que é remota luz e já escapa
é esta a realidade!
ou o que há-de vir,
- que se prevê duro
e de saudade 

por um instante sinto o latejar
do tempo
vejo a solidão das árvores
tão igual à minha,
minhas visões cada vez mais quebradas
e a vida sem caminho,
- pouco caminha!

nasci no meu próprio abraço
trouxe comigo a luz dum sonho
confio à linha da mão meu passo
decifro nela o viver e o morrer

e aceito a dor da saudade que me
percorre  a pele
fadário que é viver de veneno e mel
faz já parte de mim e eu a ignoro

minha memória é um caudal 
de lembranças,
onde sonhos se vestem de plumagem
neles brincam crianças
e uma delas, sempre é minha imagem.

natalia nuno
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