quinta-feira, 21 de maio de 2020

parti por não ter chão...



parti por não ter chão onde semear sonhos, cerro as palavras na boca, deixo-as na terra adormecida do meu âmago, talvez que as sementes germinem mais tarde em horas de saudade e, docilmente se entreguem em versos chorosos que embaciem os olhos, ou suspendam a tristeza e o vazio do tempo e venham dourar o verde onde a minha esperança cresce... é verão, mas, estranhamente o dia é de penumbra a memória apaga-se lentamente e eu fico de morte ferida, mas ainda vivo, ainda é meu tempo de viver...exausta parti de mãos vazias, levo os desencantos, vou palmilhando o chão e levo por companhia a solidão, voltarei quando fôr lua cheia, se ainda fôr capaz de aprender a primavera, e as folhas em mim caídas voltem a reverdecer em meus sonhos, eu possa moldar de novo as palavras a meu jeito, e nada impeça que me tragam a promessa de ser gaivota na planície...com olhos de madrugada.
natalia nuno

terça-feira, 19 de maio de 2020

acordar memórias...



acordo as memórias e ponho-me
a cismar... como é que a mente
aprisiona o que a gente amou?!
tudo em mim,
o que ficou da criança
que fui e sou!
e assim me acalma a arte
do silêncio e nela, minha alma
se abandona.
silêncio onde me encontro
e me comovo,
fico em suspenso no mais íntimo
de mim, ponho de novo
o sorriso infantil, volto a ser
papoila vermelha por entre o trigo,
vejo-me nesta distância invertida
nela me abrigo
em tenra idade,
na simplicidade, do que foi
minha vida...

a infância povoada de sonhos que vivi,
onde sentada docemente... amor, esperei por ti.

natalia nuno
rosafogo



segunda-feira, 18 de maio de 2020

instantes da vida...



sinto vontade de prosseguir,
olhar-te e sorrir,
sinto o coração sair-me do peito
numa sensação agridoce,
desse outro tempo que me afaga
como se ontem hoje fosse.
é esta solidão tão estranha
sem fim à vista,
que abala meu pensamento
e me põe aos ombros
o peso duma montanha.

vai-me devorando o tempo
sem que colha nada da vida
fica a vida como noz partida,
abrem-se as manhãs, fecham-se os dias
fecham-se portas às alegrias.
e tudo o que me vem à cabeça
antes que adormeça
é o sonho de olhar-te e sorrir
é esse sopro de inspiração
que me aquece, e a ruidosa solidão,
do coração desaparece!

natalia nuno




domingo, 17 de maio de 2020

já não está mais em mim...



já não está mais em mim aquela que existia, mas está em mim aquela que sentia, que hoje traz os olhos vidrados e o sorriso morto ao canto da boca, desvanecido de doçura, suave como o último suspiro duma ave na noite escura... a saudade que vai moendo, é também fonte onde vai bebendo, onde esfria o pensamento mas acalora o coração, toma o destino, caminha decidida, alheia a esta nova idade vai até ao entardecer, na ilusão, deixa-se levar pela tarde, não olha quem fica, nem sabe o que aí vem,  só sabe que vive e sonha e, deixa a morte...aquém!

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 15 de maio de 2020

no silêncio que oprime...



no silêncio esmagador que oprime, de repente uma ave que cante numa árvore frondosa, uma rosa que abra, o bulício das abelhas ao redor, é sentir uma vontade de viver, deixar-se a fantasiar o resto do tempo, esquecer o vento da descrença, seguir em liberdade, sem o mínimo descuido, que o tempo apouca e corre como um rio fluido, nutrir cada dia com amor e mel como se fosse o último...esquecer a solidão dormente, rir com riso de medronho e continuar no sonho, nunca é sonhar em vão se ao acordar sentir bater, este velho coração...

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 13 de maio de 2020

fantasia...



as acácias encheram-se de flor no interior da minha fantasia, baralharam-me os sonos e os sonhos, deixaram-me nesta lenta solidão, com os olhos adormecidos, e a negarem-me as asas de adolescente que me levam sempre à lembrança, mesmo que a memória demore...as acácias, trazem o perfume ao meu beijo, quando tenho o coração apertado, o tempo me barra o caminho e, me prende o corpo à negação... acelero meus olhos, mora em mim um vento quente e vou admiradamente longe, onde só as acácias têm cheiros de auroras, vindos pelos ventos até meus pensamentos...onde tu moras!

natalia nuno
rosafogo
imagem pintarest