segunda-feira, 28 de março de 2016

deitei-me à estrada...



habitarão lembranças em mim,
até chegar meu próprio fim
sem saber nunca quando parar
umas perto,
outras nas sombras a agonizar...
deito-me à estrada nos ramos da noite
os sonhos vão-se amontoando
não ouso palavras,
estrelas urdem o futuro
e eu sonhando, o caminho é duro
mas o desejo  arde até ao delírio
e como ave embriagada,
como estrela alumiada
com o olhar procuro
o amor, que minha alma quer
e o coração solicita.

dos meus olhos tranquilos
se apodera o verde da terra
ficam seara onde o vento ondula
o silêncio se impõe
e a vida dispõe...
quem inventou a ternura
aquele rio de amor vivido
até à loucura?
as nossas vozes derretidas, a entrega, a paixão
é agora o fermento e o pão
o fogo da felicidade
que hoje me trouxe a saudade...


natalia nuno










terça-feira, 8 de março de 2016

o tempo põe e dispõe...



despenha-se a alma no vazio
desprendendo-se inteira
extinguindo-se,
deixando o corpo no calafrio,
como um sol que regressa à sua fonte
sumindo-se no horizonte...
não sou nada neste silêncio arrebatado
neste vazio solitário
onde meu corpo ficou esquecido
e o coração encerrado.

comovido a chegar ao fim meu dia,
caminhei exausta por entre labaredas
de melancolia,
adormeço em vão, nestes dias perdidos
um a um, vivo dum resto de ilusão
o tempo põe e dispõe
enquanto o coração recolhe a dor
duma saudade triste que faz doer

com esperança sempre a irromper
em mais um dia a morrer
rasgo o medo que envelhece
e logo outro dia amanhece....

natalia nuno
rosafogo





sexta-feira, 12 de fevereiro de 2016

tantas ilusões



vivi ao ritmo das estações
e em cada estação um sonho
de flores, amores e ilusões
na primavera tudo risonho
no outono nostalgia
no inverno melancolia
no verão entreguei o coração
tantas ilusões,
tantas lembranças
tanta saudade de voltar a ser
criança.
há uma ponte que me liga
ao passado a que aceno
com a mão tremente
e o coração sofrido
batendo apressadamente

e nos meus versos rimando ou não
eu lembro a fatia de pão
barrada de manteiga
enquanto a mão da mãe me ameiga
e a sopa na tigela fumega
a cafeteira ao lume já ferve
o serão à lareira
o pai com carinho me pega
a chuva caindo no telhado
o terço rezado
e a esperança no olhar
pois Deus é bondoso
e amanhã o dia será melhor
virá o sol cobrir a horta
e crescerá em nós uma esperança maior
a vida nos parecerá menos torta.

sonho remoto, sonho esquecido
tempo de voragem
que vai secando a minha sede,
a minha coragem,
que me mortifica persistente
nesta viagem ao fundo de mim mesma.

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

tão quase tudo...



tão quase tudo... a verdade é a poeira sem assentar a fazer-se ninho nos meus olhos e o meu universo toldado, vem até mim um pássaro que ri, inventa e chora, e em cumplicidade sentamo-nos no alpendre conversamos sobre flores, falamos de primaveras e de vôos de outono, de chegadas e despedidas, olhamos os riozinhos de sol que correm no meu rosto onde as rosas já não crescem, um pavão de asas abertas me confronta o coração...há muito que não me faço perguntas, repouso das interrogações da vida, das esperanças defraldadas, das borboletas cegas que sobre os sonhos voejam, repouso da saudade de granito, e assim vou dizendo adeus sem me doer...
natalianuno

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

renasço e extasio




na inquietação do meu outono
o olhar chora comovido
cresce o vento enlouquecido
bate-me na mente como uma fera
tirando-me o sono,
chega como uma ave selvagem
e pousa nas folhas cegas da solidão
que ao abandono
jazem em meu coração

nesta minha noite escura
range o tempo impaciente
de tanto me recordar à distância
subitamente...
cerro os olhos de assombro
e esperança...a vida chega formosa e repentina
e eu, sou de novo menina...
há uma miragem de felicidade
que no sonho quis alcançar
tão transparente como a água do mar
ante esta ventura que é sonhar
renasço e extasio
esqueço o outono, canto e danço
numa vertigem de fogo
aqueço-me no êxtase do estío...

natalia nuno
rosafogo








segunda-feira, 11 de janeiro de 2016

cativa...



meus versos trazem palavras de sol
às vezes são nevões de pavor
tempestade que me leva à obscuridade
onde só se ouve o sopro e o rumor
que ainda sinto e é saudade
meus versos são um mundo de palavras
despidas de perfeição
todos eles de efémera glória
sonham ser palavras de eleição
sementes criadas ao crepúsculo
quando o sol guarda a mantilha
e aparece a lua e brilha
hora das recordações, das emoções
carregadas de doçuras
meus versos são inventário
de lamentações...
são rajadas de vento por entre as urzes
do meu pensamento
escadarias que me levam ao infinito
relâmpagos que me rasgam a mão
o grito que me sai, a ferida, a respiração
a obsessão...
meus versos são furor nascido em mim
quando escrevo sinto-me livre
enquanto houver vida vai ser assim
assim, até ao fim...

natalia nuno
rosafogo

emoções...




viajo ao fundo de mim
em marés de tanta melancolia,
a resgatar a imagem que trago na memória, 
para alegria de voltarmos a estar juntas,
abro a janela da esperança e
festejo a vida com a emoção destas pequenas coisas
que tocam o meu coração,
abraço com intensidade esta viagem
onde me atrevo a sonhar, 
ambas temos a mesma história, 
o mesmo tempo que nos envelhece
a mesma nostalgia que não nos abandona,
as mesmas palavras que nos fazem sonhar 
com a felicidade 
e os mesmos anos que passaram
sem que dessemos conta...
ouvimos a mesma música e nada,
nada nos pode separar...
ela traz nela a juventude
........... e eu trago em mim a saudade
e a desmemória batendo com implacável
rancor...neste sonho baldio
onde ainda ressoa o amor....

natalia nuno
rosafgo