terça-feira, 14 de janeiro de 2025

imensa a noite...

olho as migalhas de pão
na mesa
olho as paredes desenhadas
de humidade
livros com gretas nas lombadas
o relógio pendurado 
não trabalha
parou à hora da tristeza,
não tenho mais memórias
Deus me valha!

no corredor uma jarra
deitada ao chão,
imensa a noite
os olhos secos de tanta
solidão

apagou-se o lume na lareira
dissolve-se minha última esperança
tento adormecer as chagas
da lembrança

perco a minha mão direita
já não me importo com as sombras
estou sem palavras,
as teias rodeiam-me a cabeça
não sei que fazer antes
que enlouqueça

ouço o murmúrio da humanidade
que me desfaz o coração,
olho as fotos dos que partiram
- para sempre,
e me deixaram saudade

recordo ainda que seja
o resto de mim,
não posso esquecer-me
nem ninguém pode deter-me
vou sobreviver até ao fim

natalia nuno




sábado, 11 de janeiro de 2025

a minha força...



só em ti força minha
me liberto da amargura, 
ninguém mais adivinha
como nos meus dias
é sempre noite escura.

que se instala com raízes
e abalroa meu amanhecer
apoquenta meu sentir
até quase enlouquecer!

rodeia-me o mundo desolado
penosos são os sonhos
resta um... e anda extraviado!

na memória vozes de mar
pesadelos, donde não posso escapar.

horas vacilantes
onde a dor cresce densa
querendo tirar-me a força
a todos os instantes,
grudando com insistência.

fico só com meu destino
por entre a noite e a insónia
as sombras são uma ameaça,
o pensamento um peregrino
até ao último alento!?
dia a dia a morte me abraça

determinada e livre,
caminho passo a passo
enquanto o coração vive
ou chegue a ele o cansaço.

natalia nuno
rosafogo



quarta-feira, 8 de janeiro de 2025

presente sem retorno...

lágrimas que são tão finas
caídas quase em torrente
caem dos olhos cristalinas
dói o coração que as sente

voltam à tona as tristezas
na madrugada molhada
e são tantas as incertezas
que da vida sigo cansada

não há pra mim surpresas
nem oásis onde descansar
foi-se o sabor das certezas
deu-se o colapso de amar

minha voz já não vai longe
apagada em nuvem ardente
silenciosa como a do monge
q' em silêncio reza p'la gente

meus sonhos são incolores
escuto o mente e o coração
onde vivem restos d' amores
sobre o crepúsculo do verão

natalia nuno

segunda-feira, 6 de janeiro de 2025

ouso libertar-me...





os poemas florescem,
nem sempre bons, nem sempre maus
transbordam de sentimentos
galgam distâncias como naus
sorriem em meu olhar
que pouco sabe de maldade
nele mora pra sempre a saudade

poemas são entradas de luz
são claridade
são como um grito vindo do vazio
forças oceânicas trepidantes de saudade
são fogo que cruza o horizonte
instante arrebatado, sonho e realidade

poemas são velas para a aventura
deixam o pensamento inundado
e o sorriso ébrio de ternura

palavras num instante arrebatadas
nesta já longa caminhada de
sombras, e ansiedades irmanadas.

natalia nuno







vaivém de sombras...



leve e fugaz inspiração
e a saudade que não me sabe
aquietar
sempre uma tenaz obsessão
a de continuar...

as horas caindo
e eu ainda nesta lentidão
que vai para além da vida
de consciência adormecida
cega à maldade do mundo

esta pausa faz-me esquecer a mágoa
por perder a esperança...
deixo-me entre os aromas das flores
como quando era criança

entre a luz da tarde 
e o mágico fulgor da poesia,
face ao horror e à violência
deixo adormecida a consciência
no meu coração um oásis
de esperança
vai vibrando fundo

aguardando, a paz volte ao mundo.

natalia nuno

sábado, 4 de janeiro de 2025

mistério...



cada pulsação é uma quimera
coroo o meu dia de palavras
há borboletas à minha espera
que levantam meu desejo
de seguir no silêncio, 
no qual habita
o sopro da minha voz.

já a vida corre veloz
continua o coração a pulsar
apesar da solidão crescente
dos anos decorridos,
e dos sonhos feridos
visita-me o futuro
a alertar
como vai ser difícil e duro.

sobressalta-se o olhar
tento saber o que vem nesse «aviso»
sorrio-lhe com esperança, saúde
é tudo que preciso
mas ele, afasta-me do mistério
que esconde e, não quer revelar

diz-me apenas que há  poemas
ainda por conquistar.

natalia nuno

sábado, 28 de dezembro de 2024

o resto da minha metade...



procuro tudo
ou já nada procuro, nada sinto,
dou comigo a decifrar o tempo
e para mim mesma minto.

tudo mudo,
procuro-me nos passos dados
como quem procura um milagre,
revejo-me nos dias passados
e a vida é cada vez mais agre!

procuro nas linhas da mão
com a urgência de saber o que me espera
escuto aplausos que não existem em solidão
agasalho donde não surgirá
mais primavera

caem-me pingos de chuva na alma
e o esquecimento está sempre
presente e é cruel,
até este poema, veneno
na minha pele
lágrimas se vêm deter,
num assédio que faz doer.

persistir nesta paixão
procurar ainda abarcar sonhos,
esquecer horas de inutilidade

só queria viver feliz
o resto da minha metade.

natalia nuno