quarta-feira, 6 de novembro de 2024

o eterno inimigo...tempo



ando à procura dos sonhos 
onde possa abrir caminho
aos salpicos do sol,
desde a aurora ao arrebol

procuro sorrisos vestidos de branco
visito imagens escondidas
nos recantos da memória,
olho os brancos da fisionomia
que vão descrevendo minha história

antes que minha ânsia
continue a debater-se
antes que tudo me sufoque,
ando à procura de papoilas
que habitam os meus dedos
e que a esperança os toque!

procuro uma lufada de ar
quente,
para que a vida não acinzente,
caminhar sem dúvida, o caminho
até ao fim
não deixar a apatia chegar a mim

não quero tornar inútil a jornada
trago imagens a borbulhar
na mente e a vontade redobrada,
quero ser água livre, 
que nem pássaro poder voar

e a palavra sempre me ensina
uma porta de saída!
para o sonho, para a vida.

natalia nuno

segunda-feira, 4 de novembro de 2024

a viagem...



pouco resta da viagem
olvido a mala aberta,
sento ao lado da bagagem
e a dor em mim aperta

tanta vida!
não restou quase nada
caio na realidade
apesar de tudo,
restou esta saudade,
e este silêncio mudo.

arrumei ideias
e recordações
que trouxe da juventude,
e tantas ilusões
que arrumo amiúde
até pedaços de  instantes
que para mim, tanto significaram
oásis, estrelas brilhantes
do amor que nossos corpos
festejaram.

depois de tudo arrumado
talvez seja agora a hora
de esquecer o passado

não se passa absolutamente nada
apenas eu,
- vou morrendo claramente!

num sussurro inquieto,
ressoa-me na mente, 
o vento a agitar
o recordar, de quando era flor, 
prestes a desabrochar.


natalia nuno
rosafogo




quarta-feira, 23 de outubro de 2024

a saudade é o meu tema...



inda lembro do riso solto
lembro o tempo da alegria de viver
quando ao passado volto
a tudo que não quero esquecer,

hoje trago a boca seca
sem gargalhada,
ficam os olhos rasados d'água
ao anoitecer,
- até de madrugada!

lembro do chilrear dos pássaros
e das carícias do vento
aos meus ouvidos,
e do perfume das flores,
a vibrar nos meus sentidos.

apesar do esquecimento,
que inda agora se apresenta 
e de inquietude me acorrenta

lembro de correr
de pés descalços em liberdade
lembro de cada rua, cada esquina
e a lembrança traz-me saudade

lembro a menina
- e os odores dos dias extintos
lembro das vidas perdidas
e da canções esquecidas

bastava um pouco de calor
deixar pular o coração
e nascia o amor,
envolvia-me na sedução
o sol confiava-me o seu poder
e assim me fiz mulher.

hoje já não quero percorrer
grande distância
prefiro ser o mar do poema
e sua inconstância
e fazer da saudade meu tema.

natalia nuno
imagem pinterest


terça-feira, 22 de outubro de 2024

indolência ardente


peço,
para ficar por aqui a viver
deixar-me ir neste caudal
só, 
na apatia de mais um dia
onde a saudade é fatal.

a embriagar-me
- em mais um entardecer
numa indolência ardente
deixar-me de tudo esquecer

que eu sou fiel às palavras,
apesar de desesperada descrença
já não me pertenço
azar ou instinto
é isto o que penso


nas minhas pupilas 
vejo ao longe horizontes
mas ninguém ouve o rumor 
dos meus lábios
mais um calmo dia dorme
junto a mim

e eu estou feliz por fim!

natalia nuno
imagem pinterest






sigo o caminho...


há nuvens que pairam no céu
sem saber para onde caminhar
só os ventos o sabem!
tal como os ventos da vida
a quem me deixo confiar
no meu lento desagregar

despreocupada a noite cai
tal como eu a ver chegar
- o outono
amanhã anuncia-me a velhice
e eu sem um ai
consola-me a lua e as flores
também elas, ao abandono

a um só tempo
chegará a primavera
e os meus cabelos brancos,
a noite a cair,
eu sem saber, se há amanhã
estou pra ficar, ou é dia de partir

no meu coração 
nunca se quebra o fio
sigo o caminho das espigas,
esgueiro-me por entre o orvalho
levo frio, e palavras antigas
que são, migalhas de pão 
de que me valho.

natalia nuno
imagem pinterest






quinta-feira, 17 de outubro de 2024

incógnita que me rodeia...



interrogo-me incessantemente
o que procuro?
o coração não se rende
insiste e continua e, a vida
flui, sem poder atrás voltar
tanta vez estrada florida
outras tantas em aborrecimento
a afundar

cruzo caminhos
o coração continua a pulsar
marcando o seu propósito
e, a resposta não chega,
quase sem rosto, sem identidade
sobre mim recai a saudade!

o passado me estimula
e o presente ainda me pertence
mas sinto o desconsolo do que perdi
e o desencanto às vezes me vence

a memória faz eco, do que já não
existe
a vida vai distante mas, persiste,

com calma, abafo o rumor
que me aflige
aqui dentro de mim onde procuro,
não há rancor!

só mal curadas, algumas cicatrizes.

natalia nuno
imagem do pinterest

poesia em tempo de outono...



os sonhos confundiam-me
atrevia-me a sonhar
enquanto certezas procurava
com esperança de alcançar,
poemas foram crescendo
até o rosto enrugar

ainda com vigor 
e palavras aprendidas
em noites de amar,
tudo era amor, até o tempo
da dor chegar.

removi ideias
maldisse o destino
duvidei do Divino

a menina inocente
reclama-me ainda,
olha-me fixamente
consola-me sua fugacidade
que tanto me dá saudade!

resta um passo ténue
até ao esquecimento,
e nas águas frias navega
o pensamento

perdem-se as palavras no vazio
das horas, no vazio da boca
que o esquecimento mastiga,
é já o domínio da morte
que apregoa ser minha amiga

natalia nuno