palavras escritas com o coração, em qualquer verso está vazada a saudade poética que a memória canta. A fascinação pelo campo, o idílio das águas, a inquietação o sonho, a ternura o desencanto e a luz, toda uma bagagem poética donde sobressai o sentimento saudade... motivo predilecto da poeta. visite-me também em: http://flortriste1943.blogs.sapo.pt/
sábado, 21 de julho de 2018
a sombra...
hoje anda como quem morre
sem encontrar direcção
é a sombra duma lembrança
no retrato uma recordação
secou o sol o seu rosto
onde cabia por inteiro
secos ficaram os olhos
não há mar, mas um ribeiro
já não são os seios duros
nem as mãos colhem frutos
passa por ela a sombra rente
seus sonhos são agora prematuros
morre tão completamente
no rosto olhos sem brilho, enxutos
sufoca o grito na garganta
a vida a meio parou
a sombra já se agiganta
sua pele o outono manchou
traz o corpo na prisão
e a alma em liberdade
perdida no seu cansaço
só o sonho e a saudade
tomam conta da sua mão
sentimentos e emoções
ao longo de anos acumulou
indagações ao divino sem resposta ficou
a quem entrega o destino?
em crepúsculo a vida, num
inverno se tornou.
natália nuno
rosafogo
terça-feira, 17 de julho de 2018
que o poema não me ignore...
quando o corpo tropeça
a alma guarda as memórias
e é como se um enxame de saudades
viesse p'la mão do vento a trazer-me alento,
e tudo recomeça
vem aquela lembrança que não esquece
que traz com ela a luz e me afasta da sombra
surgem pétalas de luz na escuridão
disfarço o vazio que há em mim
e ninguém sabe o que me vai no coração
a minha alma desorientada
é como o canto nocturno duma cotovia
cinzenta num inverno de nostalgia
quando o corpo tropeça
é tanto o tédio,
que as palavras desbotadas saem de mim
vindas dum labirinto da mente
sem fim.
entre pétalas de solidão, caminho p'lo tempo,
que o tempo apagou
mas a luz me dá a mão
no declínio a vida desatou
em mim a saudade
e até o brilho dos olhos me tirou de verdade
mas quando o sol declina nas horas tardias
no sonho, encontro-me ainda menina.
natalia nuno
rosafogo
o vazio em mim...
sem uma só lágrima
não encontro o pranto
agora choro por dentro
enquanto a vida
como vôo a precipitar-se
se escoa e revoa até cansar-se,
e a mim só resta esperar
enquanto a morte urde a trama
e numa manhã qualquer
me diz: anda mulher!
- por mim chama!
a abundância das estações terminou
não há mais o espanto no olhar
não há mais o coração a palpitar
como outrora,
abruptamente chegou a hora.
liberto lembranças enredadas na teia
da nostalgia
deixo as palavras foragidas, em liberdade
os pássaros virão chorar por mim todo o dia,
e eu partirei com saudade.
natalia nuno
10/12/2003
subida nostálgica...
já as sombras das árvores se deitam
e a tarde empalidece
e, a enlaçar-e apenas a saudade
pois no presente nada mais acontece
sobre as tílias um ar quente,
inconscientemente, ponho-me a fantasiar
noutro tempo que era tamanho
e passava tão devagar...
hoje traz asas na corrida
e depressa me leva a vida.
que escada enorme foi esta vida
tanto degrau, tanto degrau na subida
agora, vai a uma ponta
oiço meus ais, por entre vendavais
escadaria imensa que agora me amedronta,
trago o sol doendo nos olhos
e lágrimas caem ao chão
subida nostálgica, que me afronta o coração
a vida dobrou-me, dobrou-me,
e eu julgando morrer, cansada de subir
enquanto me afasta, me rouba as certezas
do que está por vir...
é agora outono, não me apresso
subo devagar e não esqueço
que subo para atrás já não voltar
a felicidade não deu ponto sem nó
ficou longe e eu aqui tão só...
sou passado, vento que dobrou a esquina
sou o sol que já declina
para trás ficou a alegre menina em flor
a tenra idade e o fulgor da mocidade,
no velho albúm, conservo o seu sorriso
mato a a saudade, ouvir-lhe a voz
para me sentir viva...preciso!
natalia nuno
rosafogo
segunda-feira, 16 de julho de 2018
os sonhos na mão...
preciso falar das noites
quando as recordações latejam
na mente e passam por mim como pardais
esvoaçantes, apressadamente.
suspensa, deixo-me em pensamentos irreais
num estremecer de vida
e é como se fosse um tempo novo
a memória vibra como uma campainha
no silêncio caminha e se distende
enquanto o peito fala e as mãos escrevem
o que ninguém entende
só os pássaros que em mim bebem
vão fazendo a viagem de penas soltas
recrio e dou voltas e volto a ser criança
criança que embala o sonho
que não dá descanso às palavras
que guarda na lembrança com amor
o adro a praça, o rio e as águas verdes
que deram ao seu olhar a cor.
falo das noites, quando as lembranças
são mais vivas, e as saudades surgem
intempestivas, ou afagando meu pensamento
e nele vão deslizando...
a noite me envolve, o sono não chega
e é minha mãe que o cobertor me aconchega
os sonhos eu teço num breve tecer
quem sabe amanhã possa já não ser
dobro e desdobro nos olhos primaveras
lembranças se enredem em mim
como folhas de heras
daqui a pouco nascerá o dia, celebrarei
a chegada, colho mais uma saudade
e ponho-me a cismar lá mais para a tarde
e é como se fosse um tempo novo...
natalia nuno
rosafogo
quinta-feira, 12 de julho de 2018
sobras duma lágrima...
na esquina, há sempre uma música triste
duma flauta que não sabe que a luz existe
ecoa p'la noite adentro entra no coração,
e é tão triste como eu
atormentada com a escuridão do céu.
em noite que não tem lua,
noite desolada sem luar
espero-te à esquina da rua
enquanto a flauta tocar.
já tenho a porta cerrada
não vou ouvir a flauta mais
deixei lá fora meus ais
ouço-os p'la janela entrefechada
trago agora a alma estranha
e a vida já sem vida
a palidez meu rosto banha
calou-se a flauta... voltou a lua
pranteiam estrelas distantes
eu de feridas abertas,
deixaste meus sonhos errantes
já nem sei se sou tua
já não ouço o doloroso concerto
à esquina da rua é agora um deserto.
vou esconder este meu pesar
esquecer os murmúrios melodiosos
já não quero sentir nada
nem por ti trazer meus olhos chorosos.
natalia nuno
rosafogo
poema escrito 2002
um pouco modificado para poder ser
partilhado.
terça-feira, 10 de julho de 2018
não há saida, não!
está o amor no mosto
logo será licor puro
que se bebe com lentidão
juro, que embebedo meu coração
vai subindo no sentimento
senta-e na escada do olhar
e é vê-lo com assombro
em bebedeira endoidar...
a aguardar da partilha o prazer
e o desejo adivinhado
de colheita bem frutado
e o desejo de o querer
seduzidos e sedentos
desta vontade adivinhada
nascem outros sentimentos
prontos a fazer escalada
desprende-se a alma e voamos
nem precisamos voltar
e há estrelas a pulsar
enquanto nos amamos
e tudo isto se passa sem conta
nem medida e o amor
é o licor de planta desconhecida.
que embebeda docemente
uma anestesia diferente
para a qual não há saída.
natalia nuno
rosafogo
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