quinta-feira, 26 de junho de 2014

reino da fantasia...



Amiúde me ausento do mundo
ergo-me qual borboleta liberta
num desapego da realidade,
nesse vácuo a felicidade
é certa...
ali fico como se não fosse
nascida,
 lá encontro a juventude
perdida,
o rosto num quê de frescura
com a fronte desenrugada
na flor da idade,
com que ternura me chega
a saudade!
vinte anos, sê-lo assim por toda
a vida,
esplendor de ilusão
que sustenta meu coração

mas a borboleta vai-se definhando
ao tempo insaciável,
reclamando sem esperança,
só o amor lhe dá vontade de viver
de resistir, e a cada lembrança
batalha por não esquecer.

sentada aqui na noite crescente
tempo morto,
sem sopro de vento
escrevo em papel velho esmaecido
esboroando-se a forma, o sentido
e qualquer significado
em sentida saudade
leio e releio, penso e repenso
não vá ter esquecido
o inesquecível dia de noivado,
o gozo do amor e da vida
a felicidade,
e em tudo há um prazer
que me embriaga, me extasia,
então... ausento-me para o reino da fantasia.

natalia nuno
rosafogo





terça-feira, 24 de junho de 2014

ao Deus que nunca vi...




dedilho o terço
ao Deus que nunca vi
mas que sei que está aqui.
aqui, nas macieiras floridas
nos ramos das nossas vidas
nas igrejas e catedrais...
caem meus pecados ao chão
sou humana,  vou pecar sempre mais

florescem arbustos no peito
viro terra sem mácula
crescem em mim os lilázes
viaja em mim a primavera
Deus quer-me ser perfeito
saber-me anjo quem dera!
mas faço parte da terra,
nem sempre a ventura me espera

Jesus me olha da parede
e eu com o terço na mão
ébria de sonho e de sede
nem vejo se me sorri ou não,
elevo meus olhos ao céu
pesa-me o peito o Seu rosto é triste
misericórdia...triste está agora o meu...

Há pregos espetados na nossa solidão.

natalia nuno
rosafogo





sexta-feira, 20 de junho de 2014

o esquecimento abre passagem...



Corre o dia,
e uma luz coada entra pelas cortinas
antigas, a solidão me faz
companhia,
adensa a noite
e desarruma a minha mente
e assim a flor desfolha até às
pétalas finais, como o sol
que se apagou, derramando
um vazio que a destrói.
Transporto sonhos ante um inverno
que me espera, a solidão dói,
o esquecimento abre passagem
e cada lembrança é já indelével
imagem,
como casa desabitada, mofenta
arrasada, onde já ninguém responde
minha alma, anda não sei por onde!
Minha vontade, ainda
inventa versos como comida suculenta
que me faz bater o peito, e a saudade
traz-me de volta a menina
dizendo-me que sou a mesma d'outro tempo.

o tempo que vai e nada o pode deter
fica a palavra feita nada,
a vida voando para o poente
como a água, que não volta à nascente

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 13 de junho de 2014

palavra aprisionada...



Trago a palavra aprisionada
ocupa o coração
e é só já lembrança
é ventura, desventura, a desgraçada
a palavra que fala de mim
e constantemente de ti
é a paz que me traz a alma apaziguada
e é meu céu, me fecunda de felicidade
é um grito d'amor sentido
é a palavra é a saudade

a palavra que nasceu amaldiçoada
a que trago aprisionada
a que nasceu para sofrer
ou a outra com que brinco
e me desenfado
ou ainda a que escrevo com afinco
ou a que deixo na garganta calada
a palavra que transborda da minha alma
aquela que é meu fado
ainda a que me penetra o coração
que traz o fogo que me anima
a que nasce da minha vontade
e que é a palavra saudade

a palavra que não me abate mais
a quem me entrego com paixão
que amo com exaltação
a quem dedico os meus instantes
com ternura e amor de amante
palavras que exprimem minha
ansiedade
me renovam a alegria e a felicidade
me trazem um vislumbre de esperança
e me sentenciam da dor da saudade.

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 10 de junho de 2014

o amuo da primavera...



Embriaga-me o vôo das aves do céu
embriaga-me o amuo da primavera
esta praia deserta à minha espera
e tu e eu vazios de sonhos...
tu pássaro solto, olhando a ondulação
eu trazendo à flor da pele
a poesia, que é fogo em erupção.

Distantes do mundo
sentimos a benção do mar
o respirar dos ventos
repousamos o olhar no horizonte
cinzento, sem grade nem prisão
deixamo-nos nesta nossa acomodação.

A vida é bola de neve
atormentadora da nossa inquietação
é com a morte laço de união.
Olho o mar imenso
sou uma pequenina gota de água
quem me olhará a mim?
Nesta etapa da vida
a paz é prioridade,
vou subindo os degraus
levo comigo avulsa, a saudade.

natalia nuno
rosafogo





segunda-feira, 2 de junho de 2014

sexto sentido...



Embaciaram os vidros
ficou a memória confusa
e o caminho mais pálido
já não me arrancam sorrisos
andei léguas com passos indecisos
até chegar ao horizonte tão meu
onde a infância é já só uma fábula
onde os verdes já são pardos
turvo o azul do firmamento
e na penumbra o pensamento.

A manhã me oprime, o sol me ignora
a tarde me cega, logo a escuridão
e logo a aurora a urdir novo dia
e é mais um sonho que se abrevia
caminho já sem meus passos
fora de mim, distante,
amor já não é anseio
já não abraçam meus braços.

Ah...mas o sonho sempre germina!
E o coração envelhece mas não pára de amar
o amor a vida domina
e é sempre ele que ergue do silêncio
e nos vem embriagar...

natalia nuno
rosafogo

domingo, 1 de junho de 2014

Como? Não faço ideia!



Gaivotas rasam o mar
o sol se ocultou
a bruma faz-se sentir
misteriosa
como o futuro por vir,
tudo passou
num passo de mágica,
fugaz, pouco mais que um tempo
dum beijo ou dum abraço.

E esta minha vontade de escrever
de fazer e não fazer
às palavras a satisfação,
mas se um sonhador destino
me traz este cegar divino
esqueço a inquietação,
o vazio
e assim, a tristeza, onde a sinto,
a alivio.
O meu sonho é gigante
e sorrio com ironia, minha vida
arquejante...
como foi que deixei morrer
mais um dia?
Utopia, a vida
castelo de areia que ruiu.
Como?! Não faço ideia!

natalia nuno
rosafogo
algarve 12/04/2014