sexta-feira, 9 de agosto de 2013

sonho perdido



hoje a noite chegou formosa
e repentina
trouxe a lua em esplendor
de repente os sonhos afloraram
surgiu o eco da infância
numa lembrança nostálgica
onde está presente o amor...

e é uma felicidade encontrar
tudo o que foi nosso
e na quietude do sonho
eu posso...
abro as janelas da casa onde nasci
olho as nuvens de verão
e o dia comovido me sorri
por que ali voltou meu coração.

outro sonho perdido para sempre
como uma despedida
e os pássaros ondulam nos salgueiros
indiferentes,
e a vida resplandece
mas a o tempo não se compadece.
e a vida foge, foge
é miragem absurda
mas hoje?!
a noite chegou formosa
e repentina...
e eu pude voltar ao tempo
de menina.

natalia nuno
rosafogo

refugiada no poema




nada permanece no que é
os corpos se corrompem
a cada palpitar
há sombras nos espelhos mortos
os olhos já nada querem ver
resta a memória dos dias
refugiada no poema
nas horas incertas e fugidias.

nada permanece no que é
mas ainda assim a vida não acaba
a cada passada a morte à espreita
e sempre mais um pouco
o corpo desaba
e a última esperança se deita.

nada permanece no que é
tempestades se apontam ao coração
já não importa o chilreio das aves
o sussuro do rio que corre
sobe-se mais um pouco e avança-se
os passos hesitantes
tudo parece maldição
a memória cansa-se,
num túnel perdida

e logo depois o frio que asfixia a vida

natalia nuno
rosafogo

quinta-feira, 8 de agosto de 2013

«Tu és ainda muito nova»



Hoje lembrei... nasci num dia em que o rio galgou as margens e alagou as hortas,  soltou-se livre.
Tal como ele, eu, brava nascia, não sorri nem pestanejei, gritei, trazia comigo a impetuosidade e a curiosidade p'lo Mundo onde acabava de chegar.
Dentro de mim ainda essa criança pequena, num sopro de inspiração, lá volto à infância, onde a vida tinha outro sabor, e é um amargo doce que a recordação me provoca. Para além da criança, lembro a adolescente que conservo com comovido afecto, feliz, descontraída, assim a recordo.
Orgulho-me da aldeia, amo os que lembro com saudade, pobres materialmente. mas ricos interiormente, foram eles que deram sentido e esperança ao meu desabrochar.
Hoje lembrei também dos rapazes de mãos rudes e gestos desajeitados e dos bailes onde tanto me divertia. Há uma história que conto a mim mesma diáriamente que jorra desta fonte que é o meu passado.
Passeio pelo Mundo onde me deixo enfeitiçar por belos recantos, mas é sempre a volta à aldeia que profundamente mais me absorve, onde a memória fica viva e clara.
A aldeia e eu seduzimo-nos mútuamente, há recordações que acarinho e evoco nas minhas horas silenciosas e sombrias.
E assim me vou distanciando, sentindo-me um ponto ínfimo no final do caminho.
Meu corpo já não me pertence, devora-me o tempo, mas a Poesia reconforta-me um pouco, e a memória é guardiã do arquivo das minhas lembranças.
Repito para mim:

«Tu és ainda muito nova»
Tudo não passa de ilusão
A imagem que vês no espelho
pedindo socorro não és tu,
essa não!
Carrega aos ombros aquela que só tu vês
Tu és, a que vive dentro da tua memória
Essa é que és!
A que sonha que há-de ir mais além
Já sem nada de seu
Há-de sorrir como ninguém
Como águia, voar p'lo céu.
Conquistar a Vida
Pois nasceu para voar
Olhos bem despertos
Ouvidos bem abertos
E de emoção gritar.
Que és eternamente jovem!
Sofres  da passividade
de ver o tempo a passar
Mas na saudade
Sabes o coração reconfortar.
natalia nuno
rosafogo
Este pedaço de prosa seria para colocar no meu livro, mas entretanto, não foi aproveitado, como o escrevi com toda a minha vontade, lembrei de colocar aqui.

Carta de despedida e saudade


15 de Agosto de 2011 às 0:11


Perdi-te mas continuas a olhar-me, a ver-me, a sentir-me, como se estivesses fisicamente ao pé de mim é assim que eu sinto. Mas foi uma dor sem tamanho, senti-me infeliz e solitária. Os momentos de dor e a consciência da fragilidade, fizeram-me ter fé e tornaram-me mais humilde. Foi mais triste a tua partida, sabendo do teu apego à vida, e doloroso foi esse momento, a falta do teu olhar é terrível e provoca uma sensação de vazio total que eu espero o tempo venha a curar. A sensação da tua perda me causou revolta, só a fé me vai colocando de novo no caminho a seguir.
A tua passagem chegou ao fim, e eu vou fazer por continuar a sorrir, ainda qua as lágrimas muitas vezes me corram p'la cara. Vou encarando a vida efémera como ela é, quando chegar ao fim da caminhada espero ter alguém ao meu lado tal qual tu me tivéste a mim MÃE, até sempre.
rosafogo
natalia nuno
junto a minha carta ao Desafio da  amiga Ana Casanova.


um achado que resolvi trazer para não perder...

sexta-feira, 2 de agosto de 2013

não me encontrei




não me encontrei
nem a lua me soube dizer de mim
e a primeira pomba
que avistei
vinda dos confins,
pousou no sonho
no céu vazio
e a noite nos cobriu.

não sei da saída
não me encontrei...
nem no berço mal nascida
nem na penumbra da tarde
mostrem-me a saída!
ou para sempre morri?
o meu sol já não arde?!
de lágrimas o sonho poluí.

não me levem a lembrança
deixem-me a doçura no peito
separem-me até da esperança
deixem-me neste morrer perfeito.

quando me encontrar!?
enfrento-me...
e se a agonia voltar
erguendo-se no meu sonho,
hei-de as lágrimas amordaçar
e como criança perseguida,
hei-de encontrar uma saída.

procurar-me-ei até à exaustão
nos escombros da luz
que ainda existe,
em meu coração.

rosafogo
natalia nuno
imag-net


segunda-feira, 29 de julho de 2013

poema de amor



lanço a rede ao fundo,
para vislumbrar o poema
feito de palavra de nada
ou do que não foi dito ainda,
talvez da palavra calada,
duma porta fechada ou aberta,
alento de minha boca
uma dor que aperta,
memória dum tempo
ou da minha força, já pouca.

será o poema pássaro
que voa para o poente
de asas fatigadas
tocando as águas do mar
rumando à eternidade
docemente,
levando com ele meu olhar?

este poema é cego
e causa-me calafrio!
os seus resignados olhos,
são os meus,
às vezes são rio
que já corria
no ventre de minha mãe,
num sussurro morno
onde não há volta.
mas ainda assim me alegro,
porque este poema
é de amor também.

natalia nuno
rosafogo


quinta-feira, 18 de julho de 2013

terra amada



Escuto e estou ouvindo
o toque dos sinos na tarde
que avança
chamam às avé-marias e o povo
está vindo
e eu aí vou ainda criança.
Escuto ainda, estou a ouvir
o açude e a sua melodia
levanta-se um novo dia
aquele que vivi
no instante em que nasci
e o rio transbordando desliza
ainda fazendo alarde
e meu rosto sorri
na monotonia da tarde.

o largo da praça
a ponte serena
atravessada por donzela morena,
nas janelas da tarde o sol fulgura
vai-se a memória, minha visão
já escura
oiço o uivar dos ventos nos telhados
os pomares pelos outonos açoitados
e o rio passa e ri
e o meu sonho adormece ali
ali! na casa que já ninguém habita,
e o meu coração ali fica.

os laranjais sacodem
mil folhas de água
nas roseiras uma última rosa
meu coração amargo
de estar ausente desta terra preciosa.
escuto dos pássaros sua oculta canção
e a inquietude em mim se apaga
este é um dia de alegria
sem solidão
nem a saudade é dor que me alaga
solto minha alma aos ventos
beijo minhas doces lembranças
no outono chegarão os esquecimentos
a idade não perdoa
já não somos crianças.

enquanto houver uma lembrança
uma sómente, na minha memória
fatigada
será a de lembrar para sempre
a minha terra amada.


Poema dedicado à aldeia onde nasci, lido no dia da apresentação do «Pesa-me a Alma»
natalia nuno
rosafogo