sábado, 1 de junho de 2024

dia após dia...

nunca deixei de cuidar
desta minha mão que escreve 
tão sofrida quanto a vida
aos meus impulsos cedendo
sem saber se deve ou não deve

o caminho trilhando
vou molhando de quando em quando
o rosto
como se fosse orvalho do jardim
até o viço das flores vai murchando
talvez com pena de mim!

um passo de cada vez
dia após dia,
como tenho eu passado?
desencantada comigo
talvez, 
por meu passo cansado

aproveito o fresco do amanhecer
esforço-me por despertar
confio-me ao que acontecer
já que a vida não vai parar.

natalia nuno





quarta-feira, 29 de maio de 2024

tão próprio do poeta...

qual o poeta que nunca sentiu
o espaço de noites vazias?
o torturado anseio de escrever
descobrir a esperança
de viver novos dias?!

qual o poeta que nunca se atreveu
sonhar com as asas duma cotovia,
deixar o chão que asfixia
voar p'lo céu,
-  numa nuvem escondida,
como dádiva oferecida?

qual o poeta que nunca sentiu
a evidência da morte?
o escutar da voz que o sentencia
ou o lento ardor do frio
sob uma luz ilusória que o deixa
caminhar à sorte?!

já sentiu o silêncio da noite?
sentiu nele uma prisão,
a lei tensa de cada hora?!

resistir cansado à solidão,
deixar ficar o presente distante,
e tateante, 
ir lembrando o passado
que traz na memória,
- e no coração.


natalia nuno
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quarta-feira, 22 de maio de 2024

versos turvos...



num tempo sem idade
no meu peito nasciam brancas
madressilvas
agora, submersa até ao esquecimento
sinto os arremedos do desalento

nos versos turvos que escrevo
sinto a urdidura da vida que foi dura, 
e que a memória não deixa esquecer
é dor da saudade que amanhece
é o corpo que estremece
horizonte pleno onde volto a nascer

falta-me tudo o que ainda não amei
e os sonhos que aguardei
cada palavra um pássaro que voa
dentro de mim um coração a lastimar
a hora a passar, e não há saudade
que não doa!

o pensamento gira nas lembranças
minha alma submerge e se extravia
escrevo e novamente as esperanças
trazem a luz da aurora ao meu dia.

natalia nuno
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terça-feira, 21 de maio de 2024

como magia...




a minha saudade tem um aroma
familiar
veste-se de menina
traquina, e insiste em me desafiar

apaga as sombras que tem o dia
traz luz na sua capa de âmbar
e cobre de ouro meus sonhos,
é como se me quisesse aquietar
num mágico fulgor, instante de poesia

a minha saudade faz-se convidada,
chega em cascatas
- de ondas insinuantes
minha alma flui calada!

minha saudade, alcança-me
e desvela-se,
e o sol no coração se instala
logo a solidão de volta
quando a saudade abala.

natalia nuno
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domingo, 19 de maio de 2024

escrito na água...



quero viver e deter  
o tempo fugitivo
ser como a luz do sol
caída, só no poente!
abrasar-me no teu olhar vivo
e escutar teu riso transparente

o peso dos dias constante,
esquecê-lo neste instante

deixar que corras 
para os meus braços,
que tragas aquele alegre sorriso,
nos lábios aquele desejo
e, deixar ferver em meu coração
o desejo de mais um beijo

e neste desejo, que surge amiúde
desassossego que a tarde espelha,
olho ao longe a juventude
logo a saudade me aconselha

- esquece o que não tem retorno!
vive em paz este teu tempo morno.

natalia nuno
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sábado, 18 de maio de 2024

outono da saudade...



debaixo das folhas que caem,
o generoso instinto dum poema,
e num monte de palavras escolho
o tema..
levanto a recordação!

meu ouvido distingue
o canto da ave e, 
cansada a saudade,
- abandona-se em meu
coração.

o aroma do trevo faz-se visita
o céu é um oceano cinzento,
enfrento o desvario que em mim
grita.

nem a brisa, 
nem o esquecimento
apagam os anos, 
nem meu lamento
nem desenganos

rasgo a obscuridade
do meu rosto esvaído,
na essência deste poema
a saudade... dum tempo ído.

natalia nuno
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domingo, 12 de maio de 2024

quando me abraças...




quando me abraças
ouço o mar nos meus ouvidos
sonhos, ventos adormecidos,
milagres que me sustentam
na solidão que permanece

os meus olhos aparentam
alegria fugaz que logo esquece

fora de ti a vida dá-me medo
o que nos reserva o futuro, 
que segredo?
o tempo ficou muito longe, abolido
como uma eternidade!
toca meu ouvido, sussurra-me com saudade

e, um sopro d'água fresca
flores de cerejeira logo cerejas
aromatizam o sol da minha vida
quando me beijas.


natalia nuno
rosafogo
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