sábado, 8 de junho de 2019

ladainha...



quando ainda é noite, mas também já é manhã
canta em mim a saudade, lembrando
os passos da mãe no sobrado
a ladainha da avó rezando
enquanto à espreita já o sol pelas frestas do telhado.
a vida já não tem o mesmo sabor,
nem aos meus ouvidos vem o rumor
do rio, quando ainda é noite, mas também
já é manhã, e ele corre com destino certo
e eu de sono esperto
com as ideias em trampolim,
sonhando, tentando descobrir ao que vim.

o sol continua a espiar-me, fazendo um bailado
nas paredes do quarto pequenino
como que a desafiar meus gestos parados
ladino, beijando-me a face
deixando o perfume no ar
e eu oiço os pássaros a acordar
com seu chilrear em festa
quando ainda é noite e a manhã já se avizinha
canta a saudade em mim de novo até à noitinha
e o sonho é tudo o que me resta.

a mãe abre as janelas ao vento da manhã
e abre-se o dia em que a gente vive e sente
que há sempre uma pedra p'lo caminho,
e na minha ingenuidade em flor
sonho e não adivinho
como fazer para acabar este poema de saudade e
de amor...
quando a noite voltar e e ainda não fôr manhã
vai a lua enredar-se, meu coração deste jeito,
continuará a sonhar.

natália nuno
rosafogo
imagem pintarest



quarta-feira, 29 de maio de 2019

fragmentos deste dia...


os dias quase felizes
quando recordo minhas raízes,
ninguém sabe até onde meus pensamentos vão
abro as janelas do peito, e
ninguém sabe quando há chuva  ou sol no coração.
vou arejando p'lo caminho
num passo que já não voa, não corre,
mas o sonho, vive em mim, não morre.
às vezes, a alegria faz-me companhia
como o sol que chega e cobre a areia
quando a noite se desfaz em dia
e, deixa lá atrás a lua cheia,
subo ao céu azul intenso
onde o sol planeja, e o mar me beija.

aspiro o ar que o vento faz mover
e o mar beija-me os pés com ternura,
ali fico a ouvi-lo num sussurrar de afecto
até ao surgir das estrelas com o anoitecer
e num sossego perfeito, aconchego-me ao teu peito
e sei que é sonho...eu sei!
os sonhos para mim foram sempre de esperança
sonhos, são promessas que trago de criança.

natália nuno
Monte Gordo
28/05/2019
imagem pintarest

dormência dos sentidos...





este cansaço nos olhos
este tamanho emurchecer
resto de farrapos, escolhos
caixa de medos a que me entrego sem querer,
murcham comigo as rosas
os sonhos, eles que eram mariposas
já não voam,
exausta, oiço vozes no silêncio da minha surdez
quem sabe sejam os ventos que me trazem os medos
à memória que se despenhou de vez.
tudo agora é despegado de razão
tudo é, coisa nenhuma
o vazio da alma o adormecer do coração
a dormência dos sentidos
nas noites que vão passando uma a uma
a violência do tempo, é ferida que não cura
moldou-me como o mar molda a areia
com batida que sempre dura
fui menina de sonhos desde que nasci
e por sorte serei até à morte
sei ao que vim, tanto me dei
e tão pouco a mim!
sou agora um outono desfeito
à espera que a longa noite chegue
com a solidão dum grande mar
à espera da manhã que não virá
nada sou nada serei, minha voz se calará
e mesmo assim de forma estranha
esta saudade que me acompanha
para sempre ficará
na solidão do que escrevo.

natalia nuno
Monte Gordo 29/05/2019
imagem pintarest


quinta-feira, 23 de maio de 2019

verdade que me desalenta...




dedos de solidão vão desafiando
recordações,  como um sopro de vida
permanente, e o coração sangrando
como se o  resto da vida, estivesse por Deus
esquecida...
dedos de solidão que abrem às memórias
passagem,
incendiando a saudade,
onde cai cega a impiedade
quando me lembra agora a minha imagem.

quanta mudança depois da última vez
que me vi
reconforta-me a esperança, olho atrás e
foi o tempo que me perseguiu ou eu o persegui?!
queixo-me de saudade em vão
agora todo o dia é já penoso
mas o meu coração é ainda corajoso
vou esquecer em vez de lembrar
«olhos que não vêem, coração não sente»
mas há alguma verdade que me desalenta
vejo-a ao me olhar, só o amor me contenta

às vezes, digo-me triste chorando
que o tempo se tornou um peso
creio que se está vingando
por eu andar sempre distraída
e agora ao ver-me caída,
traz até mim com doce fala, a saudade
e os meus dedos não me impedem
de lembrar, a que ficou no tempo a sonhar.

natália nuno
rosafogo
imagem da net


terça-feira, 7 de maio de 2019

Assim é a vida!...



orquídeas silvestres
brilham ao anoitecer,
e o amor é como a flor
na vida o que há de melhor
começa a amadurecer,
ganha uma força vital
amar é tão natural...!

aos quinze anos de idade
- o primeiro amor da m'vida
hoje me dá a saudade
da juventude perdida
da figura franzina
da menina
mais tarde senhora
bonita por dentro e por fora

o firmamento de estrelas vazio
o tempo deixa de existir
dentro de nós um rio
a correr
numa fúria que desliza
vem a morte e não avisa

as orquídias silvestres
renascerão na primavera
em tons sensuais, delicados
abrindo deleitosamente,
tudo tem significado
e cor,
paixão, ternura e amor...

Assim é a vida!

natalia nuno
2002
poema rebuscado duma sebenta
imagem pintarest





o eco da saudade...




atraso de propósito o caminhar
procuro serenar o tempo
até ao vazio do anoitecer
a tarde já se deixa à noite misturar
e assim passa mais um dia.
virá a madrugada adolescente
talvez volte a sentir-me gente.
a minha alma esfria, sinto a vida escorregadia
no rosto um último sorriso
e no coração a desarrumação
e a nostalgia...
levo os dias ouvindo o eco da saudade
olho as flores, sinto-lhes a fragrância
no silêncio da tarde,
e, numa bebedeira de alegria volto
à infância...
sigo sem nada, nem me dou conta
da chegada da escuridão
só o sonho, o passo,  a ilusão
e o sopro da saudade
que me embala neste estontear da idade

ouço os pássaros a recolher
os restos das suas melodias deixam-me lírica
por momentos sou adolescente a correr
e num fascínio incurável,
a menina ali fica...
vagueio indecisa, e a sombra me rodeia
escorrega a noite, no sonho me enredo
não importa se princesa bonita ou feia
o sonho é meu e, a noite é tudo que me resta.

natalia nuno
rosafogo
imagem da net


segunda-feira, 6 de maio de 2019

o meu entardecer...



a primavera vestiu os laranjais
floriu os campos, os silvados
levou para longe os meus ais
abriu as margaridas, abriu as rosas,  deu flor ao alecrim
verdes ficaram as sementeiras, cantam os rouxinóis
meus sonhos calados
e a vida foge de mim...
quem vive vai-se perdendo entre o tudo e o nada,
caminha a sentir-se desesperada
a primavera já não mitiga a amargura
apenas nos olha com ternura
o que a mão de Deus traçou tudo renova,
menos a vida que das mãos voou,
entreabrem-se asas na esperança d' ainda voar
e doces surgem lembranças, como madressilvas
perfumadas... a quem o orvalho mata a sede,
mas a esperança já se perde.

e nas ramagens verdes o vento descansa
para voltar de novo à sua dança
tão breve como foi a vida,
sendo eu menina, sou agora
como flor sem sol nascida

os pensamentos vão e vêm
à plenitude da minha solidão
trazem-me notícias d'outras primaveras
que doces ainda me fazem sonhar
trazendo o sol antigo e meu pensamento dourar
dou graças por este entardecer
completo-me na natureza bebo dela o som e o sabor
e e neste viver, nesta beleza que encontro a harmonia
sento-me aqui ao pé da eternidade, a sentir o coração
a pulsar de saudade, ditosa, a primavera é
meu perene lugar.............................

natalia nuno
rosafogo
escrito na aldeia 26/04