quarta-feira, 4 de julho de 2018

palavras perdidas...


perdem-se as palavras, sem objectivo
como folhas caídas em dia de vento
perdem-se tímidas, sem lenitivo
e ficam perdidas na vida sem tento
e às vezes, não chegam para dizermos
da imensidão do nosso querer
outras saem da boca sem querermos
e dizem o que nos vai na alma, sem temer.

difícil é encontrar as palavras certas
para exaltar adormecidos sentimentos
perdem-se em silêncios, em linhas desertas,
desvanecem, entristecem de tantos lamentos.
são elas beleza, quem escreve não sonha, nem sabe
acha sempre a última mais bela que a primeira!?
quando esta é como o botão que se abre
que o Sol sorrindo leva na dianteira.

tanta palavra perdida e o poeta ao lado!?
perdido também ele na sua canseira!?
nem sabe se lembre... ou esqueça o passado.

rosafogo

natalia nuno





segunda-feira, 2 de julho de 2018

mais morta que viva...



cai o orvalho no meu sonho descuidado
vem do choro das ribeiras ao primeiro
raio de sol, trazido pelo vento norte
traz das rosas o cheiro
e a notícia gélida da morte
estranha mágoa deixa-me pensativa
sinto-me flor em jarra d'água
mais morta que viva.
há nuvens sombrias e os lírios
estão tristes, passam os meus dias
e nem sei se existes, oculto amor
oculta dor, por mim já choram os laranjais
e um rouxinol na tarde canta os meus ais
meus olhos adormecidos, deixei-os a descansar
enquanto o silêncio à minha volta é tumular.

medonha e baça é a luz do candeeiro
chegou a noite saudosa, outro sonho desfeito
descanso a cabeça no travesseiro
e sonho com o amor que me cabe no peito
olho as velhas estrelas, e penso como foi
curto o caminho, o azul já não fica distante
e eu quero deixar-me morrer ...lentamente
à luz do poente.

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 26 de junho de 2018

de novo o amor...



haja mais uma madrugada, apenas uma
em que o amor seja tudo ou nada
q' tudo se esqueça, e o amor não arrefeça
só nós existimos nesta madrugada
só nós sentimos o calor da chama
que não queremos apagada...
aperta-me nos teus braços nus
com as tuas mãos acende o fogo
que o sonho aconteça, se faça luz
deixa-me ser flor a arder
fresca e odorosa
a abrir teu dia, teu corpo no meu
entre o grito de desejo a tocar o céu

traz-me ainda o sabor
que tanto me prende
o resto do fogo que em nós arde
este fogo que se acende
que é tudo ou nada esta madrugada
só mais esta, quero sentir-me mulher
e entre fantasias loucas, redobrar o prazer
na moldura da saudade ainda a chama
e o sabor do teu corpo por inteiro
o meu reclama
impaciente, nesta madrugada
onde me sinto adolescente, de alma
renovada.

natalisa nuno
rosafogo

quinta-feira, 21 de junho de 2018

agora que não me tenho...





palavras são borboletas que esvoaçam
e o meu olhar embacia enquanto passam
nos umbrais da minha alma ainda menina,
vou esculpindo versos nas noites consteladas
os anos me levam, nestas palavras devastadas
eu me reinvento, e
sonho-me a mim mesmo pequenina
escrevo um verso de saudade mais intenso
e quando esquecer o meu nome
escassa e magra será a liberdade
a memória consumida, e a vda
não pode ser mais chamada de vida,
ficarei repetindo palavras aprendidas
na memória presas, despojadas de certezas
na solidão da hora, tudo o que amei esquecerei
agora que não me tenho, as palavras se perdem
e já de nada me servem.

pertence-me o vazio das horas
o vazio das vozes que me falam
e a boca a mastigar indiferença
e na branca nudez da memória
já nem minha história!
nada sei, nada sinto, a mim mesma atada
em mim enclausurada.
e sei e sinto a direcção do vento
ouvindo-o com nostalgia
enquanto continuo esperando mais um dia
um dia de esquecimento...

natalia nuno
rosafogo








sábado, 16 de junho de 2018

o silêncio das palavras...



que importa se mais não sei
só sei...
meu corpo é um barco que oscila
enquanto o vento desliza nos cabelos
e no pensamento uma secreta saudade
que sôfrega bebo,
a luz onde a caminhar me atrevo
espalha-se o silêncio sobre as palavras
a tarde faz-se longa e arrefece
e há memórias que jamais se esquece
que sei eu, dos pássaros nas ramadas escondidos
que sei eu dos meus sonhos perdidos?
que dirão as papoilas que em criança ouvia falar
ou os medronhos maduros que enfeitiçavam meu olhar
que importa se mais não sei
só sei...
que o rio cantava aos meus ouvidos
torneava a aldeia e fugia dos meus pés
correndo de lés a lés,
o salgueiro era altaneiro
teimava em mirar-se no espelho d'água
sacudia os cabelos ao vento
e olhava-me com mágoa
adivinhando por ele meu sentimento

tremulava o orvalho no canteiro
as flores guardavam ciosamente o segredo do mel
e eu embalava o sonho junto ao peito
enquanto me afagavam as madressilvas com seu cheiro
sei também, dos besoiros aguardando o verão
e sei do amor que trazia em meu coração
que importa se mais não sei
só sei...
das fitas de seda que a mãe punha no cabelo
com desvelo,
sei dos abraços e dos laços
do vestido atados atrás
sei das rosas bravas e da lua crescente
e sei do tempo, desse tempo em que me fazia gente
do resto não sei e tanto se me faz

que importa se mais não sei
só sei...
que tudo isto é lembrança, nada eu inventei
é meu norte é meu destino, ouço ao longe
o toque do sino, que não cessa de tocar
e dos alcatruzes ouço o constante soar
sei do trigo e do arado
e sei do meu chão amado.

natalia nuno
rosafogo




quinta-feira, 14 de junho de 2018

a solidão me enfastia...



trago comigo pedaços de tempo d'outros tempos
que vão alumiando meu chão,
enquanto outros descem na noite trazendo
algo perdido, junto à saudade, a desolação
e é então, que a palavra transborda envelhecida
rasga-me os tendões do pulso
fico vencida.
a solidão me enfastia, a memória fica vazia
esqueçam-me nesta solidão obstinada e fria.

percebam apenas que eu me dei conta
que a vida já me abandona
e todos os sentimentos que trago à tona,
são inúteis fragrâncias de flores
são inúteis lágrimas que amam
tudo é silencioso, e a solidão é dona
dona da minha vontade, da felicidade
que me sobrou e eu cinzenta,
dito palavras duras à vida
sinto-a, a respirar na minha respiração
ouço-lhe a acusação...mas
fico da dor despida
e não me dou por vencida

natália nuno
rosafogo

domingo, 10 de junho de 2018

silêncios...



há silêncios que dizem tudo
na aspereza da noite, são desabafo d'alma
nos olhos secos, raios
avermelhados a expurgar a solidão,
as veias soltam-se em trepidação
na quietude, não se ouve nada
a não ser, o bater do coração
a vida já se ajoelha
o tempo no rosto se espelha
assim se faz o começo do fim,
sigo o silêncio que se quedou em mim
na memória há um fogo que arde e não
se consome...uma porta larga que abre,
ao passado, estendo a mão
às lembranças,
o sonho impregnado de brandura e,
com ternura, vou criando asas
para sair da solidão.

sempre a mesma sujeição ao tempo
sempre a mesma memória obsessiva
a lembrar cenas que marcaram a vida
deixaram no peito a saudade viva
esta saudade tão minha, que sinto de verdade
e lá me faço asa, que me leva de volta a casa
mas o tempo se arrasta e da vida me afasta
silêncio mudo que em mim se deita
encontra guarida no peito e ali se ajeita
aceita a oferta do abrigo e quer-se ali comigo.
há silêncios que dizem tudo
atravessam m' alma vazia, meu coração mudo
cansaço na viagem, e passa mais um dia.

natalia nuno
rosafogo