terça-feira, 31 de maio de 2016

poema melancólico....



fico imóvel como o silêncio
incapaz de avançar, de dar um passo
escuto o balançar dos ramos
o cantar dos pássaros
e a dor disfarço...
há um uivo na minha pele
que começa a devorar-me
e o vento aos ouvidos agita-me a ressoar-me
como se fosse trovão rasgando a noite e sua negrura,
e uma súbita loucura se apodera de mim.
vejo a vida e o mundo desprovidos d'amor
perdidos entre desolação e rumor
parecendo esperar por detrás de cada sombra,
a angústia desliza no meu peito
arrojo-me então à impiedade do tempo
abandono-me ao vento e ao esquecimento
onde nem a esperança já incendeia
só a saudade, quebra em mim o silêncio
rompe a minha noite enferma
cresce na minha ideia
uma luz que ainda resta, ainda existe
e a vida persiste...
um dia a morte atravessa o umbral da porta
e me acolhe triunfal, num afã de possessão
levará meu coração...
que me importa, a quem importa!?

natália nuno
rosafogo



terça-feira, 17 de maio de 2016

bateram à porta...



bateram à porta
e o meu coração pulsou nas paredes
que importa...que importa!
se numa obscura inquietude me vedes?
foram as minhas perguntas
uma e outra vez
lá fora o vento rasgando o ar
como um corcel e na minha pele
um arrepio me percorre
numa oculta linguagem.
bateram à porta
estranha possessão que me prende
e se estende, colocando-me no vazio
silenciando-me na solidão...
como estátua cativa
já nem sei se estou morta ou viva
uma confusa lágrima vai-se perdendo
sem alento, afundo-me no esquecimento
a vida é carta por fechar
a morte a resposta
que tanto queria ignorar

bateram à porta
confundindo os meus sonhos
e eu nem viva nem morta
o que se passa? o que procura?
e na imobilidade dum triste momento
lá fora rasgando o ar o vento...
com força forte e decidida
tal como a morte a levar a vida.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 11 de maio de 2016

silêncios...




deixem-me os versos
são tudo o que me basta,
deixem-me alimentar
desta quimera, deste sonhar
são eles e a saudade
o que me resta de verdade
tudo o mais que quisera
amor, companhia, ou alegria
fazem parte de dias lendários
do sigiloso fogo da felicidade
lanterna que nos alumia...
fecho os olhos e agradeço a Deus
e é delirante este meu sonho
mas vibrante de harmonia,
e ardentes são os desejos meus.

a luz  me envolve e inspira
neste tempo que me aprisiona
jamais desalento algum me aniquila
trago o desejo de ser feliz...de mim ser dona
se houver sofrimento, também
haverá ventura
que haja desalento, também fervente ternura.

ardem de doçura os meus silêncios
entrego-me à poesia com paixão
e é a saudade com toda a sua longitude
que preenche este meu desmesurado coração
me dá sentido ao viver
e assim me sinto grata, a caminho do envelhecer.

natália nuno
rosafogo



terça-feira, 10 de maio de 2016

sombras de outono....

anjos decoupage laurie

sou alcachofra perdida
incapaz de ao vento resistir
cicatrizes trago da vida
algumas marcas da idade
mais algumas que hão-de vir
que mas trará a saudade.

não esperes mais por mim
acabou o tempo de mão dada
passaram décadas sem fim
perguntas não têm resposta
não há certezas de nada...
nem da vida faço aposta

recordo domingos à tarde
velhas fotografias desbotadas
hoje lembro com saudade
e com o coração a bater
recordações abandonadas
sombras de Outono a crescer.

não esperes mais por mim
os dias já não são dias
noites são quase nada... assim,
nem sei se as horas estão certas
pulsações batem sombrias
silêncios, pisadas incertas.

já não posso mais ousar
olhar à noite as estrelas e a lua
e nem o fogo do luar
prefiro o rumor da ventania
que me traz notícias tuas
ao coração dia a dia...


rosafogo
natalia nuno
aldeia 19/01/2003

segunda-feira, 9 de maio de 2016

palavras que florescem...



palavras são pombas que voam sem medo
têm asas que rompem o silêncio
palavras de amor e ternura,
que te digo ao ouvido bem cedo
perfeitas, sabendo-as eu de cor
são como beijos, como frutos sumarentos
sementes de desejos e amor que semeio em mim
e que florescem como flores no jardim
e se a saudade traz a tristeza presa
ficam as palavras sombrias
lá se vão os alicerces de esperança
voam os dias, pois pouco já me resta
vai longa a vida na velhice nos lança

meus olhos tombam sobre os teus
e o que dizem são palavras paridas
de ternura, são lírios a lembrar a desventura
do nosso tempo a terminar...
a ti, entrego-te as últimas as verdadeiras
palavras de mágoa, infinitamente tristes
como se fossem as primeiras,
que eu não consigo calar

em meus ouvidos cresce a surdez desolada
fica a vida enlutada. surgem feridas abertas
e já todas as palavras ressoam incertas
como inventar os sonhos e escutar a alegria?
na alma uma espécie de resignação
fica o silêncio a cercar-me a memória
e as palavras que não me abandonam
na solidão...


natalia nuno
rosafogo





quarta-feira, 4 de maio de 2016

lembrança dela própria...


uma infeliz vontade de fraquejar
às vezes a invade, sente-se tão morta,
procura-se noutro lugar
ainda que não se ache nunca...
é lembrança de saudade dela própria
mesma lembrada, é a ilusão e a verdade
essa verdade a sucumbir,
e a  esperança
prestes a desistir...a
vacilar a vontade!
traz com ela o tédio dos dias
e é no sonho que encontra o remédio
naquilo que lhe vem à memória
no silêncio que a rodeia
nos pensamentos que são como aranhas
prontas a tecer a teia,
ou borboletas
em vôos agonizantes, que a levam até à saudade
o coração já leva um caminho longo
de abundantes nostalgias,
sempre com a tenebrosa dúvida
ao longo dos dias,
de quando partirá...

o destino cumprirá,..
não lhe queimem a ilusão
deixem-na ser ainda como um sonhador
arauto de imenso amor...
imenso amor à vida, como menino a colher uma flor,
e quando morrer...pois que morra... d'amor!

natalia nuno
rosafogo


terça-feira, 5 de abril de 2016

aquela criança...



há tapetes de flores nos campos
ressuscitaram as papoilas
e há uma proximidade
entre elas e a minha saudade
vejo-as à lonjura, mas vivo na procura
é amor que por elas nutro desde criança
à procura de sonhos brinvava com elas
não sei se tinham angústias, mas pareciam-me felizes
e feliz era eu, rimava flores com amores e sonhava...

as minhas mãos eram como borboletas
a acariciar cada uma delas, e os sonhos íam
encubando em mim, havia sempre uma rã
invejosa por perto, um pássaro fazendo ninho
e no caminho havia giestas saciadas pelo sol
e nem a bruma nem o nevoeiro
cobriam o sorriso do girassol

ah! saudades são inquietas águas
que trago em mim da nascente,
pedacinhos de tristeza que a gente sente
pássaros, que de quando em quando vêm espreitar
meninas sobre a relva do coração
atalhos à espera da primavera
rasto de andorinhas a pulsar lá p'lo verão,
saudades... são donas dos meus vendavais
que ameaçam continuar...
a moldar a minha esperança
como se eu fosse ainda aquela criança.

natalia nuno
rosafogo