terça-feira, 10 de maio de 2016

sombras de outono....

anjos decoupage laurie

sou alcachofra perdida
incapaz de ao vento resistir
cicatrizes trago da vida
algumas marcas da idade
mais algumas que hão-de vir
que mas trará a saudade.

não esperes mais por mim
acabou o tempo de mão dada
passaram décadas sem fim
perguntas não têm resposta
não há certezas de nada...
nem da vida faço aposta

recordo domingos à tarde
velhas fotografias desbotadas
hoje lembro com saudade
e com o coração a bater
recordações abandonadas
sombras de Outono a crescer.

não esperes mais por mim
os dias já não são dias
noites são quase nada... assim,
nem sei se as horas estão certas
pulsações batem sombrias
silêncios, pisadas incertas.

já não posso mais ousar
olhar à noite as estrelas e a lua
e nem o fogo do luar
prefiro o rumor da ventania
que me traz notícias tuas
ao coração dia a dia...


rosafogo
natalia nuno
aldeia 19/01/2003

segunda-feira, 9 de maio de 2016

palavras que florescem...



palavras são pombas que voam sem medo
têm asas que rompem o silêncio
palavras de amor e ternura,
que te digo ao ouvido bem cedo
perfeitas, sabendo-as eu de cor
são como beijos, como frutos sumarentos
sementes de desejos e amor que semeio em mim
e que florescem como flores no jardim
e se a saudade traz a tristeza presa
ficam as palavras sombrias
lá se vão os alicerces de esperança
voam os dias, pois pouco já me resta
vai longa a vida na velhice nos lança

meus olhos tombam sobre os teus
e o que dizem são palavras paridas
de ternura, são lírios a lembrar a desventura
do nosso tempo a terminar...
a ti, entrego-te as últimas as verdadeiras
palavras de mágoa, infinitamente tristes
como se fossem as primeiras,
que eu não consigo calar

em meus ouvidos cresce a surdez desolada
fica a vida enlutada. surgem feridas abertas
e já todas as palavras ressoam incertas
como inventar os sonhos e escutar a alegria?
na alma uma espécie de resignação
fica o silêncio a cercar-me a memória
e as palavras que não me abandonam
na solidão...


natalia nuno
rosafogo





quarta-feira, 4 de maio de 2016

lembrança dela própria...


uma infeliz vontade de fraquejar
às vezes a invade, sente-se tão morta,
procura-se noutro lugar
ainda que não se ache nunca...
é lembrança de saudade dela própria
mesma lembrada, é a ilusão e a verdade
essa verdade a sucumbir,
e a  esperança
prestes a desistir...a
vacilar a vontade!
traz com ela o tédio dos dias
e é no sonho que encontra o remédio
naquilo que lhe vem à memória
no silêncio que a rodeia
nos pensamentos que são como aranhas
prontas a tecer a teia,
ou borboletas
em vôos agonizantes, que a levam até à saudade
o coração já leva um caminho longo
de abundantes nostalgias,
sempre com a tenebrosa dúvida
ao longo dos dias,
de quando partirá...

o destino cumprirá,..
não lhe queimem a ilusão
deixem-na ser ainda como um sonhador
arauto de imenso amor...
imenso amor à vida, como menino a colher uma flor,
e quando morrer...pois que morra... d'amor!

natalia nuno
rosafogo


terça-feira, 5 de abril de 2016

aquela criança...



há tapetes de flores nos campos
ressuscitaram as papoilas
e há uma proximidade
entre elas e a minha saudade
vejo-as à lonjura, mas vivo na procura
é amor que por elas nutro desde criança
à procura de sonhos brinvava com elas
não sei se tinham angústias, mas pareciam-me felizes
e feliz era eu, rimava flores com amores e sonhava...

as minhas mãos eram como borboletas
a acariciar cada uma delas, e os sonhos íam
encubando em mim, havia sempre uma rã
invejosa por perto, um pássaro fazendo ninho
e no caminho havia giestas saciadas pelo sol
e nem a bruma nem o nevoeiro
cobriam o sorriso do girassol

ah! saudades são inquietas águas
que trago em mim da nascente,
pedacinhos de tristeza que a gente sente
pássaros, que de quando em quando vêm espreitar
meninas sobre a relva do coração
atalhos à espera da primavera
rasto de andorinhas a pulsar lá p'lo verão,
saudades... são donas dos meus vendavais
que ameaçam continuar...
a moldar a minha esperança
como se eu fosse ainda aquela criança.

natalia nuno
rosafogo


quinta-feira, 31 de março de 2016

de cabeça às voltas...



se houver ainda quem
não tenha entendido
apesar da pouca luz existente
eu sou de carne e osso, sou gente
mesmo na penumbra...
chego à última curva da estrada
levo o traço bem definido
para trás a vida malfadada
acrescento... que não deixo testamento
a partilha de bens está feita
e eu estou resignada...
mas se houver quem não tenha entendido
basta meditar sobre o ocorrido,
meditar dá sempre os seus frutos.

não quero choros nem lutos
num ápice passou a vida
e o céu já começa a escurecer
não sei a distância ainda a percorrer
este é um tempo em que os tempos
me voltam à memória, sonhos de água
sem mágoa, e agora
o destino derradeiro desta aventura
não interrompam a marcha
chegou a altura...
ainda que me vejam pesarosa e
de sobrolho carregado

que ninguém adie
o que não pode ser adiado.

natalia nuno





quarta-feira, 30 de março de 2016

estar e não estar...



não há muito mais tempo
os dias e as noites já não me suportam
e eu não quero mais estar aqui
onde tudo já vi, onde tudo já senti,
nesta viagem que não sabe parar
e eu sinto que é estar e não estar
andei dias sem conta, vivi, morri
vagueei no remanso tranquilo das
mil e uma noites, sonhei, amei
desejei matar saudades, e pouco depois
o sermos apenas os dois...

e no ritual do encontro seres o vento
que me toca, o sonho feito realidade
o sorriso de quem ama, a saudade sem igual
esquecer da amargura de existir
da mágoa desta solidão...
e com os sentidos em turbilhão
fazeres-me morrer, de amor endoidecer
e acreditar, uma vez mais, uma só
ainda me movo em direcção à vida
que se vai fazendo cumprida...

natalia nuno






segunda-feira, 28 de março de 2016

deitei-me à estrada...



habitarão lembranças em mim,
até chegar meu próprio fim
sem saber nunca quando parar
umas perto,
outras nas sombras a agonizar...
deito-me à estrada nos ramos da noite
os sonhos vão-se amontoando
não ouso palavras,
estrelas urdem o futuro
e eu sonhando, o caminho é duro
mas o desejo  arde até ao delírio
e como ave embriagada,
como estrela alumiada
com o olhar procuro
o amor, que minha alma quer
e o coração solicita.

dos meus olhos tranquilos
se apodera o verde da terra
ficam seara onde o vento ondula
o silêncio se impõe
e a vida dispõe...
quem inventou a ternura
aquele rio de amor vivido
até à loucura?
as nossas vozes derretidas, a entrega, a paixão
é agora o fermento e o pão
o fogo da felicidade
que hoje me trouxe a saudade...


natalia nuno