sábado, 4 de novembro de 2023

modo de lembrar...




amanhece na saudade
segura um tempo que passou
esquece a realidade
onde a fatalidade dá conta
do mundo

relembra os campos em ondas de lírios
recorda a face na plenitude de rapariga
suas asas esquivas de gaivota
e dos livros que lia,
- a palavra amiga.

trazia na pele o odor a tomilho,
o corpo anelado de ternura
e no olhar um certo brilho
que mistério traria a vida futura?

moinho de vento no seu esplendor
e no pensamento a nostalgia das noites
d'amor.
girando nas lembranças o coração
descobre no seu pulsar
o quanto foi bom amar,
nas lentas palavras que sua mão
desenha, não deixa de sonhar.

natalia nuno
rosafogo
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quinta-feira, 2 de novembro de 2023

palavras errantes...



ao sabor do tempo
escrevo sem sossego
cada hora é subtraída à vida
e as palavras errantes
dizem-me a todos os instantes
que vão cair no vazio
da memória, 
sem sentido 
com destino incerto
enquanto novembro chega
com a nostalgia por perto

tacteiam no abismo
à porta da escuridão
enquanto meu corpo treme
e não detenho a minha mão

fico estátua ao relento
calam-se as aves, ouço o tamborilar
da chuva e do vento
é a natureza a ditar a sua lei
a noite é mais uma mão que tudo cerra
mas da força, um pouco guardei

no coração guardo também a grandeza
dos sentimentos
e o silêncio assegura-me liberdade
dos pensamentos
enquanto por fim
assoma em mim a saudade.

natália nuno
rosafogo
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segunda-feira, 30 de outubro de 2023

meus versos...



meus versos 
são barco sem leme
vogam pela vida
como quem nada teme,
ao sabor do vento, sem inquietação,
cheia de memórias ouço-lhes o ruído
às vezes tiram-me da solidão
desafiando-me, horas a fio ao ouvido

versos que correm p'la minha mão
relembram a vida toda
e nem uma palavra sobre o futuro
a não ser a agitação
dum tempo que se prevê duro

nos meus versos tristes
dissipa-se a aurora
e o tédio neles vigora!
quando a esperança me abandona
as estrelas já não fulguram,
nem as searas aprendem o vento

neles se esvai meu pensamento.

natalia nuno
rosafogo
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quinta-feira, 26 de outubro de 2023

entre o desejo e o nada...

as minhas mãos bocejam sem 
remédio,
até meus olhos me mentem
mostrando fadiga,
ou será tédio?
escuto a sede do minha mente
martelando incessantemente



olho-me ao espelho com
descrença,
o mundo envelheceu
e também eu!

estou entre o desejo e o nada
talvez seja negação,
sinto a ponta da agulha gelada
caindo... no coração?!
há um rumor triste neste quarto
que é meu mundo envelhecido
o tempo corre e eu dele me aparto
pressinto as cores escuras do Outono
chuva de folhas como o passado
vivido...

como papoila golpeada pelo vento
assim vulnerado, trago meu alento.

natalia nuno


terça-feira, 24 de outubro de 2023

tudo se imagina ainda...


procuro algo que assente
bem nos meus sonhos
onde assome um pouco de felicidade
caprichosamente o coração sente
falta de dias risonhos

afaga-me uma voz misteriosa
a saudade!
não sei bem o que escolher
vou navegando neste veleiro
que é minha vontade.

parar é morrer!
e o sonho é persistente
nem sempre se esfuma,
nem as quiméricas lembranças
que são minha intimidade
vão da memória esmorecer

procuro a andorinha que traz
o esplendor da manhã,
procuro a paz, 
por entre a ramagem
onde possa beber o sol

procuro as estrelas
que assomam na viragem do dia
ou o doce da tarde, a nostalgia,
hora em que a ternura se faz tombar

e a saudade me deixa cânticos pelo ar.

natalia nuno







sábado, 21 de outubro de 2023

sonhei estar de volta...



há flores que ressurgem sempre
numa manhã de primavera
e há odores de frutos amadurecidos
à espera de serem colhidos
no olhar, uma luz que passa
e não volta mais,
e hora a hora, a morte nos espreita
e um não, não aceita.
nesta tarde que é apenas a tarde
de mais um dia,
não há rosto que sorria.

como vai longa a distância
nem é sábado, nem domingo
visto roupa adomingada,
dou comigo, indo à oração
logo a lua prateada
me leva p'la mão...

meu sonho enlaçado no nada
diz-se de boca em boca
que voltei!
o querer faz acontecer
e eu, leve como a aragem
estou em casa de novo,
volto a ser, a menina do povo.

natalia nuno
rosafogo



imagens d'água...



nos montes o ouro queimado,
faz o sol a despedida
na mente um espaço fechado
guardando lembranças da vida
um ar frio, esvoaça a cortina
dos meus olhos,
lembro a menina que se banhava
no rio...sua saia aos folhos.

o olhar perde-se na vastidão
esgota-se na distância
saudade, 
sinto-a, permanecer no coração
saudade que vem da infância

vão e vêm imagens d' água
vai e vem a minha mágoa
minhas veias quase a estalar
e na mão que escreve livre
vive um melro

a saudade a chorar!


natália nuno
rosafogo