domingo, 2 de janeiro de 2022

flor murcha...



a tua boca de cerejas viçosas
com sorrisos e sabor tão doce
são a tentação de todas as rosas
que mais queria, só minha fosse.

pede-me o corpo que já declina
e tem do inverno a austeridade
exalta o desejo voltar a menina
esgota a coragem, surge saudade.

perco o olhar, lânguida vastidão
apagam-se os dias sem surpresas
nada procura nem espera o coração

das poucas palavras inda por dizer
já não há nelas nenhumas certezas
só anseio de quem flor não pode ser.

natalia nuno
rosafogo

sábado, 1 de janeiro de 2022

contigo por perto...



trago sonhos guardados
num beco da memória sombria
sempre por mim lembrados
nos silêncios do dia a dia,

por entre nuvens dum céu cinzento    
quando o chão quase me falta
abrando no silêncio o coração
que quase do peito me salta.

aos poucos esbate-se na memória,
o caminho que ousei percorrer
como a vertigem dum voo
que só eu posso entender

na imaginação distante
há como que uma musicalidade
e quando a lua aparece
contigo por perto, sinto de ti saudade

guardo o som que é meu segredo
e embalo a memória nesse encantamento
vai-se a tarde, anoitece cedo,
e eu neste enfeitiçamento

vejo passar serenamente a tarde
meus olhos estão cheios de lembranças
doutros entardeceres
o coração ainda arde
com o amor que inda me deres.

natalia nuno
rosafogo
 


saudade...




nunca pensei que seria tão amarga,
agora até a lua anda estranha, 
o dia já escureceu, 
e esta saudade que não me larga, 
tamanha!
tão próximos... nos sentimos distantes,
tu e eu...
reúno as minhas mãos nas tuas
e a tarde fica parada,
a vida sem sonhos é nada,
e eu sinto-me ave de asa quebrada 
deixa-me albergar
em teu coração,
quero o sol no meu dia
quero esquecer a solidão.
                                                                                                                                                                    já não há luas como dantes
nem noites enluaradas
nas tardes eu e tu distantes
sonhos findos, horas apagadas.
                                                                                                                                                               quero a ternura dos abraços
quero seguir-te por toda a parte
serei a sombra dos teus passos
para sempre vou amar-te.

natalia nuno
rosafogo
02/2002

sábado, 25 de dezembro de 2021

este é o meu sonho...





chora a árvore, cai a chuva no ramo
choro eu quando a saudade
leva pra longe, quem amo.
silenciosamente como agora,
de coração partido,
uma lágrima se quebra no vidro,
nesta hora, minha vidraça comovida
dá conta da tua partida.

espero por ti, até as árvores terem
folhas douradas,
até serem p'lo vento levadas e,
minhas memórias misturadas.
e numa tempestade de emoção
dobram-se sentimentos em amarga solidão.

há palavras não ditas em agonia
palavras perdidas cheias de amargor
na mente giram pensamentos
e eu espero temporadas, por ti, amor.

se minhas noites não se aquietarem
meu coração quebrará em pedaços
não haverá noite enluarada
enquanto não me sentir em teus braços.

quero ter-te no meu sorriso
ter teus olhos olhando os meus
é tudo quanto preciso
para sentir-me de novo menina.
suspirar e, cair como uma estrela do céu
deixar que tua voz ressoe como um sino
e tocar o sonho meu,
o de voltar a sentir-te menino.

natalia nuno
rosafogo
este poema levou anos para sair 
da sebenta. 
02/1995




sonho que é miragem...


vêm as aves saudar-me
por entre  folhagem
trago da infância esta tão nítida visão,
o redobrar do canto, como que a chamar-me
havendo entre nós hipnótica atração
já não existe o tempo
desagregou-o o vento
nem céu azul, nem estrelas
ou seria o meu pensamento
que ao ouvir o meu lamento
se cansou de vê-las?
já não há saída deste labirinto
o que resta deste mundo é nada,
assim o sinto!

procuro uma palavra que seja
uma porta de saída,
neste poema quase sem vida...
sou uma história que se esquece
deixo um sonho inacabado
e o mundo para mim fenece 
dou meu tempo por terminado.

vêm as aves saudar-me
por entre  a folhagem,
no sonho já não ouço o borbulhar do rio
já não existe nele  minha imagem
vai-se o sonho, a pensar me ponho,
- sinto a vida presa por um fio.

natalia nuno
rosafogo

sexta-feira, 17 de dezembro de 2021

a vida está feita...



não há hora para escrever perfeita 
nem já há passos decididos,
porém a vida está feita
e os sonhos perdidos.
não dá para pensar em regresso
chegou a última paragem
da viagem
à vida nada mais peço,
paro e olho-me no espelho
espelho embaciado,
que de tão velho,
nem ouve meu coração acelerado.
não quero perder o sol-pôr
nem olhar atrás que me causa dor.

faço o balanço da viagem
volto à beleza das coisas simples,
e ganho alguma coragem
neste meu caminhar profundo
as palavras resvalam perante os dedos
como que a extinguirem-se num sonho maior
enquanto me apresso a arrebatá-las com amor.

natalia nuno
rosafogo

sábado, 11 de dezembro de 2021

quimera...



encho meus dedos de leveza,
quando a natureza me abre os braços
cresce em mim a esperança,
esqueço os medos e dou mais uns passos,
sob o sol da tarde, há aves felizes
nas árvores nasceram mais uns rebentos
e mais um sonho nos meus pensamentos.
as palavras soltam-se e respiram,
volto ao ponto de partida
e o sonho se torna vida...
abro a porta ao poema com simplicidade
fecho os olhos, volto atrás ao passado
tão distante, onde ficou a felicidade,
que é agora saudade.

à esquina do vento, a menina
da minha recordação,
escoam-se noites e dias
e minha mente quase em vão,
o sol já declina para o poente, 
lembro a aldeia, por lá ficou a juventude
aldeia onde cresci e me fiz gente
fonte de milagres onde me refugio amiúde.

as palavras comovidas adormecem
no poema, enquanto mastigo sonhos,
de mim se esquecem
deixam-me perdida, os anos envelhecem
já não ouço a voz da quimera
e a solidão, à noite me saúda,
a natureza me dá força, tudo muda
hei-de alcançar ainda a primavera.

natalia nuno
rosafogo