sábado, 21 de outubro de 2023

sonhei estar de volta...



há flores que ressurgem sempre
numa manhã de primavera
e há odores de frutos amadurecidos
à espera de serem colhidos
no olhar, uma luz que passa
e não volta mais,
e hora a hora, a morte nos espreita
e um não, não aceita.
nesta tarde que é apenas a tarde
de mais um dia,
não há rosto que sorria.

como vai longa a distância
nem é sábado, nem domingo
visto roupa adomingada,
dou comigo, indo à oração
logo a lua prateada
me leva p'la mão...

meu sonho enlaçado no nada
diz-se de boca em boca
que voltei!
o querer faz acontecer
e eu, leve como a aragem
estou em casa de novo,
volto a ser, a menina do povo.

natalia nuno
rosafogo



imagens d'água...



nos montes o ouro queimado,
faz o sol a despedida
na mente um espaço fechado
guardando lembranças da vida
um ar frio, esvoaça a cortina
dos meus olhos,
lembro a menina que se banhava
no rio...sua saia aos folhos.

o olhar perde-se na vastidão
esgota-se na distância
saudade, 
sinto-a, permanecer no coração
saudade que vem da infância

vão e vêm imagens d' água
vai e vem a minha mágoa
minhas veias quase a estalar
e na mão que escreve livre
vive um melro

a saudade a chorar!


natália nuno
rosafogo








terça-feira, 17 de outubro de 2023

ri a murta e o alecrim...

 hoje dormem em mim




todos os rouxinóis
chegam-me sonhos com a frescura
da manhã, ri a murta e o alecrim
sumiram todos os sóis,
- e eu sem saber ao que vim!?
despem-se meus dias de fulguração
vai-se diluindo a alegria antiga
morre mais um pouco o coração.

as palavras hoje, são ínfimas e poucas
prefiro ver-me em teus olhos e sentir
as coisas loucas
de que nunca vou querer fugir.

natalia nuno

sábado, 14 de outubro de 2023

pedaços de vida...

às vezes olho a paisagem 
como quem olha quase 
com um adeus definitivo,




com a nostalgia do passeante
solitário, que dela é amante.
olho tudo onde minha vida ardeu
como se fosse o último encontro
olho as ruas soalheiras
e ainda ouço o passo teu

surgem as recordações do começo
na minha impávida memória,
e ainda nelas me reconheço,
leio as gastas cartas de amor
que fazem parte da nossa história

nos rostos que se cruzam,
rememorando vejo o teu e o meu
agora, com o ar cansado dos velhos
quando nos olhamos nos espelhos
o tempo passou sem piedade, 
envoltos em esperança
invade-nos a saudade 
- é o desejo d' amar!
o coração não se rende
ainda à vida nos prende.

natalia nuno
rosafogo



quinta-feira, 12 de outubro de 2023

palavras de fumo...






escrevo-te palavras que se perdem por aí,
enquanto a noite avança
a recordar momentos que vivi
e a saudade me perturba
e sempre me alcança.

meu mundo era entre teus braços
tanta vez procurado,
os cansaços esquecia
e o amor resplandecia.

com o corpo recuperado
era o fogo secreto da noite

resgato do esquecimento
palavras de fumo
que conheceram a ternura ardente
hoje me sinto sem rumo
foi-se da alma a alquimia 
e na mente restou a lentidão

as primeiras folhas caídas
na minha mão
e a amargura, neste papel solitário.

natalia nuno
rosafogo
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quarta-feira, 11 de outubro de 2023

silêncio minha companhia



faço do silêncio a minha companhia
vou lembrando a herança
que da vida recebi,
e dia após dia
mais saudade trago da criança
e do reino cálido onde nasci
dos amores da juventude
como lembro amiúde!?

recordo do jornal antigo
que lia, perto da janela
e a tia
- passava a ferro ali por perto,
lia para ela as notícias
as más com algum aperto, 
as boas todos os dias

queria ser grande, com sonhos
palpitantes, ser escultora,
lembranças no silêncio
duma sonhadora...
agora que tudo se distancia,
estremecendo como caruma seca
levo meu dia
na saudade que me cerca.

cada vez mais depressa a vida
corre, e me foge, hoje
sou senhora de todas as idades
no rosto as águas das saudades
e na pele um solitário ardor
de voltar ao vivido
todo este amor por mim sentido.

natalia nuno
rosafogo
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segunda-feira, 9 de outubro de 2023

chove-me na alma...



perco-me nas sombras dos meus olhos
mas a luz do dia estimula-me
o tempo, esse continua sem parar
o silêncio golpeia-me o cérebro
e o coração vigilante
em seu ritmo continua a pulsar

chove-me na alma
mas não me rendo, 
nesta tarde calma,
a vida avança, o coração prossegue,
no seu tic tac, 
atravessa o deserto, a solidão
é tenaz, e impetuoso, poderoso,
sem variação do ritmo
até ao final do caminho,
mesmo com o sonho distante 
sonho que não vai regressar
só a esperança tece
o que quero ainda alcançar.

natália nuno
rosafogo
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