quarta-feira, 15 de junho de 2022

entre saudades...




fico sem pensar, nem querer
pensar na vida que já cansa
já que nada volta a ser
restando só a lembrança.

faço da palavra recomeço
já nada lhe posso cobrar
não se vende nem a bom preço
sigo,  sem torcer nem quebrar.

foi grande a mudança em mim
por vezes já fico perdida
os sonhos fugiram por fim,
trago saudade desmedida

todas estas coisas escritas
são por fim o que me resta
faço delas quantas listas
tantas, quantas as rugas na testa

não quero falar das dores
de angústias ou de medos
fecho os olhos lembro amores
fantasias e segredos...

por mim, o mundo tranquilo
d'outros eu não sei não!
escrevendo sobre isto, aquilo
vou matando a solidão.

com o abraço que me dás
meu coração jamais esmorece
de amar-me não esquecerás?!
o amor reforça e o verso enobrece.

venho do tempo dos malmequeres
e trago o sonho na mente
sonho saber que me queres
metade da tua metade eternamente.

os corações jamais esmorecem
utopias, nascem aos molhos!
meus malmequeres adormecem
no poisio dos teus olhos.

o sonho é que me empresta
esta saudade que em mim corre
acende o corpo é fogo, é festa!
nosso desejo não morre...

natalia nuno
rosafogo
poema que criei faz tempo, era então tempo de malmequeres
tempos embriagados de emoção.

imagem pinterest

segunda-feira, 13 de junho de 2022

palavras breves...



até tarde acordada.
recebo a saudade devagar
não se move nada,
apenas escuto o seu murmurar.
uma voz me segreda,
que ao tempo pertenço
ignoro quando vai ser a saída
minha boca fica amarga
e cada vez mais me convenço
que é breve...não tarda!

por enquanto existe em mim vida!
e mais algum tempo me cabe
tal como a alegria e a tristeza
é certo um dia, 
tudo, para sempre acabe.

passam as horas silenciosas
e eu num lugar que quase esqueço
relembro o passado
onde mal me reconheço.
agora talvez adormeça
e o amanhã, seja de novo, promessa.
o sonho é lugar onde sempre se volta
liberdade onde caminho à solta.
vou mais além, já tanto me faz
trazer a mim o sonho se ainda fôr capaz!
há noites intermináveis e eu por adormecer,
mas haverá sempre para sonhar uma noite
qualquer
que joga a favor ,
de relembrar o amor.

natália nuno
rosafogo
imagem pinterest



quarta-feira, 8 de junho de 2022

alongam-se os silêncios...



escrevo nas águas 
as palavras fogem de mim
alongam-se os silêncios,
despovoa-se a vida numa solidão sem fim,
fico sem saber o que fazer
palavras perdidas, outras  na garganta presas
e meu ânimo a ceder, às incertezas.
as palavras eram esperanças sonhadas
estão agora em saudades mergulhadas
hoje, ferem meu pensamento à toa,
em insónias forçadas até madrugada alta
com lembranças antigas
que não sossegam e o coração me magoa.

e a memória enrola e desenrola
vai deixando o peito em alvoroço
como se ainda aquele amor estivesse ali ao lado
o som da sua voz eu ouço
recordo o beijo furtivo roubado
dor, saudade do tempo mais doce da vida!
de olhar perdido, marejado, 
onde a saudade fere profundo
quando estas palavras escrevem sentidas
todo o meu mundo.

aturdidas brilham as rosas no jardim
com raios de sol em sua direcção,
sonhadora, iludo-me assim
mas tudo não passa de imaginação.
vivo em mim, sou minha nostalgia,
minhas águas prestes a chegar ao mar
com palavras de saudade a boiar,
que submetem o pensamento dia após dia
ao lugar onde habita o esquecimento.
 


natalia nuno
rosafogo
imagem do pinterest





domingo, 5 de junho de 2022

tão menina...


nos dias chuvosos como o de hoje
chove nas minhas palavras
e uma lágrima abre fundo no meu olhar
ganha raízes, e a alegria me foge,
trago os fios do tempo presos ao rosto
e não o posso parar...
no firmamento uma lua como nunca se viu
e mais um dia me fugiu
pareceu um dia de Verão tardio,
e a vida tão frágil, caindo no vazio.
desfio palavras por não saber que dizer
falo do passado, porque o futuro,
não sei, nem quero antever!

a luz do dia virá mais aveludada,
far-se-á de tudo ou nada neste sonho de almofada
talvez surja o sonho da esperança,
e eu discreta  tão menina, 
talvez ainda criança,
à espera da procissão que já vem ali à esquina.

tão menina!
na boca um sorriso
saiote engomado
neste momento preciso, 
abro meu cofre de ilusões
onde te tenho encontrado,
guardas o meu retrato? vê bem onde o pões
que o sonho pode voltar!

enquanto a memória não envelhece
e seja águia a mergulhar
eu  verei borboletas azuis no teu olhar.


natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 31 de maio de 2022

minha lembrança muda...



as rosas choram em coro
protestam de coração partido
ao longe ouve-se o choro
sentem na pele o mundo dorido
pego numa haste desolada
ponho lírios nos cabelos
gemem meus sonhos pela calada
cresce em mim o medo de perdê-los
a minha lembrança é muda
será que para sempre morri?
digam que não, mas que ninguém me iluda
pois já não me sei aqui.

não se ouve mais nada que o pranto
das rosas que choram em coro
é grande o meu desencanto
jasmim molhado, meu choro

minha insónia é pássaro negro
meu coração bate em ânsia
bate p'lo teu em segredo
como se fosse sulcando um mar
ou um trigal onde o grão
são contas do rosário por onde rezo oração,
não sei porque me pus tão triste
nem sei de onde vem a tristeza
se o choro das rosas existe
já de nada tenho certeza!

natalia nuno
rosafogo
imagem do pinterest





segunda-feira, 30 de maio de 2022

saudade hoje...



a lua minguante pôs-se à minha janela 
e num instante, 
pus-me à conversa com ela,
este instante não poderá ser repetido,
já que a noite escurece,
e a saudade sonhos ainda  tece
a vida, essa, não fará mais sentido?!
falámos de restos de recordações, 
e lá foi esconder-se na escuridão,
enquanto eu, regresso à solidão.
ao meu mundo de ilusões.

tocou-me a memória, é de lá
que a conheço, 
do tempo em que o mundo era sossegado,
e agora que faleço
vejo o céu de mísseis ameaçado.
tempo inútil, tempo de ameaça
tempo de desgostos veementes
a guerra que não passa
e há gritos de revolta entre as gentes.

já trouxe em mim o pulsar da primavera
mas este tempo já nada de bom gera
trago o corpo esgotado, a noite escurece
e a lua me esquece...
já não falo com ela, da minha janela,
levou com ela minha ilusão
deixou-me a saudade no coração.

natalia nuno








domingo, 29 de maio de 2022

poema que não pode morrer...




os meus pensamentos prendem-se nas flores
duma velha jarra e nas fotografias
penduradas nas paredes da velha casa,
amores, alegrias, a quem quebraram a asa
as flores a murchar, tal como as vidas
dos que viveram a disfarçar
que foram felizes, e nos rostos a tristeza rasa.
olho-os na parede nos retratos amarelecidos,
parentes, ora lembrados, ora esquecidos,
lá em baixo o rio e a aldeia que os viu nascer,
nas hortas laranjeiras esqueceram de florir
tristes, desde que os viram partir.
as aves voltam sempre aos ninhos
e eu aqui, sempre com meus pensamentos
presos nestes caminhos.
porquê lembrarei eu estes parentes
alguns que nem conheci?
ao sol brincando, tão pequena
hoje sinto-me estrangeira aqui.
interrompo meu sono, volto sempre ao passado
à memória da infância
onde o Cristo na parede continua cruxificado.
também o velho candeeiro a petróleo,
e o calendário, a lembrar-me que nasci em Janeiro
sinto o rio nos meus olhos e a saudade submerge,
as moças de cântaro à cabeça na praça
e por onde quer que o meu pensamento passe
é a saudade que me abraça, 
e um novo poema nasce.

natalia nuno 
rosafogo