sexta-feira, 17 de julho de 2020

desassossego...



há uma luz de pranto e de penumbra
neste entardecer
mas a luz formosa, límpida do amanhecer
desnuda-me o olhar
convida-me a continuar os sonhos de loucura
colocar o sorriso de volta, abraçar com ternura
sentir-me andorinha na madrugada à solta
chilreando a saudade...que sempre volta!
ainda na manhã meia adormecida
uma obcecada visão me assombra...a
da meninice, lembrando a  brincadeira
a traquinice... a menina cheia de vida!

o coração vai sentindo a despedida
como se o amanhã não houvesse
como se sempre soubesse,
que o sonho iria extinguir-se
na noite que existe em mim
e o caminho chegasse ao fim!
porque o tempo persiste, segue-me
arroja-se sobre mim sem piedade
traz com ele um sinal incerto
faz crescer minha ansiedade
o desassossego desliza-me no peito
como se meu tempo destruído
flutuasse, entre o alvorecer e o anoitecer
numa atitude de espera, numa inquietante
mas suave obscuridade...

natalia nuno
rosafogo

terça-feira, 14 de julho de 2020

hoje despertou-me um raio de sol...




hoje despertou-me um raio de sol na janela, trouxe-me uma carta cheia de recordações, chegou quando eu ainda sonhava que escrevia umas cartas d'amor, senti-me uma amendoeira em flor, na primavera onde me abria...os meus olhos extraviaram-se do futuro, assim fiquei, protegida de dor e esquecimento... a viver com a natureza...cheirar a terra, a elevar o olhar aos céus, esquecer o mundo materialista, deixar que a maresia me rejuvenesça, não deixar que me corrompam a alma deixando-me em farrapos...ser como a água, livre! ... uma borboleta colorida ergue as asas, e golpeia uma gota de orvalho, de súbito sinto-me uma intrusa no sonho que própria criei ao ver-me nesta festa da natureza, onde sou como folha que a chuva humedeceu...caída dos ramos da saudade...

natalia nuno

segunda-feira, 6 de julho de 2020

a infância feliz...



a infância feliz, se pudesse voltar e beber um pouco dessa doce eternidade, deixar verdejar o meu instinto de liberdade... ainda escuto a nossa alegria no subir e descer das árvores nessa infância harmoniosa...como entender agora a felicidade? como inventar sonhos?os dias apagam-se em si mesmos, nada se procura e pouco se espera, apenas o sonho insiste, éramos asas de vento num céu sem nuvens, meninos que traziam consigo o aroma da vida, unidos num nó que parecia inseparável, de risos repentinos e o coração cheio de lealdade...grato, foi envelhecer trazendo da infância saudade, de brincar livremente nesses dias lendários no meio da natureza com o aroma dos frutos e flores por perto, dos pássaros e trinados, das borboletas de mil cores e rostos tisnados pelo sol irradiando inocência...

natalia nuno
rosafogo
10/2003

inquietação...



sucedem-se as estações
morrem as tardes pelos dias fora
morrem minhas ilusões
afunda a vida e não melhora
como posso morrer  tanto de cansaço
venho de longe, esqueci o regresso
esqueci até teu íntimo abraço
cobre-se de pó o tempo que já esqueço
pergunto ao sol-pôr que deixa saudade
porque me arrefece o coração
e me deixa a sonhar em vão...

ando de lugar para lugar
não volto ao ponto de partida,
só o teu amor saberá onde encontrar
esta que de si anda perdida.
não sei o que fazer dos dias
aqueles que ainda longe ou muito perto
farão de mim fraca, ou forte,
lembraste quando me dizias
que comigo ficavas até à morte?
é agora outono, perde-se um pouco
mais de vida, ou será só inquietação?
ou tudo passará, até este momento louco
em que julgo ser o poema, perfeição.
nada é perfeito, tudo muda, tudo passa
menos o mar de amor
- que trago no coração.

natalia nuno

domingo, 5 de julho de 2020

pressentimento...



dói na memória com intensidade
ouvir o cansado ruído da lembrança
e a pressa da ameaça que se avizinha,
surgem nos olhos águas de saudade
treme o coração sem esperança
cresce o medo do que se adivinha.
na luz caída da tarde
o vôo perdido das folhas,
levando ao pensamento a verdade
da saudade, com que já me olhas.

no fogo secreto da noite
esquecíamos o tempo e a lentidão
amávamos-nos  sem fronteiras
e era alquimia percorrer teu corpo
com minha mão,
redimida no silêncio,
resgato do esquecimento
cada momento vivido
que a memória parece ter esquecido,
mas que ainda consigo alcançar
porque é grato recordar.

é no silêncio que se aprende a aceitar
o envelhecer
a perceber o tempo e o seu pulsar
a vida é este estar e não estar, é este temer
de não poder mais despertar
este é o pressentimento, o rumor das minhas
palavras, que não sei suster,
a dura angústia de cair no vazio
e aquele amor que nos uniu
seja um fio desatado, um sonho melancolicamente
esquecido,
no nosso sono apagado.

natalia nuno
rosafogo


sábado, 4 de julho de 2020

nasci poeta...



Nasci Poeta!
Amo a Vida e o Sol!
A Poesia é a minha arma dilecta
E eu sou no campo, um girassol!
Poeta sem eira nem beira!
Fugindo do real, vivendo da ilusão.
A quem a Poesia apanhou certeira
E assim fiquei Poeta de coração!
Vou morrer Poeta!
Meus versos são ondas em movimento
Que se esbatem numa ilha deserta!
Neste Poema me revelei!
Serei Poeta a todo o momento
Até àquele, em que morrerei!

rosafogo
natalia nuno
singelo poema de 1981 encontrado 
por acaso num outro blog.


quarta-feira, 1 de julho de 2020

página já lida...



o coração esqueceu o encantamento
meus versos andam ao rubro,
há silêncios no pensamento
e os sonhos não os descubro
crescem em mim árvores de solidão
só a voz dos pássaros me sustém
a alegria acesa,
mas a vida, não me promete nada
e nesta incerteza, como queria ser amada.

espanta-me o quanto ainda sou capaz
de até à loucura amar!
é como se os dias reais se tivessem esboroado
e em penumbras oscilar,
o pensamento do poeta tresloucado!
no fundo de mim
no mais profundo, um deserto imenso
suplica-me sarar a tristeza,
como que por magia
sinto no âmago o ecoar duma melodia,
e logo saio desta do ilesa.
que dor então me faz doer?
aquela que leva meus sonhos de partida?
não sei nem responder!
a vida é como uma página já lida
«e ainda há tanto por descobrir e aprender»

natalia nuno
rosafogo