domingo, 30 de outubro de 2022

cansaço que disfarço...





através das cortinas da alma, 
vou remando até à infância, 
nada me barra o caminho, 
e fico a boiar no poente em liberdade, 
agradeço a Deus por ofertar-me o sonho, 
e a saudade
que me permite encher o peito de seiva nova,
reconcilio-me comigo mesma, 
e em equilíbrio fica o coração
com amor de sobra, 
serena, mais lúcida, vou continuando o caminho
partem as horas, fica o cansaço, 
inacabado o sonho, 
voltam os anseios como trepadeiras
 dando-me abraço.

o cansaço disfarço!
esqueço as canseiras, 
adensam-se  as lembranças dos beijos frementes de desvario, 
suspiros do sol interrompem meu frio, 
escapo-me pelo meio desta nostalgia 
e vou vivendo, sorrindo de novo dia a dia.

natalia nuno
(rabiscos) 1972

povo será teu nome...





morre gente que nunca viveu
a vida toda levou a trabalhar,
tendo apenas por seu
o pedaço de terra
onde as mágoas de vez encerra
quando vai a enterrar.
a cova é à sua medida
foi o que ganhou em vida
nem larga nem funda
morreu sofrendo de cogitação profunda
viu o seu país duma só côr
nunca ninguém lhe deu amor

que desarrumada vida!
neste rectângulo vivida,
pareceu-se a um toro num rio
sem saber o seu destino,
passou fome, calor e frio
passou p'la vida pobre peregrino.

falo assim de quem tão bem,
soube das coisas da vida
fica liberto depois da morte
duma vida, solitária e incompreendida.

natalia nuno
rosafogo
rabiscado 2001



domingo, 23 de outubro de 2022

estremecer voluptuoso...



escrevo o meu nome na água
onde o tempo não o apagará,
nem tempestade e nem mágoa
a esquecimento, ele sobreviverá

abandono a saudade no coração
onde permanece da ave o canto
salva-se a memória e a recordação
estranha magia, acordes de encanto.

tudo se aquieta, é tempo de paz
no meu arquejar, e passos furtivos
escuto-me na quietude, sou capaz!

ponho a vida no seu fogo primeiro
coloco ainda a chama nos sentidos,
apaixonada, capto ainda teu cheiro

natalia nuno



segunda-feira, 10 de outubro de 2022

no regaço da noite...

 



algo mudou repentinamente

e o tempo vai desvanecendo

obscura e até emudecida a mente
arranhadas memórias vai vivendo

como ressuscitar a felicidade?
por atalho de sonhos vislumbrados?
nos versos de outono a saudade
memórias dos tempos passados.

meus olhos abrem-se ao vazio
à impiedade dum destino a findar
a emoção na m'escrita é agora fastio
as palavras obsessão  que não sei calar.
silencio e inquietação, fico muda
brota do silêncio realidade profunda
a vida ainda conspira faço-me surda
em mim a desmemória já abunda.

senti quão próximo a morte m' espera
deixando talhada a tristeza no olhar
lê os meus sonhos e a alma desespera
obscuridade que de mim se quer acercar.

natalia nuno

domingo, 9 de outubro de 2022

tudo o que resta...


florescem poemas florescem
nas minhas mãos tão cansadas,
descem até mim, eles descem
no meu rosto são longas estradas,
transbordam de sentimento
galgam distâncias como raios,
são agora frios Dezembros
mas, já foram floridos Maios.

florescem poemas caídos dos céus
que vão transformando em ilusão
sonhos inacabados, teus e meus!
neste declive rápido do coração.

florescem poemas em encrespado vento
com sua música atordoante, ou
dulcíssimo canto que chega ao pensamento,
salmodia da vida já tão arquejante.
e este corpo lento que se devora
onde já não existe medo, só nostalgia,
e o rosto onde nem é noite nem dia
onde um silêncio humilde se arvora.
é tudo o que resta.

natalia nuno




terça-feira, 4 de outubro de 2022

amar é sempre ...



abandono-me em ti
saio do meu casulo
no teu peito eu me deito
és o porto onde me acosto
contigo a  vida regulo
sem ti, eu morro, aposto!

cansei da palavra
trago a memória escura
sinto falta de ternura
porque o amor é o lar
dentro do peito
partilho contigo este amor
que é feito,
de sonho e é tesouro
que é ouro,
dentro do meu peito.

é canção de embalar
a mais nada se assemelha
é sonho se me vens beijar
canção doce  e velha.

amar é a flor em nós a perdurar.

natalia nuno
rosafogo
02/2004
imagem pinterest

versos de solidão...


estes versos meus
são feitos de frágeis lágrimas
e a garganta seca dum tempo sem conta,
é tal o ardor, que os crio com saudade
e amor.
minha alma anda rente ao chão
perante a poesia e a morte,
crio poemas, de saudade e solidão
e espero que o tempo passe
fogem-me as palavras, vivo neste impasse
nem sei se o poema espera
ou desespera, segue-me submisso
no caminho traçado,
vivemos o mesmo feitiço, o mesmo fado.
estamos no caminho da subida
é tempo de partida...
sento-me no cadeirão 
chegam horas lentas, de solidão definitiva
orfã deste instante
já não sei se o tempo que me ensombra o olhar
me tem morta ou viva

quando as palavras perderem o sentido
e a escuridão em nós se acender
não será já, tempo de viver,
então o poema e o poeta ficarão no esquecido
restará repleta  solidão,
em mim  a vida calará
e jamais de mim ou do poema
alguém lembrará!

natalia nuno
rosafogo
imagem pinterest