quarta-feira, 17 de janeiro de 2024

antes que a memória se perca...




tudo ainda arde com formosura
tanta, que ainda na memória dança
a ternura, gemidos d' amor,
já à distância,
esse amor que ainda nos abraça
com a mesma magia.

hipnotiza-se o sol nas águas do rio
enquanto sussurro metáforas, fio a fio.

confidências me fazia a aurora
já nada se repetirá, os segredos aprendidos,
a música dos pássaros aos ouvidos,
como inventar a hora
de me devolver todos os sentidos?

vem o luar de Agosto, 
meu companheiro de segredos
e eu ferida de saudade,
no pulsar do tempo, meus medos,
tua sombra limpa claridade
e as palavras asas dos meus dedos

os caminhos levam meu olhar
inquietas as malvas orvalhadas
o frenesim dos pássaros na ramagem
papoilas ao vento despenhadas
e no meu coração a tua imagem
de então.

e assim flutua ainda tudo na retina
tudo no horizonte deste poema
a fragrância formosa da terra
que é meu preferido tema

não existe agora mais que este céu
acende-se um arco-íris que é teu e meu
junto ao salgueiro adormecido,
lembrança de tanto nos havermos querido.

natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 8 de janeiro de 2024

faminta de vida...





as palavras mais puras
eram lírios, eram ternuras
latejava o coração de emoção
no pensamento madressilvas nasciam
ilusões cresciam
era tempo de juventude

com odor natural a relento
e a timidez de jovem
mitigando o desejo 
silvestre,
faminta de vida, 
pela doçura seduzida,
o tempo era seu mestre.

era preciso acreditar, crer,
fazer da vida primavera
entrançar a alquimia na mente
apostar na sorte e viver 
sem espera
a rasgada rebeldia não perder,
deixar-se ir na onda ardente
- que era viver!
era então tempo de juventude.
que recordo tão amiúde.

natalia nuno
rosafogo
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terça-feira, 2 de janeiro de 2024

inquietude...


reconhece o seu rosto
embora perdido o sorriso
a face é parede parda de inverno
o olhar indeciso
mas o sonho eterno!
contínua a esperança
e a aceitação da vida
relembra-se com ardor, criança

a insónia é constante
o rumor das palavras no pensamento
e um pressentimento a cada instante
que lhe traz desalento

o sonho, ou talvez a paixão,
não lhe deixa cruzar os braços
rasga o silêncio
esquece os cansaços.
traz inquietude sem sentido 
e o tempo melancolicamente 
confundido...

natalia nuno
rosafogo
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sexta-feira, 15 de dezembro de 2023

a aguardar mais um dia...



com cristalino alento
vou deslumbrando meus dias
antes que estes
chamem meu esquecimento,
faço do mar e da lua 
as minhas companhias

também as tardes nuas de verão
trazem aquele doce cansaço
quando o outono da vida
- é já só recordação
e o inverno avança mais um passo

e é na fronteira da noite
que a lua mostra,
um brilho de cisne luminoso
surge o vento enlouquecido, 
traz-me a quimera e nostalgia
herança do tempo vivido
na lívida luz que afoga meu dia!


natalia nuno
rosafogo






sábado, 9 de dezembro de 2023

esvaziei os sentidos...



estou perdida
trago em mim temporais
restos de vida vivida
com anjos e demónios
tão reais
o tempo não apaga 
minhas pegadas pelo chão
nem altera o que guardo
no coração.
no lado de dentro do peito 
sinto as coisas do meu jeito

esvaziei meus sentidos
pobre é minha poesia
pássaros estranhos aos ouvidos
e a insónia dia a dia
que agonia!

há-de chegar a primavera
diz-me o sonho que sonhei
lá estará à minha espera
a alegria que agora sentir
não sei.

natalia nuno
rosafogo
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quinta-feira, 7 de dezembro de 2023

destino amargo doce...



para trás foi-me ficando
tudo o que desde criança fui
amando...
lembrando, os passos que dei
nem parecem meus
passam também pela lembrança
os passos perdidos, foi Deus
que assim quis que fosse
meu destino, amargo, doce.

tudo passou.
fiquei eu, árvore tenaz
das raízes obtive herança,
o tempo greta os meus sentidos
mas ainda sou capaz
de trazer sonhos
no coração escondidos.

cada vez mais depressa a vida
palavras, despedidas, madrugadas
silêncios, e tanto que amor dei!
hoje trago as palavras cansadas
restam-me as que por amor guardei.

natalia nuno


sábado, 2 de dezembro de 2023

queimando meu olhar longínquo



as nuvens andam embaciadas
o tempo cinzento
chega o negro das noites desoladas
tudo é incerteza e escuridão

e eu sem alento!

a memória atravessa recordações
meu corpo são ribeiros de veias
espelhando os meus segredos,
vou desnascendo as ilusões
caio na fronteira dos meus medos.

hoje sou uma tela derrotada
sou perdida paisagem sem remédio
tudo é incerteza e tédio, 
na escuridão
levo extenuado o coração.

ávida a vida se evade
eu arauta do silêncio, ouço
o eco insistente da saudade!

natalia nuno
rosafogo