segunda-feira, 28 de agosto de 2023

vou levando meu barco...



às vezes canto
quando quero chorar
e uma frágil ave
atravessa-me o peito,
as flores que florescem comigo
tremem procurando abrigo,
o coração consome-se por inteiro
habita nele a fraca luz de janeiro
cortam-se ramos e até a raiz
destes tantos anos
em que sonhando, fui feliz!

absurdas as horas
ando devagar
vou levando meu barco,
o tempo não me é favorável
e num momento, posso tropeçar
uma parte de mim diz-me que consigo
enche-me de certezas e esperança
a outra diz-me que cheguei ao fundo
perdi de mim a criança,
a solidão é agora meu mundo.

no rosto os sulcos são sinais
dum navio perdido na rota
será que ainda tem volta 
ou não voltará jamais?!

natalia nuno
rosafogo


sexta-feira, 25 de agosto de 2023

tempo de doce mel...





carícias eram labaredas
que queimavam a pele
doçuras e silêncios
era tempo de doce mel

o amor o aroma da vida
a noite a paixão
a voracidade dos sentidos
uma torrente de sóis de verão
este fogo era pura magia
de nos amarmos livremente
vamo-nos diluindo na antiga alegria
obstinadamente...

agora pedra inundada d'amor
esquecendo a dor
dum grande vazio
calam-se as palavras entre os lábios
nesta harmonia lenta
a gente sempre inventa,
aquele rio de amor.

natalia nuno
rosafogo









terça-feira, 22 de agosto de 2023

folhas caídas...



cegam as folhas no outono
caem ao chão ao abandono 
os seus semblantes são,
como o meu, só solidão!

moribundas na terra fria
vítimas da ditadura
do tempo
e eu na obscuridade
morta de saudade
somos agora como estátua
nua 
num parque despido
onde o Poeta escreve umas linhas
de amor
na companhia da lua
e tudo o resto sentido
é ausência e dor

uma neve perene
sulca-me o rosto
sempre afadigada me fustiga,
chegou como o fogo dum vulcão
a acordar o passado
e os sonhos de então.

e logo a saudade retorna ao coração.

quinta-feira, 10 de agosto de 2023

o espelho





o espelho é transparência livre
olha meu rosto com intensidade
e eu percebo no seu olhar profundo
quanto de mim tem saudade,
põe-me a pensar no motivo
do meio silêncio entre a gente,
olhamos teu rosto tatuado, 
mais morto que vivo,
diz-me o espelho,
- e não mente!

coloco-me bem ao centro
projecto melhor o olhar
um punhal de espanto cá dentro
ora sorrio, ora me ponho a chorar

sinto-me pobre prisioneira
nos sonhos que antevia
já meu olhar não irradia
a doçura, nem a ternura,
daquela inocência primeira.

natalia nuno
rosafogo
toas as imagens são do pinterest



domingo, 6 de agosto de 2023

instantes já perdidos...



lembranças de instantes 
já perdidos,
são como aves distantes,
que voam sobre as nuvens
no poente,
enquanto a tarde desvanece 
e o sol desaparece,
logo em mim a nostalgia cresce
a vida deixa-me sem
futuro
atravesso o outono de olhos
cerrados,
o caminho faz-se com esforço duro
feito de brasas e gelo
levo os dedos de menina
já cansados
parecem despedir-se do sonho e da luz
e os sonhos risonhos, onde os pus?
entrego à brisa meu corpo
e a alma também
e se a vida me foge
entrego-a mais além.

natalia nuno
rosafogo


sábado, 5 de agosto de 2023

e eu sem um ai...

a claridade  desperta-me o olhar
agora que a vida vai
na intensa fronteira da morte


uma lágrima do olhar me cai
subtil e profunda
e eu sem um ai...
mas a vida começa como se nova 
fosse
e os sonhos me trazem
miragem de felicidade, doce,
e eu volto a ser como a de outrora
tão tua, como sempre fui
vida fora.

passam os dias por mim
do começo  ao fim
há sempre um que geme escuridão
solidão, obscuridade,
passou por mim o Outono
já trago dele  saudade.

natalia nuno
rosafogo
imagens pinterest




domingo, 30 de julho de 2023

junquilhos na primavera...



entramos no caminho das incertezas
a alegria que nos iluminava
perdemo-la ao abandono
somos agora, paisagens de outono
que adianta dizer-te mais?
pede ao sol que amadureça a seara
no cinzento da tua mente,
que o coração resiste!
embora bata lentamente.

vamos adiando a espera
talvez vejamos nascer
os junquilhos na primavera.

refugiamo-nos em pequenas coisas
deixa que a serenidade 
possa estar na minha mão
sou um pouco de qualquer coisa
até um prego do meu caixão.

sou gaivota que sobrevoa
no silêncio da manhã
a saudade que não perdoa,
tristeza e monotonia
misturadas de esperança vã

procuro curar o coração
àquela que deixei de ser
- sou a que quer esquecer
o tempo, e seu obscuro poder

espero, como quem espera por um
estranho
num largo corredor, 
levo com apertado amor
o nosso sonho, de antanho.

natalia nuno
rosafogo