segunda-feira, 26 de fevereiro de 2024

lembranças...



lembranças são madeira
que não quer arder
são caruma seca
que me põe o coração a bater

perdemo-nos nos anos
pensar que os dias da velhice
seriam venturosos!?
foi o último dos enganos,
solitários dormitam silenciosos.

mas é bom envelhecer 
se a memória é claridade,
a vida é densidade
e a velhice eterna saudade.

hoje o dia trouxe uma luz cinzenta
agora o vento grita ao portão
na lareira há teias de aranhas mortas
que o vento tenta, mas em vão!

está o batente da porta quebrado
e as traves do tecto carcomidas
o fogo da cozinha pequena, 
apagado, 
e sombras por todo o lado
de quem perdeu as vidas.

um banco ali na esquina
fixamente a olhar-me
- és tu aquela menina
de quem estou a lembrar-me?

sento-me sem vacilar
sem outra força que meu passo incerto
extrema solidão por perto
e a palavra saudade no coração a pesar

olho os muros antigos,
um dia não longínquo, visito amigos
coisas da alma, 
já não brota nem arde a vida,
só na lembrança ainda sou criança
em pouco, chega a hora da partida.

natalia nuno
rosaofogo






sábado, 24 de fevereiro de 2024

Nada...




ouço cantar um pássaro com ternura
inocente,
na árvore que despe a folhagem,
quebrando o frio silêncio, indiferente
que eu apresse a marcha da viagem

no pensamento traço o fio
do futuro
funda é a solidão, e o mundo
escuro.

sinto o frio do mendigo
visitante que em mim perdura,
e a solidão a ferir com secura

ver a noite cair e,
logo virá a luz da madrugada
vou sentir sombrio ardor.

Nada! A não ser do canto dos pássaros 
o fragor.

natalia nuno


sexta-feira, 23 de fevereiro de 2024

gargalhadas do vento...








há dias que incendeiam a memória
já não se oculta o pensamento triste
a saudade atenua a resignação
lembrar a nossa história
o coração sempre insiste

as gargalhadas do vento
o mar em rebentação
e o coração que sobrevive
como o mar e o vento
até à exaustão.

sombras caem, surge o esquecimento
lamento, ruídas memórias
são agora rumores
delirantes, da mocidade
com odor a saudade

natalia nuno


sábado, 17 de fevereiro de 2024

folhas caídas...

 



trago no olhar estrelas distantes
no corpo remotíssima fragrância
a memória se esfuma por instantes
sonhos tranquilos em abundância

mas não me vou fico-me por aqui
soando por entre os meus versos
tudo ficou remoto, tudo que vivi!
são folhas caídas, sonhos dispersos

seres sem alma, essas folhas caídas
horas que choram, cansados papéis
e as palavras no poema embutidas
«fiquem-se os dedos, vão-se os anéis»

quem sente o esquecimento, severa
desgraça, dia a dia apertando a mente
encerra-nos na velhice, fica-se à espera
como casa destruída, silêncio somente,

natalia nuno





sexta-feira, 16 de fevereiro de 2024

basta um abraço, um sorriso...


levo dentro de mim
pedaços de recordação
daquele tempo que fluía
poderoso, com alegria
dentro do coração

a intensidade dos momentos
que cumpriam cada esperança,
ainda os trago na lembrança

cruzam-se os meus olhos
com antigas imagens
e faço com que renasçam
não caiam no esquecimento,
algumas já miragens
fruto da imaginação,
- meu pensamento
tem medo da destruição!

às vezes pareço uma sombra
em busca de mim
uma procura amarga
caminho indeciso, mas por fim
basta um  abraço, um sorriso
e logo a felicidade se alarga

meu olhar ainda tem tantas recordações
e o coração tantas ilusões,
momentos que sinto ser a que já nada possui
noutros com paixão pela vida ainda sou,
e sempre, lembro com saudade a que fui.

natalia nuno
rosafogo
imagem pinterest






 


sábado, 10 de fevereiro de 2024

sopro de emoção...



bate a chuva, chega a noite
e o vento como açoite
traz a saudade que a abraça
e acorda-lhe a memória,
que a ameaça!

lá acorda emotiva
e lá se encontra com o passado,
dele fica cativa
com o chão que a viu nascer,
ali mesmo ao lado

de coração partido ao meio
e a lágrima já sem água
pergunta ela ao que veio,
se o coração acumula mágoa

este poema não sabe que é esmola
para alguém que padece
nem que o coração consola!
neste dia que anoitece.

assim fica mais um poema
a esconder da chuva e do vento
que foram conjectura do tema
onde a saudade foi sustento.

natalia nuno 

quinta-feira, 8 de fevereiro de 2024

uma trégua que me adie a morte...



as aves do céu
recordam-me o tempo que se foi
e o que me resta,
a nostalgia que dói
como se o coração fosse muro
embaciado, 
e dentro dele o sol quebrado.

na mente, claro escuro
sobressaltos violentos 
que me avisam os sentidos,
já se despenham pensamentos
enegrecidos.

vejo a passar nuvens vazias
vão como a minha viagem em quietude
surgem para dar-me os bons dias
trazendo uma trégua que me adie a morte
o fluir da minha mão, e com sorte
voltar livre, o sol ao coração.

natalia nuno