quarta-feira, 16 de março de 2022

que louco engano é viver...



rua longa é a vida
caminhada breve e logo perdida...
lembranças presas na retina
lembranças que deslizam 
na memória, de menina
que esqueceu seu rosto... a vida
é já sol posto
a vida correu tão rápido como o desviar
dum breve olhar,
há sempre um fio no pensamento
pronto a desdobrar
a memória dos verdes anos,
a verde idade da que trazemos
saudade.

que louco engano é viver!
a quem tão depressa há-de partir
quem sonhos quiser escrever
com  labirinto vai coexistir
sonhando-se em difusas recordações
que não passam agora de ilusões.
sob uma indiferente solidão
na despedida sem retorno,
pulsação, após pulsação
vai esperando, enquanto a tarde declina
e seu rosto de menina, adormece
olhando o poente morno.

natalia nuno
rosafogo

quarta-feira, 2 de março de 2022

fruto dos meus silêncios...



já não choro devagarinho
já não é segredo meu chorar
o choro na garganta segue caminho
fica a dor no peito a rasgar,
o que digo e desdigo
o que nos versos lamento,
deu-me a vida por castigo
trazer de amor o coração sedento,
meus queixumes são saudade
são dor que ainda não domino
do fogo aceso da felicidade
que ao relembrar, dói quando termino.
nesta febre que sempre dura,
há tanto tempo por resolver
procuro a paz e a ternura, 
na memória, fonte onde vou beber.

natalia nuno
rosafogo


domingo, 13 de fevereiro de 2022

nesta dor sentida...



esmorecem as vontades, o olhar agora baço e a cada passo, dou conta que as saudades descansam no meu regaço, o tecido do meu rosto inquietou-se com rugas de cansaço, no pensamento como que um aturdimento, e deixei de contestar, os braços sem abraçar, perdeu-se o permanente sorriso, no meu pedaço de mundo, nada mais se altera, finjo que não estou à espera, e quando chegar a hora vou pensar em liberdade, lembrar as cartas d' amor que escrevi ao homem que amei, das juras que jurei... eram então as noites longas e sem sono, o amor era tentador e ali ficávamos ao abandono...revivo nossos momentos íntimos, até onde a lembrança me leva, os sons do amor vêm aos meus ouvidos para encantar, quanta ingenuidade ainda me vem esperançar, o pensamento tanto tenta, na coragem perdida, nesta dor sentida, a saudade sempre me acalenta.


natalia nuno

rosafogo

quinta-feira, 10 de fevereiro de 2022

esperança...



pode não ser hoje
nem amanhã,
podem adiar,
podem até negar
mas os meus versos
encontrarão o que o coração
me diz...

neles o aroma duma infância feliz!
a claridade que fui
o rosto da primavera
a dor da recordação, a espera
do amor,
nos lábios o murmúrio
de tudo que o tempo talhou em mim
a tristeza, a saudade
e seu mistério,
o amar até ao delírio...

meus versos por fim
serão levados a sério
- e logo a vida me deixará a mim.

natalia nuno
2001/5

domingo, 6 de fevereiro de 2022

tantos anos vazios contemplam o espelho...



tantos anos vazios contemplam o espelho
ruas longas num rosto velho,
tudo se cruza ante seu olhar
como num lento adeus,
como um caminho a terminar,
com a nostalgia de quem perdeu
os sonhos seus...
olhar apagado, transtornado,
nem o espelho velho lhe dá esperança,
do retorno desse rosto que amou
desde criança.

nada devolve a a imagem
é um adeus definitivo
este é o último encontro
desta viagem, 
passa o rumor do vento, e neste instante
o vazio entediante, da vida.
agora que tudo se distanciou
sente-se perdida
depois do caminho percorrido
resta-lhe recordar sem ilusão
e poder voltar ao tempo vivido,
que traz ainda na mente e coração
escreve palavras que se perdem
cruza as noites que conheceram 
uma ternura ardente
segue em frente a saudade a sustem,
irá mais além,
definitivamente esquece o espelho
e o rosto frio, 
não se deixará cair no vazio.

natalia nuno
rosafogo






sábado, 22 de janeiro de 2022

pedaços de recordações





a memória recorda e nega
que o tempo passou,
e à memória sempre chega
a quem tanto se amou.
de repente surge o passado
com seu familiar odor
e o corpo sobressaltado
sorri vencido, lembra o amor.

o tempo tudo apaga
é esta a cruel verdade
e logo o olhar se alaga
porque o coração não tem
-quem o  aguarde...

sente-se do tempo a avidez
só a memória oferece longevidade
a realidade  mostra a sua nudez
crescem as sombras, resta a saudade

natalia nuno
rosafogo
poema de 2008


quinta-feira, 20 de janeiro de 2022

palavras que se perdem...


em pequenas coisas, ponho minha emoção
com uma esperança enorme, deixando a memória
lembrar, porque estás no pulsar
do meu coração,
ouço o som dos teus passos
som sempre presente no pensamento
angustia-me a falta dos abraços
é melancolia sentida neste momento.
a vida às vezes se extravia
enquanto damos asas ao desejo
e lá volta de novo ao coração a nostalgia,
lembrando um abraço, um ou outro beijo

há pequenas coisas que ocupam o presente
e outras que não se apagam da memória
de momentos enfeitiçados
instantes da nossa história
ao tempo confinados,
caminhamos, lembrando só o lado generoso
a que dizemos adeus,
o gemido do amor fica à distância
segredos meus e teus...

ponho no olhar uma flor comovida
que te abraça com seu aroma
para esquecer como a vida
se tornou agressiva, e nos toma
a minha boca soletra restos de verão
mas o inverno já na garganta se despenha,
uma centelha de quando em quando sobressalta
deixando um rasto gostoso, antes que a morte venha.
estranhamente ainda respiro e escrevo
a inquietude das metáforas me põe louca
não sei se devo ou não devo
através delas, sonhar ainda, com beijos
da tua boca...

natalia nuno
rosafogo