sexta-feira, 14 de maio de 2021

fantasia...


as acácias encheram-se de flor no interior da minha fantasia, baralharam-me os sonos e os sonhos, deixaram-me nesta lenta solidão, com os olhos adormecidos, e a negarem-me as asas de adolescente que me levam sempre à lembrança, mesmo que a memória demore... as acácias trazem o perfume ao meu beijo, quando tenho o coração apertado, o tempo me barra o caminho e, me prende o corpo à negação... acelero meus olhos, mora em mim um vento quente e vou admiradamente longe, onde só as acácias têm cheiros de auroras, vindos pelos ventos até meus pensamentos...onde tu moras!

natalia nuno
rosafogo
imagem pintarest

quinta-feira, 13 de maio de 2021

lágrima solitária...



na paisagem da minha alma 
há um verde perfeito que
não deixa que enferruge a minha esperança,
e é no peito, que guardo a lembrança, onde
penduro os ramos mais alegres da saudade
cântaro cheio de alegria
que é ainda claridade...
uma lágrima solitária cresce e se agiganta
mas depressa se apaga,
é utopia esta mão que sinto que me afaga?
recordo o destino dos meus passos
creio que me perdi por entre os sonhos
tão esfumados, trago agora nos meus traços
cruel significado do que foi a vida,
as sombras golpeiam-me a retina
e adensam minha nostalgia
ao recordar-me menina.

resta-me o fel das rugas e a monotonia
o peso da saudade a cada dia.
nas minhas veias verdes 
de existência enegrecida,
ainda existe a mulher
apagando-se na fuga, vizinha da noite
gravitando, um pouco perdida

natalia nuno
rosafogo



terça-feira, 11 de maio de 2021

moldura empoeirada...


olhei o rosto que fora o meu
nada resta de semelhança
com a mesma avidez, olhei o teu
nada resta da lembrança,
sentei-me na cadeira

a fotografia ali na moldura
a que me deste, a primeira!
ali fiquei perto da janela
a olhar pra ela... com ternura.
terminou assim o dia
lá fora uma chuva miudinha e fria
toca os vidros com lamentos
enquanto vou escrevendo versos
tão modestos,
- com palavras de restos,
esquecendo onde estou
tampouco me lembro como o poema começou.
o que tenho diante de mim
é um dia cinzento, trazendo o vento
a agitar as cortinas,
e no pensamento, um vestígio do rosto, 
assim,
a vida vai ficando remendada
tudo na vida tem um limite,
calada,
meu olhar esbarra na janela
e chora de mágoa, com ela.

e os rostos amarelecem
são uma rendada saudade 
o tempo não atrasa e com pontualidade
a pele perde a alvura,
deixamo-nos pacientemente no sonho
vamos inventando ternura...
dobro as memórias, desmancho as palavras
e esqueço o meu rosto cor de sépia
na moldura empoeirada,
este dia cinzento, em que a chuva bate na vidraça
transformou-se em nada,
e meu rosto há muito perdeu a graça.


natalia nuno
rosafogo
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sexta-feira, 7 de maio de 2021

sinais no rosto...



amarelas florestas sobre meu rosto
onde a luz do sol já não entra,
e é agora sol-posto...
é quase noite, ou trago obcecada minha
visão?
ainda que sonhe, minha memória é
desolação, anoitece no meu corpo
esquecido, tão fora de mim, perdido
onde andam as fragrâncias de Setembro?
e os pássaros que cantavam em mim
se já mal me lembro?
ficou a vida água estagnada
os dias já não são lençóis de alvorada
sou uma rosa com espinho
procuro a frescura do poema
mas já lhe perco o caminho.

agora uma asfixiante incerteza
e uma dúbia realidade
entre a alegria e a tristeza
só sei da saudade
e do sonho que  em certas ocasiões
me leva à juventude, amiúde
e me abre janelas às ilusões
passa por mim o pulsar eterno da brisa
com as suas mãos delicadas de pureza
é tudo o que minha alma precisa
para acalmar toda esta minha incerteza.

natalia nuno
rosafogo
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quinta-feira, 6 de maio de 2021

meus dias são folhas caindo...




deixo-me pelo silêncio fora
não me obrigo
nem aceito mais recados
passou a hora!
não quero mais por castigo,
ver meus sonhos gorados.

meus dias são folhas caindo
são gaivotas de asas quebradas
bando de pássaros no céu sumindo
minhas noites estrelas espantadas.

sonhos, carumas levadas pelo vento
vento que ouço a gemer
saudade ´meu sentimento´
no rosto há linhas a endurecer.

ausenta-se meu olhar
no coração a mesma toada a bater
procuro-me sem alcançar
renasço para em seguida morrer.
me faço e desfaço
me volto a rasgar
e o sonho me foge
já não lhe apanho o passo
é como sombra a deslizar.

desfolho palavras dum jeito só meu
hei-de gritá-las
hei-de chorá-las!
porque o jeito de mim nasceu.
nos meus sonhos guardadas,
em pedaços rasgadas.

minhas vontades mirraram
são murmúrios de orações
que pra sempre se calaram
em jeito de quem implora
quase num sussurro rouco
meu coração só pede agora
um pouco de paz...um pouco!

minhas memórias renascem do nada
sou pelo temporal da vida levada.

natalia nuno
rosafogo
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segunda-feira, 3 de maio de 2021

debaixo de céu...



há música vinda do arvoredo
pássaros que cantam sem medo
e debaixo do céu
fazem um escarcéu!
vão vivendo os dias, 
vão tecendo ninho
de fio fino, 
que a primavera vem a caminho
e procriar é seu destino.

fizeram travessias, 
num bater de asas sobre terra e mar,
sobre ondas a redemoinhar
rebentando em espuma
e a bruma a esfumar...
chegaram à terra, buscando o sentido
da vida
numa alegria que explode
com a liberdade que só ave pode.

o vento cala-se, as árvores agitam
surgem as estrelas e as aves gritam
recolhendo ao ninho
nasceram filhos. põem-se a caminho
estão de partida, 
sobre mornas ondas, asas em movimento
enquanto eu procuro sentido prá vida,
nesta poesia desgastada que me apoquenta
o pensamento.

natalia nuno
rosafogo
11/2004

versos que não lês...



faço versos para ti que não me lês
mas sinto no bater do teu coração
por perto do meu, que crês,
que os crio com emoção, então 
que importa se não os lês?
foi para ti que os criei!
são flores que folha a folha desfolhei.
dia a dia, mês após mês...
pensei que entrariam no teu peito
mas foi mera utopia
nada aconteceu desse jeito
as minhas mãos já poemas não tecem
e no meu dia, 
os versos, são flores que emurchecem .

teu coração está seco
já não o sinto pulsar!
meus versos caíram num beco
sem vestígios deixar...

natalia nuno 
rosafogo
11/2004