quinta-feira, 12 de novembro de 2020

já nada me derrota



memórias...de infância
o pulsar do tempo alucinado
cego, tanta a obscuridade
rumor nas pétalas que se perdem
saudade...saudade!
vôo lento duma gaivota
silêncio e nostalgia
já nada me derrota!
nem o rosto reflectido nas águas
nem a noite nem o dia
nem as mágoas
nem a morte!
nem sonhos nem pesadelos
nem o medo ou a loucura
faço de tudo aceitação
enquanto palpitar meu coração.

nesta avidez do tempo
dentro de mim um apagão
foge a memória como o vento
restam pedaços de recordação
nada devolve da vida o ardor,
a face perdida, o corpo em flor.

natália nuno
partiu destes pequenos poemas
a minha vontade de escrever, ficaram-se pelo papel
e agora vou soltando um a um, mesmo sabendo
que são castos........



desilusão...



insisto em me esconder
como se do mundo não fosse
não consigo entender
porque é amargo
e não doce.

direis vós, direi eu
que a felicidade está por aí
que a vida é maná do céu
vezes sem conta repeti.

vós que passais pois vede
como é grande a confusão
meus olhos turvos na boca a sede
até o espelho, me olha com provocação

neste insistente abismo
levo as asas estendidas
serei ave que ainda voa? cismo!
tão pouco valem nossas vidas.

natalia nuno
rosafogo
um dos meus 1ºs poemas 
passei-o ao blog para não ficar esquecido na sebenta.



as paredes antigas...

as paredes antigas fascinam-me... ninguém, nem o tempo consegue tirar-lhes o ar misterioso, guardam segredos dos que perderam o norte, deixando saudade ou quem sabe sabor amargo com a sua ausência...parece que alguém aguarda por detrás ... quando as olho consigo abstrair-me da realidade... quando a chuva cai do céu e o vento não cala, mantêm-se nelas as cores sombrias duma primavera empalidecida, resta o sol na memória de primaveras risonhas dentro das quatro paredes... fico no sonho, o outono cala as minhas sombras, desespera por cobrir a solidão que se faz sentir no peito, apesar da beleza a folhagem vai caindo como um pranto ao acaso e, sem medo levada pelo vento norte, à sorte... as folhas são lembranças soltas, virá de novo a primavera e logo depois dar-se-á o renascimento... só a vida não volta!

natalia nuno


terça-feira, 10 de novembro de 2020

Flor...





A uma flor...
Ele, há lá flor mais bela
que te possa ofuscar?!
Seja branca ou amarela
não precisas invejar...
És de raiz bem nascida
q' te impede de murchar
nem vais ficar esquecida
se a morte a vida levar
Se o tempo é teu algoz!?
Mas esperança é sonho!
Não seja a lembrança atroz
nem o amanhã medonho
Não te tirem a esperança
de amanhã feliz tu seres
recorda-te sempre criança
para feliz assim viveres...
Esquece da vida revezes
de tudo o que ela te afronta
o que é preciso é às vezes
vivermos ao faz de conta.
A vida matiza dias às cores
põe-te o coração a bater
se te invejam outras flores...
tens afecto e bem-querer.
natalia nuno
rosafogo

segunda-feira, 9 de novembro de 2020

pois até de amar-te já passou da hora!




oiço o papel rindo das minhas palavras
mal comecei a escrever,
colocou-me mais uma ruga, rasgou-me o coração
mas jurei renascer,
com doce apego e obstinação.
há um cisne branco na manhã distante,
no lago das palavras que escrevo
e a minha memória ofegante flui
lembrando-me se devo ou não devo
silenciar no poema aquilo que sou e fui.

papel branco que ri da minha caligrafia
na sua brancura só vejo minha alucinação
e o silêncio me toca, fica a mente vazia,
e mudas as palavras na mão...
e eu que te sonhava em cada linha
com toda a plenitude do meu ser
deixo a palavra linha a linha... a morrer!

neste infiel papel branco
mais poemas não lavrarei, fica sobre a mesa
ignorado e vazio, o poema em que te amava
com certeza, são agora linhas
dum deserto inóspito e frio
onde o presente se perde no passado
num mar de tempo que trago a meu lado.
velhas as linhas das minhas mãos,
descansarão agora...
pois até de amar-te já passou da hora!

natalia nuno
rosafogo
imagem pinterest




 


sexta-feira, 6 de novembro de 2020

quando meu nome esquecer..



na penumbra dos meus olhos, 
há gotas de orvalho, que são mansas
lágrimas que vão rolando no meu rosto,
lembranças que vêm da profundidade da alma, 
lembranças de saudade...
rosto, que tem a quietude dum lago e a calma
da águas transparentes, onde mora
amiúde o sorriso, a minha identidade
em meus versos, meus olhos se abandonam
nos poentes, e às vezes se fixam numa dor
que percorre meu corpo, já longe da ascensão,
e são como uma flor a emurchecer pelo chão
- quando meu nome esquecer
ficarei longe da vida que arde
como folha extraviada pelo vento levada
numa tarde de outono,
será angústia o que me resta,
num silêncio golpeado
pobre rosto rasgado.
na memoria já o sono.

mas aos meus olhos ainda vêm odores
que lhe chegam com a formosura do vento
de flores fulgurantes, odorosas,
jasmins e rosas...
nas minhas mãos cairão cadentes estrelas
de desejo, e serão o ensejo
para voltar de novo a viver como se não fosse
passado o tempo, e os sulcos no rosto esquecidos,
será então a solidão mais doce
o esquecimento, os anos vividos, meus olhos de menina
não se deixam afogar de tristeza,
quando parecer soluçar
afundarei a cabeça no teu peito
e vou-te amar, deste meu jeito.

natalia nuno
rosafogo




terça-feira, 3 de novembro de 2020

é a hora das sombras...


é a hora das sombras
passam aves voando ao relento
enquanto minhas lembranças sonolentas
se amontoam no pensamento
vai-se o céu escondendo entre as ramagens
e relampejam na memória imagens
da criança feliz, correndo rumo ao futuro
com seu corpo puro, de tenra idade
é a hora das sombras, hora da saudade
saudade que se levanta como um enleio
na sua verdura quando é primavera.

meu coração despenha-se no vazio
da espera, mas levo o peito cheio
e as palavras resvalam-me por entre os dedos
a cumprir um último destino
desprendem-se sem medos
na hora das sombras, tempo do divino

hora despida que o corpo me percorre
é quase noite na minha idade
mas a luz dos meus olhos não morre
porque até ao fim da escrita
sempre palpita a saudade...no coração!

natalia nuno
rosafogo